Correio do Minho

Braga, terça-feira

Mania das grandezas!

“Novo tabaco” mata 600 mil crianças por ano

Conta o Leitor

2012-08-10 às 06h00

Escritor

Por João Castelo Branco

Começaram a constar rumores de que o Zé Augusto, andava meio “avariado” da cabeça.
“- Muito certo é que ele nunca foi não senhor! - Oh não digas isso, bolas… coitado do rapaz….oh!... porra tamém ! “- dissera minha mãe, severa e contida, aos comentários jocosos de meu pai a respeito do rapaz.
“- Diz que lhe deu agora para andar por aí de pasta na mão, a ver terrenos para construir uma empresa qualquer, e tem andado por todo o lado a falar com fulano, beltrano e sicrano, que pretende contratar para as mais diversas funções: porteiro, escriturário, relações públicas, assessor… sei lá que mais… tudo com ares de grande senhor, coisas grandes … pessoa importante… “
“ O pai dele é o próprio a dizer : os meus filhos estão todos bem, sabes, Manel… casaram, têm estudos, o mais velho está agora a estudar à noite… só aquele Zé Augusto é que me dá ralações…. Caramba, raio de rapaz!”
Sabia que estava meio “ avariado “ da cabeça, ou melhor, constara-me vagamente que nos últimos tempos tinha manifestado uns comportamentos estranhos, algo megalómanos, mas nada de muito fundamentado. Conversas correntes, desabafos de meu pai à mesa que nem sempre eram para levar a sério. E, sendo ditos ao correr da prosa, numa sexta-feira à noite, com aquela ligeireza e por vezes com a voz arrastada que lhe era caraterística, perdiam eficácia, diluíam-se na sua intenção comunicativa.
Fazia calor de verão, e eu ali, naquele emprego temporário, perdido naquela chusma de envelopes, tentando dar arrumação a trabalhos vários, de feições e feitios diversos, sonhando com a praia... quando, de repente, dou de caras com aquele paz de alma vestido de fato e gravata, olhar turvo e um tanto esgazeado, a fazer-me propostas galhardas e promessas que, com o tempo, haviam de valer uns milhares de escudos .
Sentara-se de esguelha e fixara-me nos gestos, nas atitudes. Há muito que se detivera contemplativo. Observava-me e, na sua quietude, percebia-se pelo tom sonhador do olhar, fumando cigarro atrás de cigarro, afagando demoradamente a barbicha e floreando a fumaça, um discurso que se preparava.
- Já tiraste a carta? - perguntou-me com ar apreensivo e um tanto circunspecto.
O tom baixo da sua pergunta está bom de ver: não se tenta aliciar um empregado de alguém no seu local de trabalho, convenhamos que não é a melhor estratégia empresarial.
Porém, naquele período de crise, anos oitenta, não se recusava uma proposta de trabalho e muito menos, compreendei ó gente, que não se vira as costas a uma alma gentil que nos quer levar pelos caminhos do sucesso, e nos pretende resgatar de um trabalhito mal remunerado e pouco aliciante.
Enfim, lá lhe fui respondendo que andava tratando disso, que sim senhor, era verdade que tinha mais ambições, e que também ainda estudava.
- Que não perdesse muito mais tempo. A querer, o emprego de motorista era meu, pelo que me voltaria a contactar em breve, sendo que por hora, a sua agenda sobrecarregada não lhe dava grande disponibilidade. Levantou-se num gesto brusco e nervoso e serpenteou pela sala, perdendo-se na observação de trabalhos, aos quais encontrava caprichosamente defeitos na sua conceção e acabamento.
Tempos quentes esses. Na cidade e no país, a cada dia que passava, as manchetes dos jornais arrastavam-nos, inevitavelmente, para a cena política, para a eminência de uma guerra civil, em que todos apaixonadamente tomávamos posição que defendíamos com vigor.
Achávamos que podíamos mudar o mundo, ou que a felicidade das pessoas e o destino do país, passava pelas nossas mãos. - Enfim, veleidades de juventude.
Mas o Zé Augusto, deixara-se disso. Agora, era um homem pragmático e empresarial.
Deixara claro que pouco lhe interessava a posição política dos seus futuros empregados, os seus critérios de seleção teriam em conta a competência e operacionalidade. Políticas e coisas do género eram coisas do passado.
Entre um comício na praça da cidade e as escaramuças politiqueiras da época, com traulitadas à mistura e verborreia que baste, lá se ia sempre regressando a casa depois de esgotado o rol de episódios para contar e de vivência das peripécias.
Passou muito tempo sem que do Zé Augusto se ouvisse falar. Um dia, porém, lá se constou em casa que tinha sido visto de pasta na mão, a rondar terrenos pelos arredores, e que a sua presença nos bancos locais, para pedir empréstimos, já era conhecida.
Pelos vistos a sua situação familiar tinha piorado. O pai expulsara-o de casa, pois depois da dissolução do seu precoce casamento, tornara-se insuportável, a adjetivar tudo e todos de forma depreciativa e que, pior de tudo, fizera-se agressivo e violento.
“- Francamente senhor Bartolomeu o meu rapaz ficou magoado com as suas palavras, isso não são coisas que se digam, volta e meia repete palavras que mostram quanto magoado ficou: “ olhe que maluco é você, ó Bartolomeu!” - em palavras dirigidas ao antigo patrão, apenas a mãe, terna e de coração a sangrar, passava as agruras da vida com aquele seu rebento, tão divergente dos demais.
Confesso que só o tempo, foi diluindo memórias tão desagradáveis.
Um dia, porém, umas iniciativas de caráter local, relacionadas com trabalho temporário, levaram-me à assistente social da zona que, observando a minha morada, perguntou se conhecia o Zé Augusto e se estava ao corrente da sua situação pessoal e familiar.
Respondi-lhe que sim, e que também lamentava o sucedido e que a atitude daquele pai era a todos os títulos condenável.
Acabou por relatar-me que o desfecho desse seu caso, estava a ser bem-sucedido e que após acompanhamento médico estava a ser bem encaminhado. O senhor Farleira, dos móveis e antiguidades da ladeira do Pentecostes, acolhera-o. Deu-lhe trabalho e disponibilizou-lhe um quarto.
Correram rapidamente rumores de que o Zé Augusto estava muito melhor. Ajeitava-se na arte de montar, polir, encerar, lixar… estava a juntar dinheiro para tirar a carta e enamorara-se há pouco da Anita das confeções.
- Esse galego, essa besta-quadrada do pai dele…ui… isso é lá de homem!… - Vociferava de indignação o senhor Farleira.
Encontrara-o no café Vera Cruz, convivial e, como sempre, a tomar a sua bica e bagaço e dando dois dedos de conversa com toda a gente.
- Ó senhor Farleira afinal de que mal padecia o Zé Augusto? De depressão, esgotamento cerebral, esquizofrenia? …
- Ah….nada…nada…mania das grandezas!….mania das grandezas!

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