Correio do Minho

Braga, quinta-feira

‘Bemdita sejas tu Noite de Natal’...

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Ideias

2011-12-24 às 06h00

Paulo Monteiro

Hoje começa o dia mais longo do ano... mas ao mesmo tempo, também, o dia mais pequeno. É o dia mais longo porque, mais logo, se junta a família e se prolonga este convívio pelo dia de amanhã. Para muitos são apenas estas horas de alegria e de convívio que vão durar por um ano inteiro já que muitas e muitas famílias só se conseguem juntar no Natal. Por isso muitos dizem que Natal devia ser todos os dias. E todos os dias se deviam juntar famílias e famílias...

E é por isso que hoje também é o dia mais pequeno do ano por-que... as horas passam tão depressa que nem damos por elas.

O ano de 2011 foi particularmente importante para o ‘Correio do Minho’ já que comemorou os 85 anos de vida com a publicação de um livro sobre a sua história, da autoria de Joaquim da Silva Gomes. E, por essa razão, gostaria de hoje homenagear duas das pessoas que estiveram na origem do nascimento deste jornal; o seu primeiro director, Álvaro Pipa, e o seu primeiro chefe de redacção, Constantino Ribeiro Coelho.

E para os homenagear, nada melhor do que reproduzir, aqui, os textos que ambos escreveram no dia 25 de Dezembro de 1926, o primeiro natal do jornal, com o número 148 e um total de oito páginas.

Constantino Ribeiro Coelho escrevia um texto com o título ‘Recordações do Minho’...

‘Festas Populares - O Natal’
“O aniversário do nascimento do Messias, que toda a cristandade celebra, é para os habitantes do Minho a festa mais querida, mais alegre e mais tocante do ano.
E’ no dia 24, designado por excelencia a vespera da festa, que se desenha a feição principal e mais alegre das festas do Natal - a consoada. Em a noite de 24 para 25 o povo do Minho, aliás o mais amante da propriedade das palavras, e observador rigoroso dos preceitos da igreja, teima em chamar consoada a um lauto festim que, segundo os preceitos de Roma, não devêra passar da parva coenula de Marcial. Não lhe queiramos mal por isso. Cilicios e jejuns não se inventaram para os que trabalham.

Ao anoitecer já o madeiro, ha muito piedosamente guardado para aquele dia, arde no lar, onde conservará o fogo, alimentado pela vestais da familia, até ao dia de Reis. A parte que as chamas não consumiram é tirada do lar nesse dia, e posta a bom recato para só voltar ao lume durante as trovoadas, de cujos perigos se acredita ser o melhor preservativo. O eripuit coelo fulmen, aplicado a Franklin, seria julgado uma blasfemia pelos bons camponezes do Minho, crentes no singular pára-raios desconhecido da fisica.

Como porem, tudo tem as suas compensações, esta invenção, se não possue a virtude rial da do ilustre cidadão de Boston, leva-lhe a vantagem, grande nas provincias do Norte, de afugentar o frio das longas e gélidas noites de dezembro. Em frente do lar, a meza, coberta com a fina e alva toalha de Guimarães, verga, pela falta de costume, sob o peso dos manjares, a cujo apetitoso aspecto as crianças saltam, batendo as mãos de contentes, emquanto a lavradeira, já preparada com os vestidos domingueiros para a missa do galo, dá a ultima demão culinaria ás filhós e aos mexidos, indigenas do Minho, e peculiares da noite de Natal.

E´a hora da ceia. Todos os convivas ocupam os seus logares em roda da mesa, onde o indispensavel bacalhau, cozinhado de varios modos, e os classicos mexidos, fumam, ladeados por enormes pratos acugulados de loiras rabanadas e filhós.
As torres destas aureas frituras, em breves derrocadas pelas frequentes investidas dos sitiantes, vão desaparecendo com rapidez no meio da conversação, animada pelas repetidas libações do vinho de enforcado.

Qualquer, vendo que o centro de todo o sistema culinario daquela noite está representado pelo peixe popular de que a Terra-Nova forneceu os nossos mercados, julgará estar assistindo a uma ceia puramente aldeã. Não é porem, assim. No Minho, desde o mais ricohabitante da cidade até ao pobre camponez que janta um magro caldo e um bocado de brôa junto da sua enxada, todos comem bacalhau naquela noite. E´essencial, é da festa; e sabe Deus quantos passam grandes privações para o obter!”

O responsável pelo fecho da edição de hoje do ‘Correio do Minho’ é o Ricardo Miguel Vasconcelos, tal como há 85 anos esse fecho estava reservado a Constantino Ribeiro Coelho.
O director, Álvaro Pipa, encontrava-se na altura em Lisboa mas nem por isso deixou de enviar a sua mensagem, datada do dia 23, e... profunda já que destacou a Família... O título era ‘Noite de Natal’:

“Para o norte a noite de natal é amanhã. Aqui ateimam que é no sábado.
Eu não quero questões e o melhor é concordar.
No entanto, com este garotito de 3 palmos que tenho aqui ao meu colo, um encanto de rapaz e levadinho da breca, e com aquele palmo e meio de rapariga que ali, no colo da mãe, com uns olhos feiticeiros me está a desafiar para lhe encher de beijos aquela pequenina boquinha, vou, amanhã, celebrar a noite de Natal, elevando uma prece muito sentida ao nosso irmão mais velho, o Menino Jesus, para que faça muito felizes estes dois Amores.

Lembro-me com saudade do Natal da minha infância, recordando com enternecimento os que foram voando para o seio de Deus.
Estes dois Amores também me recordarão e isso me alegra porque viverei, quem sabe, seculos dobrados na mente deles e dos que deles descenderem.
Bemdita sejas tu Noite de Natal”.
Poucas mais palavras tenho para escrever, a não ser, em nome de toda esta grande família que leva até si o ‘Correio do Minho’, desejar-lhe um Feliz Natal!

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.