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‘O que é aprender’: em alto-mar

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Ideias

2013-02-26 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

Continuando a nossa viagem pelo livro de Reboul, a segunda tese do autor leva-nos ao mundo do ensino e da docência. Partindo já do princípio que ensinar é a intenção de “fazer aprender” e que “escola” significa lazer (do grego, skolé) prescrevo inteiramente Olivier Reboul: “O ensino é portanto uma atividade a longo prazo, que se desenvolve numa instituição específica, entregue a pessoas competentes e cuja finalidade expressa é permitir aos professores adquirir saber-fazer e saberes organizados e transmissíveis, desenvolvendo o seu espírito crítico. Esta definição não faz mais do que desenvolver a tese inicial: ensina-se com a intenção de levar a aprender. E levar a aprender pode significar: levar a conhecer, a agir, a compreender; nunca pode significar levar a acreditar”.

Voltando à intenção de fazer aprender, o ensino é a comunicação de um conteúdo transmissível e organizado. Não é tanto o conteúdo que importa mas sim a forma que ele adquire, o caráter transferível e organizado que faz com que se ensine alguma coisa que merece ser aprendida. “A caraterística própria do ensino é, (…) comunicar os saber- fazer e os saberes que não são utilizáveis no imediato e que talvez nunca o serão, mas que permitirão pelo menos adquirir outros conhecimentos, adaptar-se às exigências mais diversas”.

E a partir daqui Reboul faz um paralelismo inquietante entre o “mestre” e o livro. E, ao definir o seu mestre ”… é preciso que o mestre tenha competência para ensinar o que não se encontra nos livros”, Reboul põe em questão todos os professores e educadores, que deixaram de ser mestres a partir do momento que o conteúdo e o método do seu ensino estão impressos em qualquer parte.

“O livro do mestre” aboliu o mestre. Esta é uma ideia curiosa que nos urge reflectir: quantas vezes o manual é o pilar de todo o nosso trabalho dentro de uma sala de aula? Quantas vezes o manual se sobrepõe ao processo de ensino-aprendizagem, levando o professor a lutar contra o tempo? Quantas vezes o manual, único na sala, “uniformiza” os nossos alunos dando a “todos diferentes”, “tudo igual”? Enfim… o professor será “mestre rebouliano” pelo menos, por tudo quanto acrescenta ao livro : “senão um saber novo, pelo menos uma forma nova de transmitir o saber; pelos exemplos que inventa, pelas perguntas que faz ou que leva os alunos a formular; pelas respostas que dá aos pedidos mais insólitos. Mestre, sobretudo pela sua arte de adaptar o saber ou a técnica à personalidade de cada aluno”.

Este professor-mestre faz lembrar também o pensamento humanista que referencia a diferença entre os professores não no que eles “sabem” sobre a educação, mas no que “fazem”, na maneira como “agem”, quando estão com os seus alunos. A preparação dos professores, nesta perspetiva, é um problema de transformação, no sentido de “tornar-se professor”: não é ensiná-lo como ensinar, mas ajudá-lo a descobrir em si as suas melhores formas de agir. Esta última ideia remete-nos para o “ser professor”: desenvolvendo um estilo pessoal de ensinar, explorando e descobrindo maneiras de utilizar a sua própria pessoa, os seus conhecimentos, para tomar as decisões mais acertadas. É um grande desafio humanista e que cada vez mais, hoje, deveria ser reclamado para a formação de professores. Não há lugar em educação para se ser mau professor ou professor “assim-assim”.

Um professor tem que necessariamente ser um bom professor: os riscos que se correm em educação são demasiado importantes. As mudanças nas caraterísticas pessoais, de ser e perceber, terão que levar os professores a sentirem-se como profissionais em situações de ajuda, muito para além do currículo escolar e do seu manual. É a capacidade de transformação de “professor” em “tornar-se professor”. Saibamos nós tornarmo-nos bons professores...

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