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Maio ao rubro

Como ativar territórios e criar novos destinos

Maio ao rubro

Voz aos Escritores

2021-05-07 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Maio é a primavera em exuberância. Algo que vem do tremuloso interior da terra, sempre a carburar existências. As flores, os cheiros, os dias maiores e o calor mais na pele. Ainda não chega aos ossos, mas há uma antecipação desse tempo, um caminho por um bosque que desagua numa clareira. Como uma luz que esperamos suspensa por longos meses de inverno. Como um sonho de ingenuidade e de esperança, que chega a quem quer alcançar mais do que vê.
Abre as ostes entre a neblina o dia do trabalhador com as injustiças socias na ordem do dia, o aumento dos salários face à inflação, um esgar de luta pela perda do poder de compra. A luta por uma dignidade que deveria estar adquirida, um cálculo em forma de rácio entre os custos mínimos da sobrevivência e o salário mínimo nacional. Mas este ano, por conta da pandemia, encontramos, como uma agulha num palheiro, uma rede de tráfico e escravatura humana dentro das nossas portas. Não é que ninguém soubesse. Só o público geral nacional é que não tinha esse conhecimento, porque lá, no Alentejo das férias e do verão, todos os habitantes sabiam. E sentem isso no seu dia-a-dia. Enquanto não quisermos pagar salários dignos aos trabalhadores, sejam eles rurais ou não, à luz do argumento de que as colheitas não serão rentáveis (uma falácia para uma certa ganância, a meu ver) não poderemos viver democracia plena e respirar dignidade.
E já que falamos no salário mínimo, porque não falarmos na luta contra a corrupção? Para quando juntarmos as duas lutas, que no fundo são a mesma: a luta pela dignidade e pelo desenvolvimento?
A corrupção não é uma coisa só nossa. Mas é a nossa que nos dói. Que nos rouba. Que nos diminui.
Um estudo da União Europeia publicado em dezembro de 2018 (já está fora de prazo, mas é o mais recente a que tive acesso) indica que em Portugal o custo da corrupção é de 18,2 biliões de euros por ano. É esse o montante de dinheiro que é perdido anualmente. Sim, perdido. Ou deitado janela fora, se quisermos. Na realidade vai para o bolso de meia dúzia, já sabemos.
O que talvez não saibamos, porque às vezes é preciso um certo contraste para construir uma noção sobre as coisas, é que esse valor é maior que o orçamento nacional de saúde (16,1 biliões), é 9 vezes o orçamento para as forças policiais (1,9 biliões), é 72 vezes o orçamento para o serviço de bombeiros (251 milhões). É mais do dobro do montante investido em educação (8,7 biliões). Pensar onde este dinheiro poderia e deveria ser investido no apoio e desenvolvimento da nação de forma a melhor servir a população que paga impostos é um rasgar de olhos.
Este valor daria para pagar a 1,5 milhões de portugueses o salário anual de 26, 954 euros. Daria para distribuir por cada português 1, 763 euros, embora não seja isso que defendo de todo.
Neste mesmo estudo é referido que 54% dos portugueses acreditam que a corrupção piorou nos últimos 3 anos, à data do estudo. Apenas 4% dizem ter melhorado. 84% dos portugueses consideram a corrupção inaceitável. E eram estes os portugueses que eu esperaria ver encherem as ruas para exigir leis anticorrupção (não precisarei de falar aqui do caso Sócrates, Novo Banco e afins), ao invés de ver as ruas cheias de ajuntamentos inconsequentes de jovens (que irão pagar a cara fatura disto tudo em trabalhos precários e serviços básicos cobrados por uma tabela de luxo) ou de celebrações clubísticas de futebol.
Tiram-me o sono os restantes 16% que não são contra a corrupção. Ou esta os favorece ou já perderam a capacidade de sonhar. Que é como quem diz de lutar.
Por mim vou continuar a sonhar, a pensar o meu país em dimensões reais do que poderia ser, a sentir este maio a latejar com tudo o que tem direito. E com tudo o que me deu: além de uma filha, todos os motivos para continuar a lutar.

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