Correio do Minho

Braga, sexta-feira

'Lembranças de menino'

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2013-07-17 às 06h00

Escritor

Carlos Alberto Rodrigues

Ofinal do ano surgiu, mais uma vez repentinamente, como acontece todos os anos. Prenúncio de que corremos céleres na celebração de cada Natal de cada Páscoa que as férias chegam depressa em cada Verão das nossas vidas. Até parece que os dias de hoje são mais pequenos do que os de ontem. A vida afinal acontece tão depressa que urge celebrar cada ocasião como se fosse a última.

Quando se é crescido tempos existem que ficam para sempre na nossa recordação, sobretudo de criança, quando o tempo não tem medida, quando tudo pode esperar e lembramos episódios que jamais se repetirão, porque crescemos e esse tempo fica num cantinho da nossa memória. No meu caso essas memórias vão para os tempos de criança passados na aldeia onde os campos se vestem de verde cor do Minho, um Minho fascinador, com vales e montes, com sol e sombras sempre com a vegetação colorida e encantadora da aurora ao crepúsculo de cada jornada. Como escrevera Júlio Dinis “Nestes dias assim sente-se palpitar de vida a natureza inteira.

Por toda a parte se realiza uma génese. No solo é o grão que germina;
Nos troncos as novas folhas que brotam; nos ramos as flores que desabrocham; nas águas, nas florestas, nos vergéis, nos ares, entre a folhagem dos pomares, uma jovem e inquieta geração de aves e de insetos que surge, animando tudo com seus magníficos concertos, com suas valsas incessantes e rápidas, iluminadas por um sol vivificador.
É contagiosa esta alegria da natureza.
O coração recebe o influxo dela”.

Recordar as idas ao monte em busca de mato, entretanto roçado, ou a lenha para arder na lareira que aquecia os corações em dias de frio cortante, para ver e ajudar nas lides dos homens adultos e que seria transportado em carros puxados a juntas de bois e cujos eixos “choravam” pelo peso sobre as grandes pedras da calçada daqueles tempos. Rituais tão bem contados que eu imaginava-me um sortudo por puder acordar ao som do chilrear dos pássaros, do pequeno-almoço, que tem um sabor diferente e único na aldeia, das correrias por entre veredas e os verdes campos na companhia das irmãs, primos e amigos, numa ciranda de alegria contagiante. O brilhar dos olhos nas lides domésticas, quando as avós preparavam o farnel para alimentar os Homens que trabalhavam arduamente a terra, que vindimavam ou ainda roçavam mato numa alegre algazarra onde se contavam as novas da aldeia enquanto esperavam para saciar a fome e a sede

Na minha infância para além do verão, onde dava asas à minha imaginação, aquelas imponentes montanhas que levavam ao moinho onde via todas as passagens dos grãos de milho até se tornar em farinha que colocava na mesa o pão nosso, a avidez de ver minha avó a passar da farinha para a broa quente e deliciosa, por entre veredas e várzeas, saltando de eira em eira sempre à procura de novos aromas novos caminhos nunca antes explorados, onde pudesse abstrair-me dos cuidados e dos deveres da escola que deixara na cidade grande, lugares mágicos onde viviam todos os meus sonhos e desejos de menino, quando o tempo parece parar, por momentos, para que concretizem esses sonhos mesmo que por instantes na tal magia que temos nessa idade, da inocência, quando julgamos que tudo é belo, que jamais faltará aquela pessoa de quem tanto amámos, dezembro era o mês mágico.

Da magia vinda dos presépios que criávamos com todo o cuidado com as figuras bíblicas colocadas estrategicamente sobre o musgo que tinha trazido do monte às postas e do pinheirinho que assinalava a luz do nascimento e que emprestava á casa um aroma a pinho que ficou para sempre na minha memória.

O Dezembro era a minha libertação. Sonhava o ano inteiro com o dia em que ia ao monte que ficava logo ali bem pertinho de casa de meus avós e de lá trazia a magia carregada ao colo. Eram outros os tempos. Tempos que passavam devagar para que nos deliciássemos de cada momento porque seriam únicos e porque afinal eram tempos de infância. Um tempo tão pequeno quanto nós.

Certamente, por isso mesmo, o que mais saudades traz nesta época de final de ano. Depois seria tempo de crescer e de deixar as magias para trás. Ou como escreve o Carlos Tê na música do Rui Veloso “É triste ser-se crescido e não ter mais rédea solta.
Ir descobrir o sentido Do mundo à nossa volta
É triste dizer adeus Aos nossos velhos cantinhos
E ouvir a nossa mãe A mandar-nos ir sozinhos”
Ou que triste é ter de trocar os calções pelo colarinho apertado,
Ter cartão de Identidade já com outro penteado.

Como tudo isto é a pura verdade! É com estas músicas que vamos crescendo e dando sentido á nossa vida. Hoje tudo é diferente. Desapareceram as pessoas que mais amamos por que envelheceram e pereceram, as mesmas que nos sorriam a cada chegada do mês de Dezembro, para passar o Natal e Fim de Ano. Pais, Avós, tios, primos pessoas que nos ajudaram a construir esses sonhos e que recordamos com saudade a cada ano que passa. Agradeço ter meus pais para me ajudarem a lembrar alguns cantinhos esquecidos dessa meninice feita com musgo e pinheiros, com rabanadas e aletria. Com foguetes feitos de canas de milho ou ainda daquela lareira que estava sempre acesa para nos aquecer depois de uma jornada ao frio cortante dos montes que ficavam nas faldas do Gerês.

Mesmo assim, por toda aquela riqueza vivida, hoje sempre é mais fácil voltar a lembrar com um sorriso na face aquele tempo em que éramos pequenos pardais à solta; pequenos galãs que num dia se fizeram e tornaram Homens. Nunca escondidos no seu passado, antes prontos a olhar em frente de cara levantada e peito ao vento para novas jornadas que vão moldar o teu novo ser. Deixar-me ir neste sonho, nestas lembranças e entregar-me pois fico a ganhar neste jogo que é a vida.

Apesar de tudo ser diferente, hoje venho aqui com alegria porque afinal sempre posso sonhar que dali o mundo até parecia um lugar feliz onde era bom viver. Por isso, às vezes lembro que o Carlos Tê continua a ter razão:
É triste ser responsável
Guardar horas na cabeça
Ter tantas obrigações
Que fazem andar depressa
Ai como é bom recordar
Esse tempo de criança
Às vezes queria parar
Crescer muito também cansa.

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.