Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Madeixas…

O Estado da União

Conta o Leitor

2013-08-20 às 06h00

Escritor

Maria Constança Barbeitos Paseiro Lourenço

- Boa tarde, Madame, como tem passado, benzinho?
- Bem, Vitorino, bem. Estou cheia de pressa, quero-me pronta às três da tarde.
- É como se já estivesse arranjada, Madame.
E o esguio e escangalhado Vitorino bate as palmas, nervosamente, a chamar as suas meninas:
- Meninas, depressa a Madame tem pressa!

Debruça-se sobre a esbelta senhora:
- O do costume, Madame, unhas, mise.
- Não, hoje quero madeixas.
- Vou já tratar da tinta.

Vitorino sai da sala. A cara e as mãos conseguem ser mais verdes do que o seu “Salão de Beleza”. Não sabe se de tanto mexer em tintas ou de aflição. Há que ter a Madame pronta a horas. De cá para lá dá ordens às suas meninas:
- Que se apressem, que se apressem, Odília. Ela é capaz de se ir embora. Perder assim uma cliente, esposa de ministro! As outras que esperem!
E as meninas de cor-de-rosa, pulseiras; anéis; caracóis; correm para a Madame, que hoje quer MADEIXAS!

Ela lá está. Pernas cruzadas, cabeça tombada no lavatório, olhos semicerrados. As mãos da menina Odília massajam-lhe o couro cabeludo. Parecem pétalas mortas em veludo cor de sangue. Vai lavando, lavando …
-Madame sente a cabecinha bem lavada?
- Sim, já deve estar. Você tem novos penteados?

A correr o cabeleireiro saca a revista “Coleção Outono/Inverno” das mãos de uma outra cliente, com a desculpa de “Ser para a esposa do Sr. Ministro!”
- Tudo quanto vê, Madame…Uma coleção que é um mimo. Já ensinei as minhas pequenas a fazer todos os penteados.
-Esperemos. Este ano vai ser atribulado. Muitas inaugurações; exposições, enfim, sabe?
E ele a dizer que sim ao que não sabia.
Os olhos da Madame passeiam pelo salão.

Vitorino tinha remodelado o cabeleireiro. Havia tons de verde água. Os “maples” forrados de cetim preto, os “focos” eram olhos de cor nenhuma. Luz intensa a deformar os rostos das clientes e das “suas meninas”. Espelhos por todo lado, a refletirem caras encaliçadas, cabelos esticados, encaracolados, esverdeados.
Um lago artificial, ao meio, rodeado de senhoras à espera de vez.

O chão verde e preto é um tabuleiro de xadrez, onde os pés da rainha jogam com os peões. O cavalo será o Sr. Vitorino, ou será a mula? De cabeleireiro passou a “conselheiro de beleza”. Há que evoluir! Dantes tinha um salão acanhado com uma montra para a rua, onde em letras pretas e douradas pintou o seu nome: CABELEIREIRO VITORINO”. A porta, transparente, vestia uma cortina de “nylon” branca, debruada a vermelho.

Apenas ele, a mulher e uma aprendiza. O casal a pentear e a pequena pau para toda a obra: manicura; ajudante; mulher-a-dias…Mas tudo muda. Há que acompanhar o progresso. E o Senhor Vitorino passou a “dernier cri”: Conselheiro de beleza. Pôs a mulher a dieta e nomeou-a esteticista. A pobre lá está, esticada até à última. A cara dela é uma pintura rupestre a parecer artística. Sorriso vermelho, olhos perdidos em tanto verde, tanta madame.

O marido trespassou o cabeleireiro, por bom dinheiro, e com ele as clientes simples e amigas do bairro que neles confiavam. Vieram para as aveni-das, onde, para se entrar é preciso tocar à campainha e marcar vez. Que saudades do seu antigo cabeleireiro…Companheiro silencioso, amigo.

A música que se ouvia era a do pequeno rádio a pilhas, colocado na prateleira, onde se misturavam os champôs; cremes; vernizes; tintas. Bastava olhar lá para fora e uma pessoa já descansava! Que saudades daquela rua onde se podia caminhar em chinelos até à mercearia ou ir beber um galão à leitaria, ali bem ao lado, e dar dois dedos de conversa com a mulher do dono.

Agora estava ali fechada, num sétimo andar, com música ambiente! Empregadas às dúzias, todas iguais. Por vezes nem as distinguia. Mania mais maluca, a do marido, de vestir as pequenas de cor-de-rosa no meio de tanto verde! E as clientes, essas, umas mal-encaradas! Ah e aquela Madame irritava-a! Sempre a passar à frente das outras, sem marcar hora, sempre cheia de pressa! Se trabalhasse não andava tão apressada, aproveitava o estar sentada para descansar. Vitorino derrete-se todo, lá está ele a penteá-la pessoalmente!

- A Madame vai fazer sucesso entre as amigas, está linda.
A Madame sorri confiante do seu futuro triunfo. Sabia-se bonita. As pernas deslizam pelas meias de seda, sem pressas, escorregam lentamente até ao chão. As mãos alisam o corpo cingido em lã. Olha-se no espelho. Sorri. Mete os dedos por entre os caracóis alinhados e sacode-os:
- Gosto mais assim. Leve, solto. Três horas! Ponha na conta, depois mando pagar. Onde assino?
- Neste recibo verde, Madame.
- Ó Sr. Vitorino a Sra. Ribeiro está ao telefone, diz que quer marcar hora.
- Menina, estou ocupado, não vê? A Madame não pode esperar. E estou farto de lhe dizer que no meu salão não há senhoras, só madames, ora bolas!

E sem ter dado pelo “bolas” Vitorino acompanha a esposa do senhor ministro até à porta:
- Adeus, Madame, até para a semana, madame. Não se esqueça de marcar hora, madame… Está linda…
A Madame está linda e o Vitorino verde de tanta vénia …
A mulher, tornada esteticista, aproxima-se dele:
- Acaba com isso, ela já não te houve. Pareces um boneco articulado. Olha lá, ela pagou desta vez?
- Não, mas hoje fez MADEIXAS!

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