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Maltratado

Plano de Desenvolvimento Pessoal, Social e Comunitário da ESMS

Maltratado

Escreve quem sabe

2020-10-11 às 06h00

Cristina Fontes Cristina Fontes

Se procuramos no dicionário o significado de “maltratado” encontramos, por exemplo:
1. vítima de maus-tratos; espancado;
2. tratado com agressividade, por palavras ou atos;
3. danificado pelo mau uso (Na Infopédia).
“Maltratado” é simultaneamente um adjetivo e o particípio passado do verbo “maltratar”.
Todavia, há diferenças entre o adjetivo “maltratado” e a estrutura constituída pelo advérbio “mal” e pelo verbo “tratar”.
Uma das minhas Gramáticas de referência (Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo) diz-nos que “advérbios de modo (como é o caso de mal) colocam-se normalmente depois do verbo (que modificam) “ – ex.: O colega tratou-o mal; ele foi maltratado pelo colega.
A expressão “mau tratado” não existe.
“Mau” é um adjetivo; “mal” é um advérbio. Assim, quando queremos modificar o grau de um adjetivo verbal (o particípio passado do verbo), devemos dizer e escrever “mais bem” e não “melhor”, por muito que alguns estranhem. Como escreveu Fernando pessoa para o slogan da Coca-Cola – “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.
Infelizmente, são inúmeras as vezes que ouvimos e lemos “melhor tratado”, em vez de “mais bem tratado” (aqui: “(…) o facto de considerar ser melhor tratado pela imprensa espanhola do que pela italiana (…)”, no Observador em https://bit.ly/3ntpNjY, acedido em 8-10-2020); aqui: “(…) o AVC tem sido melhor tratado na fase aguda,(…), entrevista a uma médica ao Saúde Online em https://bit.ly/3ntpNjY , acedido em 8-10-2020);
Devemos usar a construção “mais bem” sempre que usarmos o particípio dos verbos, não só para “maltratado”. “Melhor” (comparativo de bom) e “mais bem” (comparativo de bem) continuam a ser frequentemente confundidos.
Ao percorrermos os Clássicos portugueses iremos encontrar amiúde “melhor” + particípio do verbo, mas a maioria dos linguistas advogam que tal uso não obedece às normas da Gramática. A liberdade literária, por vezes, foge às regras da Gramática, como vemos em alguns do Maiores: Lobo Antunes, Saramago, Virgílio Ferreira.
Para terminar, devemos dizer “mais bem dito” (porque “mais bem” é comparativo do advérbio bem “bem”) e não “melhor dito”, como aliás é muito frequente (aqui: “O céu (ou, melhor dito, a Terra) está pejada de nuvens”, 24Sapo, em https://bit.ly/3lvK06Y, acedido em 08-10-2020); (aqui: “O valor das universidades, ou melhor dito, das instituições de educação superior, é cada vez mais decisivo”, no Expresso em https://bit.ly/3lvK06Y, acedido em 08-10-2020); (aqui: “O processo de integração, melhor dito de absorção ou anexação da RDA na República Federal (…)” No Observador em https://bit.ly/3lvK06Y , acedido em 08-10-2020).
Como diz Miguel Esteves Cardoso, “Quem escreve está exposto” e eu acrescento “Protejam-se o mais possível com um bom prontuário.”

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