Correio do Minho

Braga, sábado

- +

Mais participação, menos propaganda

Adaptar Turismo – tempo de mudar o chip

Mais participação, menos propaganda

Ideias

2021-09-28 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

A democracia liberal é o melhor dos regimes. Em séculos de História, Portugal nunca conheceu um período de tanto progresso, paz e convergência social como no regime democrático que inaugurámos a 25 de abril de 1974. Uma das suas maiores virtudes é podermos contribuir para a melhorar quando refletimos sobre alguns dos seus vícios e imperfeições.
As eleições de ontem acentuaram o crescente afastamento dos cidadãos em relação à política. Ainda que cómodos para quem governa, os níveis de abstenção elevados têm consequências muito negativas para a gestão pública e contribuem para degradar a qualidade da nossa democracia, devendo preocupar todos os eleitos.
Não há explicações simples para fenómenos complexos mas é uma evidência que o divórcio entre cidadãos e política acontece em Portugal a um ritmo superior ao que se verifica nos países com quem tradicionalmente nos comparamos.

Haverá quem acredite que este afastamento se deve à má qualidade dos políticos, à descrença acerca da importância do voto na definição do nosso futuro ou a qualquer teoria da conspiração que apenas satisfaz os ímpetos primários dos mais desprevenidos.
Numa perspetiva optimista podemos pensar que o baixo envolvimento dos cidadãos está relacionado com a reduzida polarização política e a abrangência de um ‘centrão’ em que o Partido Socialista é o mais conservador de todos os socialistas da Europa Ocidental ao mesmo tempo que o Partido Social Democrata até no próprio nome enjeita a sua condição de partido de direita. Mas isso não explica tudo.
A reforma do sistema político é um daqueles projetos eternamente adiados em Portugal. Sem um sistema político justo, sem uma imprensa local livre e independente e sem uma sociedade civil ativamente envolvida, a democracia definha e os riscos de degeneração do regime avolumam-se.

O sistema eleitoral em que um único voto minoritário decide a presidência do município e a presidência decide tudo sem mecanismos efetivos de controlo, desperdiça o contributo de um conjunto alargado de cidadãos legitimados pelo voto popular e, muitas vezes, melhor preparados que os vereadores que ficam com os pelouros. Além disso, as Assembleias Municipais têm a sua representatividade distorcida e encontram-se capturadas pela influência dos Presidentes de câmara através dos investimentos que se fazem e não se fazem em cada uma das freguesias.

Como consequência existe uma excessiva concentração da governação na figura do Presidente. Uma concentração que é nociva para a democracia e contraria os valores da República. Adaptando-se a esta realidade, os gabinetes de comunicação das autarquias tornaram-se em agências de comunicação dos respetivos presidentes e os municípios controlam a imprensa local através do financiamento que lhes garante viabilidade económica.
E alguém tem vontade de mudar? Honestamente acredito que muito poucos se interessam por reformar o sistema político a nível autárquico. A manutenção deste status quo beneficia os partidos que governam a esmagadora maioria dos municípios em Portugal e controlam cerca de 2/3 da Assembleia da República. Partidos que são necessários à democracia e estão cheios de pessoas genuinamente comprometidas com o bem comum mas que vivem capturados por lógicas de distribuição de cargos que conduzem às mais espantosas lutas fratricidas.

Gostava que os próximos quatro anos permitissem uma definição mais clara da visão que temos para o futuro das nossas cidades e das nossas vidas; que trouxessem mais debate de projetos e menos episódios caricatos; que mostrassem presidências menos empenhadas na propaganda e mais comprometidas com o serviço às populações; que permitissem um maior escrutínio público do cumprimento das promessas; que envolvessem os cidadãos de forma mais ativa nas escolhas coletivas; e que garantissem oposições com mais condições para concretizar o seu trabalho.
Enquanto apenas se trabalhar para ganhar eleições a cada quatro anos, perdemos todos. Parabéns aos vencedores de ontem! É tempo de nos devolverem o que prometeram eleição após eleição.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho