Correio do Minho

Braga, quarta-feira

'Leão, o meu fiel amigo'

O Estado da União

Conta o Leitor

2013-07-06 às 06h00

Escritor

Carlos Alberto Rodrigues

É durante os meus primeiros anos de vida que esta história acontece.
Por uma razão de costumes, a minha família que vivia na aldeia ­­— os meus pais optaram pela cidade para ganhar a (difícil) vida — recebia de vez em quando algum elemento mais no seu seio, ou porque depois de tanta persistência a rondar a casa em busca de restos de comida, ou porque o coração falava mais alto. Nessa matéria meu tio era um autêntico Noé. Sempre de pé atrás daqueles que diziam mal dos animais, ou ripostava sempre que alguém tentava agredir algum animal.

Teria uns cinco anos de idade. E desde sempre adorava o regresso àquela terra que me viu nascer e onde tinha os meus verdadeiros amigos e as brincadeiras mais diversas aconteciam.
De início pareciam pequenos murmúrios, depois, ouviu-se aquilo que eram latidos que vinham de um monte de silvado e arbustos. Pelo som parecia em apuros. Naquela altura estávamos - eu e meu tio - de regresso a casa depois de mais uma jornada no campo entre as folhas dos milheirais. Vínhamos cansados e o local era de difícil acesso pois para além do declive era habitado por silvados e arbustos viscosos que surdiam do chão. Aproximei-me a medo pois tinha os pés nus, não fosse espetar um espinho. Porém a vontade em chegar rápido aos uivos que se faziam ouvir mais incessantemente, foi maior do que esse receio.

Depressa dei de caras com ele. Pequenino, do tamanho da mão de um adulto, preto com o branco a cobrir-lhe a parte dorsal, acredito que estava em pranto pela fome que devia sentir mas também pela ausência da progenitora que o tinha abandonado para retornar às suas rebeldias, às correrias entre os campos na companhia de mais rafeiros enquanto me olhava com aquelas duas bolinhas cor de mel…

Porém aquele cachorrinho frágil seria especial. E porque na altura não havia algum cão ­— como era costume — não seria entrave de parte de meu avô, afinal o patriarca. Aliás, jamais consegui ver o meu avô com um gesto que não fosse de dignidade, verticalidade e honestidade.
- “Este será o mais novo do clã”. Disse em risos de satisfação.
Os dias foram passando e ‘Leão’, assim chamado por ter nascido, ou encontrado no signo do mesmo nome, ia-se habituando ao seu novo estatuto.

Mais difícil era apanhá-lo quieto, mesmo que a descansar depois do almoço ou jantar. Nada! Só lhe apetecia correr pelas cercanias sempre à espera de alguém para lhe fazer companhia. Se estava preguiçoso, escolhia o meu avô que cuidava mais da lida perto de casa, se queria aventuras e correrias loucas monte acima, monte abaixo, fosse para evitar que as vacas se tresmalhassem, fosse a correr atrás de uma perdiz ou lebre, era sempre o amigo presente.

E cada vez que ia avançando com o tempo parecia saber de letra qual a altura do ano e respectiva lida: se ir ao monte em busca de lenha para aquecer no rigor do Inverno, se era para acompanhar o pessoal na vindima ou apanha da fruta, ou colher o milho e mato. A verdade é que qual camaleão se adaptava qual humano às intempéries não temia os rojões dos foguetes enquanto outros fugiam a sete pés com o rabo entre pernas.

Quando voltava àquele local, a algumas centenas de metros, pelo ladrar, o meu tio já sabia que eu estava de regresso. Qual Carlos Lopes corria pela ladeira abaixo até chegar ofegante junto a mim para me receber com lambidelas por tudo quanto era lado. Mais fiel era impossível.
Desde o raiar do dia até ao seu crepúsculo, ‘Leão’ era mais um no quadro da família. E como colaborava na lavoura com o seu corpo e inteligência tinha todas as mordomias que merecia.

Comia junto a nós perto da lareira. Dormia no alpendre, sempre resguardado fosse do frio ou da chuva fosse do sol. Houve uma altura que até padeiro foi: a minha avó entregava-lhe um saco de plástico no interior do qual se encontrava outro de linho para meter o pão fresco de cada dia. Era vê-lo descer com a cauda a dar a dar e passados 10 minutos lá estava ele de regresso. Ir ao Zé da Esquina, que era o padeiro da aldeia, ficava no centro da mesma enquanto a casa de meus avós era das que formavam o lugar mais cimeiro, já bem perto do verde dos pinheiros, carvalhos, azinheiras ou eucaliptos. Por isso era fácil para os pequenos, no Natal, correrem atrás do pinheiro, do musgo…

Num desses dias em que regressava para mais uns dias de descanso e brincadeiras, senti a ausência do meu amigo no local onde era costumeiro vir receber-me.
Quando cheguei a casa encontrei a minha bisavó, avó e o meu tio.
Este cabisbaixo, estava sentado num banco comprido que estava perto da lareira.
Não me ocorreram boas ideias quando me deparei com aquele quadro, sobretudo o meu tio que não era homem para estar em casa àquela hora do dia.

- Então tio, onde está o valente?
A sua cabeça baixou-se ainda mais tocando os joelhos.
- Aquele bandido. Já fazia tempo que contava que faria das dele. Depois do Persa - um gato que era um espanto, parecia mais selvagem que doméstico - que tinha desaparecido misteriosamente depois de 10 anos de convivência foi a vez do ‘Leão’. Juro que se não fosse para perder a cabeça dava-lhe o recado com uma boa sova.
Não percebia patavina.
- Foi o Quim das Fontainhas, esse energúmeno que gosta de matar tudo que mexe e não lhe faz mal. O pior é que ninguém lhe chama á razão. Ainda serei eu. Morreu às suas mãos tenho certeza.
Todo o meu corpo abanou com a palavra “morreu”. Deixei-me cair lentamente no chão apoiado na parede de madeira da cozinha. Também senti que chorei e como num filme revi-o vezes sem conta.
Fui ao local onde meu tio o tinha enterrado.
- Por pouco assistias a tudo. Enterrei-o há dois dias. Estava desaparecido há quase uma semana. Foi um desassossego. Só Deus vai fazer justiça. Uma criatura que Ele fez para nos alegrar. Jamais terei um assim. E assim foi. Como o Leão, apesar da fidelidade dos demais que vieram depois, nunca mais houve um igual.

Ainda hoje, apesar de o cumprimentar e falar-lhe mesmo que pouco, olho para ele com alguma mágoa e tristeza e vem-me ao pensamento o ‘Leão’ e um tempo em que era bom ir à aldeia. Depois do ‘Leão’ aos poucos, começaram a parecer os meus entes queridos. Até hoje.
É por isso que aquele cachorrinho que um dia vi cheio de fome e medo marca um tempo feliz no meu tempo.

Nota: Esta história é para todos os animais que morreram de forma horrorosa, criminosa e desumana, em especial o meu querido mandarim que morreu a semana passada.

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