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Escreve quem sabe

2021-03-28 às 06h00

Cristina Fontes Cristina Fontes

A comunicação social precisa de refrescar o seu vocabulário. Seja qual for o jornal, a revista ou a televisão, o estilo, as palavras e as ideias repetem-se.
Os títulos são, muitas vezes, variações da mesma ideia. Admiro a criatividade dos jornais desportivos que nos surpreendem com as melhores capas, mas mesmo esses têm um “pote” de onde vão retirando palavras e expressões que usam até à exaustão: clássico, duelo, fome de vencer, sede de vitória, líder incontestável, os três grandes, fé, imparável, rivais, entre outras.
Quantas vezes já leram ou ouviram a expressão “figura incontornável” usada quando é noticiada a morte de alguém famoso? Referindo-se à morte de Júlio Pomar, o Ministro da Cultura referiu que “foi um artista extraordinário e uma figura incontornável na cultura e na história das artes visuais portuguesas.” (em https:// bit.ly/3lW5sn6, acedido em 26-03-2021); O presidente da Assembleia da República manifestou o seu profundo pesar pela morte de Vasco Pulido Valente, considerando que é uma figura “incontornável” do panorama cultural português. (em https:// bit.ly/2PCAMuU, acedido em 26-03-2021); “A figura do João Cutileiro é incontornável, primeiramente nas artes plásticas, e ocupa um sítio que não foi ocupado por mais ninguém”, pela sua “relação com a produção artística”, afirmou Pedro Fazendo, em declarações à agência Lusa. (em https://bit.ly/39gvkVG, acedido em 26-03-2021).
O défice não cresce, não aumenta. Ele “dispara” em todos os jornais: “Défice disparou para 5,7% em 2020, mas abaixo da previsão do Governo” (Público, 26-03-2021); “Défice dispara com a pandemia, mas ainda é menor do que os de Sócrates” (DN, 28-01-2021); “Défice dispara para 5,4% no primeiro semestre, revela INE” (Jornal de Negócios, 23-09-2020); “Défice disparou com resposta à pandemia” (Correio da Manhã, 24-09-2020).
Este défice também é “gigantesco” ou “brutal”: “A instauração de uma reforma desta natureza implicaria um défice gigantesco imediatamente.” (DN, 22-05-2018); “Trump tem um défice gigantesco para a expansão económica” (Dinheiro Vivo, 9-12-2018); “Défice brutal de motoristas” (DN, 30-07-2015); “há um défice brutal na rotulagem de produtos” (Heloísa Apolónia, na TSF, 14-02-2019).
E o que dizer de “alavancar”? Já não usa “fomentar”, “incentivar” ou “impulsionar? “Eventos desportivos podem alavancar a economia” (SIC Notícias, 28-07-2020); “Economista defende registo de cidadãos e propriedades para alavancar política económica angolana.” (DN.pt, 31-03-2020).
Em tempos de pandemia, a linguagem bélica entrou nas redações e parece não querer sair. Estamos permanentemente em “batalha” a “lutar” contra o vírus.” Sem medidas preventivas, EUA correm o risco de lutar contra o vírus até 2023” (Jornal de Negócios, 27-10-2020); “Há ainda muitas dúvidas sobre as vacinas que estão a ser desenvolvidas para lutar contra o vírus SARS-CoV-2.” (Público, 29-10-2020); “O Centro de Congressos do Estoril transformado em campo de batalha contra o vírus” (Público, 5-12-2020); “Podemos vencer a batalha contra o vírus no decurso do próximo ano” (Bastonário da Ordem dos Médicos, na TVI, 27-12-2020).
E toda esta luta é uma “tarefa hercúlea”. “(…) multiplicam-se as pessoas desesperadas por saírem de casa - sobretudo, as que têm filhos pequenos, cuja conciliação com o teletrabalho é uma verdadeira tarefa hercúlea.” (Observador, 06-04-2020); “Reino Unido enfrenta “tarefa hercúlea” para comprar material de proteção” (Ministro da Saúde Britânico, no DN.pt, 10-04-2020);
Sabendo nós, que as notícias são as mesmas em praticamente todos os órgãos de comunicação social, cabe aos jornalistas torná-las menos comuns. Uma linguagem depurada, sem construções prolixas ou lugares-comuns transforma o normal no excecional.

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