Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Lideranças políticas fracas

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Ideias

2011-01-11 às 06h00

Jorge Cruz

Nos últimos dias têm-se intensificado as pressões para que Portugal recorra à ajuda financeira internacional, designadamente ao fundo de resgate europeu e, obviamente, ao FMI. Tais pressões, sempre desmentidas pelos seus autores - o eixo franco-alemão -, são em tudo semelhantes aquelas que a Irlanda sofreu dias antes de este país solicitar o auxílio externo.

Quer a Alemanha quer a França mostram-se preocupadas com a possibilidade de a crise da dívida poder vir a contagiar outras economias, designadamente a Espanha, o que, a acontecer, colocaria em causa a moeda única e a própria ideia de Europa, já que o país vizinho é a quarta economia europeia. Aliás, Berlim e Paris não escondem a pretensão de levar a que os países da zona euro assumam o compromisso de fazer tudo o que for necessário para proteger a moeda única do bloco. A questão de fundo, no entanto, é que mesmo uma eventual ajuda externa a Portugal não afasta totalmente, bem pelo contrário, o espectro de ataques dos mercados ao nosso vizinho ibérico.

De facto, a generalidade dos analistas internacionais considera que se Portugal se vir obrigado a recorrer ao fundo de resgate europeu, os operadores financeiros virar-se-ão desde logo para Espanha. E tal sucederá porque, conforme ainda ontem sublinhou o “El País” em editorial, “o que parece estar a pesar nas expectativas adversas sobre as economias periféricas da zona euro é a vulnerabilidade dos sistemas bancários”.

Nesta lógica, para os mercados “pouco parece importar o provável cumprimento dos objectivos de redução do défice assumido pelas autoridades portuguesas”, já que, como se tem verificado nos últimos meses, os ataques não só continuam como até se intensificam. O que significa que, afinal, o clima de confiança está a ser mais afectado pelo sector bancário do que propriamente pela capacidade de redução do défice, ou seja, pelo elevado endividamento de empresas e particulares.

Como quer que seja, estas pressões externas para que Portugal recorra rapidamente ao fundo de resgate são totalmente inaceitáveis, principalmente sob o ponto de vista da soberania e autonomia nacionais. Por mais poderoso que seja, o eixo franco-alemão não pode decidir unilateralmente em nome dos países periféricos. Não pode nem deve determinar o que mais convém a esses países e muito menos impor-lhes a sua vontade. Atitudes despóticas desse género apenas servem para desacreditar ainda com maior gravidade o projecto europeu e, nessa medida, contribuem para o ferir de morte.

Mas se no plano externo nos podemos queixar da qualidade das lideranças políticas, de resto como tem sido frequentemente denunciado por estadistas como Mário Soares ou Filipe Gonzalez, a verdade é que a nível interno o panorama não se afigura muito melhor, havendo também fartas razões de queixa.
Um exemplo claro da falta de visão estratégica foi dado este fim-de-semana pelo líder do principal partido da oposição ao não conseguir resistir à tentação de lançar ainda mais combustível para uma fogueira que necessita é de ser extinta.

Passos Coelho, que tem andado politicamente desaparecido, deu agora uma entrevista ao “DN” e à “TSF” durante a qual, e de uma forma absolutamente inoportuna, analisou cenários mais ou menos catastrofistas para defender eleições antecipadas. Ou seja, num momento tão sensível como o que estamos a atravessar, quando todas as palavras dos responsáveis políticos devem ser cuidadosamente sopesadas, não se coibiu de sobrepor os seus interesses, pessoais e partidários, ao interesse nacional.

Nas considerações que teceu, o líder do PSD considerou que uma intervenção do FMI em Portugal “representará um falhanço político grande e grave do governo”, pelo que, em sua opinião, deverão ser realizadas novas eleições. Ou seja, Passos Coelho mostra-se alinhado com a lógica dos mercados e, nessa medida, desvaloriza totalmente os resultados já alcançados pelo governo no cumprimento dos objectivos de redução do défice. Mas o mais curioso é que embora optando por essa depreciação, não deixou de sublinhar que o seu partido “fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar que Portugal chegasse a uma situação de bancarrota” que obrigasse a recorrer à ajuda externa.

“Só um governo escolhido novamente pelos portugueses terá força suficiente para liderar a recuperação do país”, afirmou o líder social-democrata, antes de descartar liminarmente qualquer hipótese de o seu partido apresentar uma moção de censura ao executivo de José Sócrates.

Claro que esta é uma estratégia que pode servir os interesses pessoais de Passos Coelho, que parece muito ansioso por chegar a S. Bento embora não demonstre coragem política para avançar com a moção de censura. Mas certamente não será a mais adequada aos interesses do país, numa altura em que os operadores financeiros internacionais têm os olhos fixados em nós. Além de que não há quaisquer garantias de que os portugueses venham a fazer escolhas muito diferentes daquelas que fizeram há pouco mais de um ano.

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