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Macron vs Le Pen

O Estado desta Nação

Macron vs Le Pen

Ideias

2022-04-13 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

As eleições de domingo ditaram um reencontro – em 2017 foi Macron que levou a adversária de vencida, e o debate a dois foi realmente confrangedor.
Le Pen não ganharia, em todo o caso, que bem aguda era a estratégia de diabolização da figura da extrema-direita. Atenuaram-se os anátemas durante esta campanha, Marine Le Pen foi mesmo tratada com simpatias pela imprensa em geral, e tudo fruto do aparecimento de Éric Zemmour, que não havia quem não apedrejasse briosamente.
Zemmour, da boca para fora, espalhava férreas certezas de que passaria à segunda ronda: Zemmour ficou-se pelos 7,2% – e não é mau para estreante. Le Pen fez 23%, e cresceu face a 2017. Macron saiu à frente com 27,6%, e também progrediu.
Mélenchon fechou o pódio dos grandes, com 22,2%, e bastaria que Hidalgo tivesse tido a mulheridade – neologismo meu, ao encontro dos zelos de género da candidata – de desistir, e no alforge de Mélenchon cairiam os votos que desde a primeira sondagem faltavam à representante do PS francês. Hidalgo fez 1,7%, afundando-se até em Paris, onde é Maire, afundando-se até no distrito eleitoral pelo qual vem sendo eleita de há anos a esta parte.
Prantos e lutos do PS que os Les Républicans – LR – acompanham, ou não tivessem também naufragado, submergindo abaixo da linha dos 5%, somando um rombo às finanças do partido, e tem duas horas o apelo pungente de Pécresse, endividada a título pessoal no montante de cinco milhões de euros. Ele tem alturas que sai caro brincar à política.
Há quem dê por defuntos os dois partidos que durante décadas geriram a coisa pública francesa. Recorde-se que em 2016 Macron sangrou o PS e o LR de quadros e militantes e, sobre o LR de hoje, bom é de ver que repartirá sobrantes com Zemmour, que assim engordará o Reconquête. Partidos nascem, partidos morrem.
Mélenchon, pelo discurso na noite eleitoral, arrumará as botas. «A vós de fazer melhor.» disse a quem o ouvia e aplaudia entusiasticamente. Disse-o em andamento, saindo do púlpito. Disse-o já meio de lado, para não atender réplicas e recusas. Disse-o, depois de recomendar «nem um só voto para Le Pen». Não pediu que votassem em Macron. Interrogam-se as pessoas, aliás, sobre que dinâmica prevalecerá: se a de “tudo, menos Macron”, se a contrária, a de “tudo, menos Le Pen”.
A curiosidade não é pequena. Macron terá de encontrar uma fórmula mágica, isto porque manifestamente lhe faltarão os votos da France Insoumise - FI. Em estudo de opinião que circulou antes do pleito eleitoral se recenseava que 2/3 dos franceses aspiravam a mudança na presidência. Dito por outras palavras: em cada três franceses, dois estavam manifestamente saturados de Macron.
Se o ponto de partida não é o mais favorável para o pretendente à reeleição, algum consolo lhe vem de singularmente desquerida ser Marine Le Pen. O problema, contudo, é que o programa económico de Le Pen é similar ao da FI, pelo que não lhe fácil apoucar o que caro é aqueles de cujo voto carece.
Tampouco à esquerda será fácil retomar as diabolizações de passado recente. Primeiramente: como poderão continuar a enquadrar o RN como partido de extrema-esquerda – com todos os anátemas associados – se ¼ da população se identifica com o líder, com a orgânica e com as ambições programáticas? Mais significativamente ainda: da sociologia deste acto eleitoral resulta algo de interessante – por Macron votam os quadros, a burguesia média-alta; por Mélenchon votaram nuclearmente os jovens e desempregados; por Le Pen votaram essencialmente pequenos assalariados e operários. Isto em termos de núcleos preponderantes.
Assim sendo, na segunda volta, virá ao de cima o quê: o preconceito, a demagogia política, ou a sociologia inelutável?
Macron e Le Pen apelaram à adesão de descontentes de todos os azimutes. Le Pen foi ao ponto de dizer que se distanciará das constrições partidárias para ampliar a base de apoio. Quem lho dará? O de Zemmour e o de Dupont-Aignan estão garantidos, o que não chega. Quanto a quem vai votar a contragosto em Macron, vide a FI, bem se ouve que muito se mobilizarão, depois, para as parlamentares, para que não disponha o putativo eleito de maioria que lhe permita fazer o que bem entenda. Ora, o mesmo princípio é válido por aplicação a Le Pen. É ver no que vai dar.

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