Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Liderança, inovação e confiança, uma receita

Sem paralelo

Ideias

2017-05-26 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Oatual Governo tomou posse no meio de uma controvérsia política , que se veio a traduzir na vulgarização de uma designação que sempre achei incorreta . “Geringonça” , de acordo com o dicionário on-line de Português, corresponde a “uma coisa malfeita que ameaça ruína; obra maljeitosa e mal armada que ameaça desconjuntar-se. O dicionário Priberam da Língua Portuguesa, também on line, indica um significado adicional - “aparelho ou mecanismo de construção complexa”. Se bem me lembro, foi Paulo Portas que em novembro de 2015 trouxe o termo para a ribalta, que a generalidade da imprensa e dos políticos acabaram por adotar; com algum sentido de humor, menorizava-se assim uma opção política construída num contexto democrático e institucional.
A 30 de outubro de 2015 , na sequência das eleições legislativas, tinha tomado posse o XX Governo constitucional, liderado por Pedro Passos Coelho. O resultado do voto popular tinha permitido a uma coligação formada pelo PSD e pelo CDS obter uma maioria relativa. A composição do Governo que então tomou posse era claramente uma linha de continuidade face ao governo anterior; para além obviamente de Passos Coelho, integrava Paulo Portas, Maria Luís Albuquerque, Rui Machete, Aguiar Branco, Marques Guedes, Assunção Cristas, Pedro Mota Soares . Em 2011, Passos Coelho sabia ao que ia quando a rejeição do PEC IV levou à queda do Governo Sócrates. A profunda crise económica e financeira global de 2008 tinha atingido em cheio Portugal, no quadro de uma série de fragilidades e excessos, e a troika tinha já chegado, com as regras impostas por quem empresta o dinheiro necessário. O programa do Governo Passos Coelho, que tomou posse a 21 de junho de 2011, estava definido no Memorando de Entendimento, assinado a 17 de maio desse ano, e continha metas e compromissos. Era necessário cumprir? Era. Foi necessário a austeridade? Na minha opinião, sim, foi. Contudo, no quadro de uma perspetiva demasiado ortodoxa do ponto de vista macroeconómica, ou por insuficiente informação, quem sabe, o gravíssimo problema do sistema financeiro português não foi suficientemente considerado. Pensava-se até que o mesmo estava “protegido” da convulsão financeira que ia por outros países. Nem a troika, nem o governo de então, potenciaram o que se passava, definindo políticas adequadas, com os resultados desastrosos que todos sabemos, e uma muito séria contração do crédito, com consequências para o funcionamento da economia.

Em 2015, principalmente académicos, referiam já a possibilidade de políticas alternativas. Havia estudos e projeções. A generalidade dos comentadores não acreditava, até porque em Portugal acredita-se ainda pouco no valor intrínseco da educação. Curiosamente, a educação constitui ainda um instrumento capaz de operacionalizar um objetivo de vida, seguramente legítimo- mas, no fundo, duvida-se ainda da associação entre conhecimento e competências adicionais. O programa do Governo Passos Coelho, que tomou posse em 2015, mantinha quase intacta a sua linha programática liberal, preso ao Memorando num tempo que se pretendia pós-troika. E sem que, provavelmente, nunca o tivesse antecipado ou previsto, no quadro de um exercício de democracia parlamentar surpreendente, o programa foi rejeitado pela maioria dos deputados , levando uma rapidíssima queda do governo, ao fim de vinte e sete dias.

No contexto da manutenção de uma via de política económica tomada como única, compreende-se certamente a antecipação de Passos Coelho de que “viria aí o diabo”.
Liderança, inovação e confiança podem fazer a diferença, não apenas nas relações entre pessoas, na atividade das empresas, mas também para compromissos tacitamente estabelecidos; um matemático italiano, creio que Caprario, tem estudado as bases da cooperação, se é intuitiva ou pelo contrário, exige um esforço deliberado, partindo do reconhecimento que as sociedades têm tanto mais sucesso quanto maior for o grau de cooperação em que se baseiam. A questão é complexa, mas poder-se-ia argumentar, sob certas condições, que as pessoas preferem a cooperação e o comportamento mais otimista. Enfim, também há outras explicações -a nossa cultura é tal que empurrados para o precipício, mesmo quase a cair, encontramos sempre força e soluções inovadoras …

O que é certo é que o Governo liderado por António Costa, que tomou posse a 26 de novembro de 2015, com base em três acordos de incidência parlamentar assinados bilateralmente com três partidos da esquerda (PCP, Bloco de Esquerda e o Partido Ecologista Os Verdes) confirmou aquilo que os economistas sabem, embora nem sempre o digam - há sempre alternativas.
Liderança, confiança, capacidade negocial, conhecimentos, reconhecimento de que as pessoas são importantes. As notícias recentes da atividade económica são melhores do que antecipamos, também em resultado do que vai acontecendo lá por fora, e da sorte. Diz que protege os audazes. Mas está-se sempre no princípio.

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