Correio do Minho

Braga, quinta-feira

“We’ll allways have Paris”

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2015-12-14 às 06h00

Carlos Pires

Vem o título desta crónica com a icónica frase do filme ‘Casablanca’ a propósito de uma das minhas mais recentes viagens. Quis Deus que eu estivesse em Paris no fim-de-semana em que o mundo parou, atónito, perante mais um vil e arquitetado ataque terrorista, causador de tantas mortes de inocentes, gratuitamente. Quis Deus ainda que eu não estivesse próximo de qualquer dos locais escolhidos para o massacre.

Lembro-me do dia seguinte, sábado. Não conseguira dormir, tal era o estado de ansiedade em que me encontrava. De manhã fui o primeiro a tomar o pequeno- almoço, no hotel. Eram 6,30 horas. Estava muito próximo de um dos símbolos de Paris, a ‘Torre Eiffel’, uma das estruturas mais belas e harmoniosas do mundo e que tanto fascínio e magnetismo exerce sobre as pessoas. Não se consegue explicar; sente-se. Decidi pois caminhar até à zona de ‘Invalides’, atravessando os extensos jardins até chegar à Torre.

Amanhecia. Com uma tímida luz. O tom dominante do céu e da envolvência era o cinza.
Paris estava deserta, sem vivalma, sem brilho ou luzes. Os franceses e os milhares de turistas que diariamente pululavam naquelas artérias tinham evaporado. Todos os locais públicos iriam estar encerrados, incluindo todos os museus e muitas estruturas comerciais. Silêncio. Senti-me a viver um momento pós apocalíptico.

Lembro-me de ter chegado à área restrita onde a Torre esta implantada, de olhar sob ela para o céu, espartilhado por todos aqueles braços em ferro, e que se mantinham firmes, ‘malgré tout’ / apesar de tudo. Havia polícias espalhados por aquele espaço, camuflados e que ostentavam imponentes armas de fogo. Olhavam-me de soslaio, certamente intrigados por me verem por ali. Aguardei que me dissessem para não avançar, mas não, permitiram que eu prosseguisse a minha caminhada até à zona mais alta, o ‘Trocadero’, e que pudesse avistar uma parte tão bela da cidade mas que, naquele dia, estava ‘morta’ e por isso irreconhecível.

Domingo chegou com uma incrível luz do sol e uma temperatura elevada, pouco habitual para aquela altura do ano. O dia estava lindo. E tudo mudou. As ruas inundaram-se de pessoas, franceses e turistas, ouviam-se despreocupados risos e conversas. Os pintores exibiam os seus trabalhos em toda a área envolvente à catedral ‘Notre Dame’. Havia músicos em cada esquina, o ‘jazz’ parisiense ecoava no ar. Como se de repente tivéssemos viajado numa máquina do tempo até à ‘Belle Époque’ do final do século XIX.

A fotografia que ilustra esta crónica foi capturada por mim, nessa manhã de domingo. Retrata um casal de namorados, apoiado no beiral da ponte ‘des Arts’, junto ao rio Sena, a beijar-se, alheio a tudo e a todos, como se não houvesse amanhã. Provavelmente após terem realizado juras de amor eterno, seladas por um cadeado, como manda a tradição.

E esta alegria mostrou-me que sem ela a vida não tem sentido. Que sem ela estamos mortos. E que certamente fora esse o motivo que levara os terroristas a terem escolhido aquela que é considerada a ‘cidade das luzes’ e a ‘capital do amor’ para aí alcançarem um efeito devastador, que vai muito para além da morte dos que foram atingidos pelas rajadas das armas de fogo.

Cirúrgica ainda a escolha do dia e da hora da semana para perpetrar o martírio: a altura em que os franceses aproveitavam para descontrair e gozar momentos de diversão, uns numa sala de espetáculos - o ‘Bataclan’ -, outros num estádio de futebol, e outros ainda numa esplanada ou em restaurantes. Poderiam ter optado por abater forças de segurança ou mesmo gentes em eventos ligados à política ou à alta finança. Mas não, quiseram atirar contra a alegria, esse sim o alvo que servia os seus (inconfessáveis) interesses.

“Em razão da fragilidade da nossa natureza, sem algo de que gozemos, a que estejamos unidos e por que sejamos fortalecidos, não poderíamos existir” - ensinou-nos o filósofo holandês do século XVII, Bento Espinosa. A alegria e o amor são forças motrizes da nossa existência e da nossa vida. Sem elas não há sequer viver. É esta a mensagem (e inspiração!) que deixo aos meus estimados leitores, com votos de um Santo Natal e de um (renovador) Bom Ano Novo.

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