Correio do Minho

Braga,

- +

Ler

Ser ou não ser

Banner publicidade
Ler

Voz aos Escritores

2022-05-13 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Reconhecer as letras, repetir as sílabas, juntá-las em palavras, adicionar sentidos e visualizações. Frases, parágrafos e finalmente o texto como um todo. A partilha de uma história ou estória, um momento, uma reflexão, uma viagem, uma elevação. Um alargar de horizontes.
Quando a minha irmã e a minha filha leram pela primeira vez uma frase, com autonomia e apropriação de sentido, tive o privilégio de estar presente. Emocionei-me das duas vezes. Marca o início de um caminho de autonomia, de apropriação de conhecimento do mundo e dos outros de forma livre. Talvez a maior conquista do ser humano. A livre escolha do que se quer ler, do que se quer descobrir. Do que se quer aprofundar. A partir daí, os mediadores de leitura (pais ou professores, normalmente) já não são fundamentais, o que não quer dizer que não continuem a ser importantes. Mas há uma liberdade conquistada a partir deste momento. Se não for a maior, concordemos que é gigante.

Costumo dizer aos meus alunos, especialmente nas sessões de escrita criativa, que um livro para ser bom deve ter pelo menos duas coisas: identificação e adição. Identificação seja com a temática, alguma personagem ou o espaço envolvente. É importante para manter o interesse e a ligação com o livro e a leitura. Adição porque tem de me (leitora) acrescentar algo que eu não sabia. Caso contrário, estou a desperdiçar tempo e a oportunidade de crescer, de aprender, de evoluir. Não podemos viver como se fossemos imortais. O nosso tempo é finito e por isso precioso. Deve ser bem empregue, mesmo na leitura. E depois um sussurro: os melhores livros são aqueles que nos revelam algo que até já sabíamos, mas nunca tínhamos conseguido verter em palavras. É verdadeiramente sublime. E nasce daí a importância da construção de um cânone, de um conceito de literatura, de separar o trigo do joio e criar referências, sem desfazer as referências pessoais de cada um.

E se por um lado nos últimos anos há um trabalho enorme das escolas e bibliotecas escolares e municipais a registar e a parabenizar, por outro é com tristeza que olho para os números reveladores da leitura em Portugal. A crise começa a partir dos 10 ou 12 anos, o que pode coincidir com a aquisição de telemóveis e mergulho no mundo digital. Não vou demonizar o digital, onde a leitura também se inclui e faz, com penalização para a compreensão e retenção. Mas se somarmos isto com a velocidade vertiginosa com que vivemos, sobra pouco para a leitura perante outras seduções.
Dizem-me ainda que o livro é caro. Eu digo que é apenas uma desculpa. Além de se gastar mais dinheiro em coisas supérfluas ou de consumo cultural mais rápido (basta comparar com uma ida ao cinema, nada contra, um brinquedo de plástico ou com a aquisição das sapatilhas da moda), as bibliotecas não estão cheias de leitores ávidos que não têm condições económicas para a aquisição de livros mensalmente.

A leitura pede tempo, pede silêncio, pede investimento. Pede também construção para as interpretações com recurso ao capital cultural de cada um. Já muitos programas e iniciativas existem, mas parece-me ser importante a criação curricular de pelo menos duas horas semanais para a leitura. Apenas leitura. Uma disciplina obrigatória mais, como um clube de leitura ou leitura apenas, onde os alunos a partir do 5º ano teriam de ler livros previamente selecionados e adequados, um catálogo variado de onde pudessem escolher (até já existe o Ler+ e outros). A avaliação seria feita pelas suas apresentações orais, 5 por ano letivo, sem gramática ou julgamentos de interpretações, desde que fundamentadas. O professor de Português presente nestas aulas para ajudar, orientar ou explicar alguma dúvida. Porque este problema é um problema de educação e precisa do investimento do seu Ministério. E só depois da educação se chega à cultura.
Podem dizer que a carga letiva já é grande. Não há nenhum ciclo com uma carga letiva tão pesada como o 1º. E trata-se de um investimento em tempo, construção e edificação, na faixa etária onde começa o abandono do livro.
Criar tempo para a leitura é criar tempo para crescer.

Deixa o teu comentário

Últimas Voz aos Escritores

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login Seta perfil

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a Seta menu

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho