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Leituras das presidenciais

O Acampamento do Centenário do CNE

Leituras das presidenciais

Ideias

2021-01-28 às 06h00

José Manuel Fernandes José Manuel Fernandes

Sem surpresa, Marcelo Rebelo de Sousa ganhou – folgadamente – à primeira volta. Pela primeira vez, temos um Presidente da República que ganhou em todos os concelhos de Portugal. Face ao agravar da pandemia, numas eleições com vencedor antecipado, registo positivamente uma taxa de abstenção abaixo das expectativas pessimistas. Mas poderia ser mais baixa. Há que equacionar o voto eletrónico e por correspondência, assim como flexibilizar-se o local de votação. Não faz sentido ter de fazer centenas de quilómetros para se exercer o direito de voto. Há incompetências inaceitáveis por parte do ministro da Administração Interna. No boletim de voto tivemos um candidato que nunca chegou a sê-lo, tendo reunido apenas reuniu seis assinaturas.
A vitória expressiva do Prof Marcelo é quase exclusivamente mérito seu. A ausência de alternativas credíveis também ajudou. Ninguém tem dúvidas que temos portugueses de enorme qualidade, de vários quadrantes políticos, que não quiseram apresentar-se.
Nas eleições à Presidência há candidatos que são mais do “partido” do que outros. Na verdade, nestas eleições, Chega, PCP, Bloco de Esquerda e Iniciativa Liberal foram a votos. Não se pode transpor o resultado para as legislativas, e muito menos para as autárquicas, mas há leituras a fazer.
A esquerda radical teve uma estrondosa derrota. O PCP tinha como principal objetivo ficar à frente do Bloco de Esquerda, mas em simultâneo esperava bem mais do que 5% dos votos. Para tal, apresentou o candidato a “tudo” João Ferreira. Foi cabeça de lista do PCP nas europeias e à Câmara de Lisboa, sendo eleito eurodeputado e vereador, e foi agora candidato a Presidente da República. Acontece que João Ferreira teve 4,32% (com menos votos do que o candidato comunista de 2016, Edgar Silva). O Bloco de Esquerda apresentou novamente Marisa Matias que teve menos 304.838 votos que em 2016, com a agravante de ter perdido para o PCP.
A Iniciativa liberal apresentou Tiago Mayan, um desconhecido, que teve 134.415 votos (3,22%), praticamente duplicando a votação da IL nas legislativas 2019, em que obteve 67.681 votos.
André Ventura não atingiu – por pouco – o objetivo de ficar em segundo lugar. O resultado é expressivo, ainda que não tenha sido surpreendente. Ventura recebeu os votos de quem não perdoa a Marcelo o “colo” que deu ao governo, os votos de protesto de gente que está desesperada e farta do “sistema”, os votos de ditos fascistas e antifascistas. Ventura somou mais votos de protesto que o PCP e o Bloco. Não admira. Todos os portugueses sabem que foram eles que viabilizaram os orçamentos de António Costa.
Há quem não perceba que Ventura tenha ficado à frente do PCP no Alentejo. A extrema direita em França há muito que recebe os votos de eleitorado que “pertencia” ao partido comunista. Aliás, os extremos confundem-se demasiadas vezes. Têm muitas semelhanças e auto-alimentam-se. A esquerda radical alimenta e ajuda Ventura, quando, por exemplo, é incapaz de condenar a Venezuela mas ataca Bolsonaro. Basta ver Mortágua: condena a falta de oxigénio em Manaus, mas não diz uma palavra sobre a falta de oxigénio no Hospital Amadora-Sintra.
No Parlamento Europeu, a extrema direita é contra a moeda “Euro”, acham-se os verdadeiros representantes do Povo, são nacionalistas e contra as políticas europeias. Tal e qual como o PCP. Aliás, o PCP e o Bloco de Esquerda, tal como a extrema direita, votaram contra o Quadro Financeiro Plurianual e, por norma, votam contra o orçamento anual da UE. Claro que não são iguais! Distinguem-se da extrema direita – felizmente – na defesa dos direitos humanos e no combate à xenofobia.
Ana Gomes não atingiu o objetivo da segunda volta, mas ficou em segundo lugar. A maioria dos votos vieram da ala mais à esquerda do PS. Da sua família política, o maior apoio veio do ministro Pedro Nuno Santos, que acabou por tornar-se um dos grandes derrotados.
E falta falar de Vitorino Silva - o ‘Tino de Rans’. Recebeu o voto de quem não quis votar no Prof. Marcelo nem em nenhum dos “filiados” dos partidos. É também ele um voto contra o sistema, de protesto, mas é um voto menos crispado, inofensivo e sem consequências, que não dá lugar a nenhum tipo de arrependimento.
Não vislumbro mudanças de comportamento do Presidente Marcelo no seu novo mandato. Enquanto o primeiro-ministro for António Costa, o Presidente da República manterá o mesmo comportamento, a mesma cumplicidade. Continuará a ser poder e, em simultâneo, uma aparente oposição.

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