Correio do Minho

Braga, terça-feira

‘Melancholia’

Tancos: falta saber quase tudo

Ideias

2015-09-21 às 06h00

Carlos Pires

1. A ‘silly season’ supostamente terminou. As pessoas regressaram ao trabalho. Os alunos também. Setembro, o meu mês preferido, porque é quando tudo verdadeiramente reinicia e se renova, já vai a mais de meio.
Este ano, contudo, ao contrário de outros, sinto a época de ‘rentrée’ um pouco diferente. O país parece envolto numa nuvem com efeitos analgésicos, o ritmo é lento e tudo e todos parecem estar literalmente ‘na boa’. Não tem havido notícias sobre aumentos de preços ou de impostos. Há uma pizza extraqueijo e papperoni a ser estrela dos noticiários e fazem-se apostas para o próximo ‘round’, a ocorrer na arena encenada da TV, reservada ao box político entre os senhores de fato e gravata (escolhida pelos assessores!). Como se esses combates servissem para alguma coisa…. Ah, e há as entrevistas dos Gatos, os fedorentos, que põem a malta a rir enquanto os cinzentões dos partidos se esforçam por mostrar o seu lado mais piadético. A par, recebemos do exterior notícias estranhas, como aquelas que dão conta de novos estudos da prestigiada Universidade de Harvard que, pasme-se, alertam que afinal cedo erguer não dá saúde nem faz crescer. E a Senhora Merkel, que, ao contrário do que alguma vez poderíamos supor, defendera acerrimamente o acolhimento de refugiados pela Europa (por uns dias, está certo, até suspender o Acordo de Shengen, como forma de legitimar o encerramento das fronteiras).
Tudo muito ‘fixe’. Mas estranho. Parece que vivemos submersos numa época pré-apocalíptica, ao melhor jeito retratado no genial filme do dinamarquês Lars Von Trier, e que, tal como na sua obra, nos preparamos, serenamente, para o choque do planeta ‘Melancholia’ contra a ‘Terra’, ao som da mesma e dramática banda sonora - ‘Tristão e Isolda’ de Wagner. Sem Kirsten Dunst, é certo, mas com Joana Amaral Dias, sem roupa, na capa da revista ‘Cristina’. Ainda, é pertinente questionar: terão sido essas forças magnéticas responsáveis pelos murros e pontapés ocorridos, este ano, na outrora pacífica, altruísta e solidária ‘Festa do Avante’? Sem dúvida que o slogan utilizado pela organização do evento - ‘Aqui, onde é fértil o chão da luta’ - passou a ter outro significado.


2. Não pretendo manter o meu estimado leitor por mais tempo com um ‘nó na cabeça’. Passo a desvendar o motivo para todo este ‘estado de graça’ em que o país parece estar mergulhado, despreocupada, tranquila e melancolicamente, neste ‘meu querido mês de … Setembro’: as eleições estão à porta, tão simples quanto isto.
O clima eleitoral fez-me mesmo pensar na importância do escrutínio: e se cada um de nós, para além da política, também pudesse, de quatro em quatro anos, substituir a vida pessoal?
Tenha por base, estimado leitor, o ambiente de trabalho. Já pensou o quão o seu atual (intratável) ‘chefe’ alteraria o comportamento se estivesse sujeito a que você, de tempos a tempos, fosse chamado a votar na respetiva reeleição? Haveria promessas de aumentos salariais e de promoções, estou certo. Sendo que, no final, seria sempre sua a decisão de lhe dar o verdadeiro ‘chuto’, como forma de o penalizar pelas incompreensões e abusos exercidos no anterior mandato. Não seria entusiasmante um cenário assim? (pode sorrir à vontade).
Passemos para outro campo da vida pessoal: o das relações afetivas, v.g. o casamento. E se, em vez de juras ‘para sempre’ (que em muitos casos não passam de meses!), antes houvesse um mandato por quatro anos, findo o qual cada um dos cônjuges poderia ou não reeleger o outro para novo mandato. Que maravilhoso seria o período de ‘campanha eleitoral’, recheado de jantares à luz de velas, viagens surpresa, flores, etc, sempre que um deles pretendesse ser ‘reeleito’ pelo outro.
Todo este raciocínio seria aplicável a um sem número de relações sociais, à medida e escala de cada um, com a enorme vantagem de, de quatro em quatro anos, podermos fazer um ‘reset’ da nossa vida, confirmando laços, mas também rompendo com outros, esperançosos de que todos os problemas se resolveriam em cada nova eleição.
Para tanto, e porque a mudança estaria sempre nas nossas mãos, estou certo que todos perderiam tempo a pensar no assunto, a avaliar comportamentos e alternativas. E ninguém deixaria de participar em todos os atos eleitorais. Todos ganharíamos com isso. Incluindo a política.

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