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Maio, o mês da inquietação

Como ativar territórios e criar novos destinos

Maio, o mês da inquietação

Voz aos Escritores

2021-05-14 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

Maio ainda vai a meio,
enfeitado de flores silvestres,
campo de giestas
brancas e amarelas,
esconde noivas enamoradas
douradas searas
que os pássaros atordoam.

Fernanda Santos

Sinto um inegável fascínio pelo mês de maio, vinculado a uma postura nostálgica que me enternece. Sinto-me. Um perfume de flores acelera o meu coração. Transporto-me. Ouço as águas cantantes da ribeira onde os panos do meu berço eram lavados e nas ervas corados. Sim, a barrela era purificadora. Confesso que continuo a amar a transparência daquelas águas cristalinas, que me acariciam as lembranças. E como aquele azul celeste me cobre nas horas de quietudes tamanhas! É em maio que o vento ameno me segreda cantigas, de ousadia e paixão como esta de Rui F. Santiago onde a rebeldia se insinua como um ato provocador:
Madre, pois amor hei migo
tal que nom posso sofrer
que nom veja meu amigo,
mandade-mi-o ir veer;
se nom, irei sem mandado
vee-l', e sem vosso grado.

É, precisamente, a manifestação de uma necessidade intrínseca de correr pelos campos e voar muito para além do horizonte que tomo maio como o mês bordado de uma serena inquietude, que perpassa a minha alma e me diz onde mora a saudade. Lá, não muito longe, entre as vestes verdes da colina, passeiam-se cortinas de sonhos, voeja o vento, embalando o fresco feno e o rosmaninho, com seu penacho despenteado, e eu sorrio aos melros e aos pardais na rama das cerejeiras.
É neste sentir brando e inquieto que maio me diz poemas, versos nascidos de um olhar molhado e de um regaço sofrido. É também a maio que vou buscar as lembranças que não se apagam da minha cabeça, pois foram tecidas com loas de esperança: o Maio de 68. Como sabemos, o espírito romântico do Maio de 68 não se compõe só da revolta contra um sistema económico, social e político. Também está cheio de esperanças utópicas, sonhos libertários e surrealistas.
As maiores consequências do “Maio de 68” foram as transformações sociais que provocaram. Antes de 68/69, por exemplo, as raparigas não podiam ir de calças para as aulas. Se fossem, tinham de usar saia por cima. Lembro-me tão bem da alegria que tive a primeira vez que vesti umas calças axadrezadas, de várias as cores, e à boca de sino. Como a liberdade me assentava como uma luva! Era notória a vontade de mudança na afirmação de usar roupa unissexo e na ânsia da tal igualdade de género. A partir de então, nada seria como antes. Tal como afirmava Che Guevara, os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguiriam deter a primavera inteira.
A inquietação e a mudança faziam de maio um mês determinante no mundo das letras e das artes.
Embora um pouco esquecido, o mês de maio havia de ficar marcado pela Revolta de 14 de Maio de 1915, quando Teófilo Braga, escritor e poeta, assume a presidência da República. Pertencente ao grupo denominado “Escola Coimbrã”, que visava denunciar os podres da sociedade e mostrar a vida do homem de maneira mais realista, Teófilo Braga contribuía, assim, para a transformação artística, cultural, política e económica que se impunha. Como podemos ler num dos seus contemporâneos, Mário de Sá Carneiro, a este propósito:
[…]Manhã d'armas! Manhã d'armas!
Romaria! Romaria! […]
Pressinto um grande intervalo,
Deliro todas as côres,
Vivo em roxo e morro em som...
Por isso, para mim, revisitar o mês de maio é como ir pela mata para assistir ao voejar alucinatório das andorinhas.
É rumar numa jangada aberta à imaginação. Muito do que havia a dizer, nessa altura, dizia-se a cantar. Assim nasceram as canções da liberdade, que se converteram num excecional instrumento de mobilização e de consciencialização de largos setores da população portuguesa, dos estudantes aos operários, e que acabou por conquistar o direito de ser a senha do vitorioso levantamento militar em abril de 74.
Mas o Maio de 68 foi também uma revolução na linguagem, graças ao poder libertador dos slogans, nomeadamente este de que gosto muito: "Um homem não é estúpido ou inteligente; ou é livre ou não é”.
A cada dia que passava, a própria linguagem se metamorfoseava a um ritmo frenético e empolgante.
Abençoada linguagem revoltada da nossa esperança inadiável! Também assim nos transformámos e nos tornámos livres até hoje. Tal como no poema de Eugénio de Andrade, para o melhor de nós e do nosso tempo,
A palavra nasceu :
nos lábios cintila.
Carícia ou aroma,
mal poisa nos dedos.
De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.
A morte não existe :
tudo é canto ou chama.

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