Correio do Minho

Braga, terça-feira

Margarida

O seu a seu dono!

Conta o Leitor

2015-07-15 às 06h00

Escritor

Isa Pontes

- Amanhã, tem Rebita na aldeia. Posso fazer o bolo Senhora?
- Podes Margarida, mas olha lá o que estou farta de te dizer: ou comes um bocado de bolo quando o puseres na mesa ou não comes nadinha dele; quando olhares para o prato, já não há nada, está vazio.
- É mesmo, tenho azar... Todos dizem que o bolo é bom, eles sabem que a receita é da Senhora...
Margarida, saiu da cozinha e foi lavar-se no tanque do quintal. Pegou num naco de sabão azul e com ele esfregou uma perna, depois a outra, entregando-se, calmamente, ao labor de massajar as pernas, num dengue sensual, até brilharem num tom chocolate vidrado. Ali, naquelas transparências cutâneas, ela já vislumbrava os calores da noite do fim-de-semana próximo. Casimiro esperava na esquina do povoado, atrás do Baobá enorme. Depois, quem sabe, com cautela, sob a chapa da cubata 12... Ai ué Mamaricaé! Chatici!!
- Então, Margarida?! Que se passa? Por esse andar derretes as pernas. Vais encontrar o Casimiro, é?
- Vais Senhora.
- O teu irmão continua teimoso?
- Continua Senhora.
Serrote, irmão de Margarida, dissera:
-Esse gajo não vai namorar você enquanto não trouxer aqui a casa três cobertores, seis cabras e dez garrafões de vinho. E é pouco, ouviu? Isprimenta e você leva porrada. Casimiro não tinha trabalho, não tinha cabras, não tinha cobertores, não tinha vinho, só tinha o corpo carregado de amor por Margarida, a negra mais linda do Bairro. Os olhos de Margarida pareciam aquelas luzes das estrelas que ele olhava noite fora, estrelas negras a luzir. Os braços... Margarida quando o apertava ele nem sabia se sufocava de prazer se de orgulho, por saber todo seu aquele corpo rijo, lustroso e estremecendo, como vara de bambu. Da sua boca saiam gritos misturados com gargalhadas o que fazia acontecer uma festa cada vez que se amavam. Festa estragada pela imposição de Serrote. Cabras, cobertores, vinho...

Os dias deram lugar aos meses e a barriga esbelta da Margarida foi ganhado formas arredondadas.
- Margarida?...
- Senhora?...
- Então que se passa?
- Vais ter filho de Casimiro, pronto.
- E agora, o teu irmão?
- Num sei...

Numa manhã de chuva miudinha, a Margarida não apareceu à hora do costume. Ansiosa, num desassossego a adivinhar tragédias, meti-me no Jeep, levando comigo fruta, roupa de bebé e uma bacia grande de plástico vermelho com uma toalha turca dentro. Rumei ligeira para a sanzala. Ao chegar, deparei com algumas mulheres sentadas à volta da cubata da Margarida. Entrei e quase saí. O terror imperava ali dentro na forma mais primitiva, porém, aceite com a banalidade das coisas seculares. Margarida, nua, encostada à parede da cubata, fazia lembrar-me um Cristo Roto; pernas abertas, ensanguentadas, braços soltos sobre as ancas e uma cara onde não poderia caber mais dor.

Os seus olhos pareceram-me, nessa altura, vermelhos e dilatavam-se ao compasso das “marradas” que uma velha de carapinha branca, fechada, lhe fazia aterrar no ventre, num constante vai-vem de martelo mecânico ou cinzel gigante, no propósito único de acabar serviço. Aos seus pés, sobre a terra do chão da cubata, um anjo chorava, envolto em sangue, despojado do maior bem do mundo, o ventre da Margarida.
- Meu Deus, que é isto??
E tomei o menino nos braços, substituindo o calor do ventre de sua mãe pela toalha felpuda trazida a correr, estrada fora.
- Sai daqui Dona, stô a tirar as tripas.
- Mas as tripas não saiam. Aí a velha deitou-a na esteira e meteu-lhe uma garrafa na boca.
- Sopra! Sopra! Berrava a velha.

As secundinas saíram, o anjinho foi lavado na bacia vermelha, e o rosto da Margarida começou a serenar, ganhando um ar de adormecimento próprio de quem se desfaz da dor.
Com o tempo, a Margarida retomou o serviço e o menino, redondinho e lindo ganhava graça e já sabia estender os bracinhos para nós.
Outubro foi chegando e o tempo aquecendo, alimentando ódios e vinganças. Um dia, Margarida chegou à Casa Velha e os seus olhos que já não brilhavam havia muito tempo, vinham inchados, avermelhados.
- Que se passa Margarida?
- Minha Senhora, já não posso mais, meu irmão diz que mata a gente, que mata Casimiro que não lhe deu alambamento.

E matou mesmo. Um dia, de novo correndo, cabelo ao vento, preso num lenço azul, lá fui eu procurar a triste à Sanzala. No Bairro reinava o inferno; a Cubata da Margarida toda ela era uma labareda; ali disseram-me que ela estava no Hospital . Entrei Hospital dentro e comecei a procurá-la, sem sucesso. Até que me indicaram uma cama onde jazia uma múmia envolta em gases. Aproximei-me dela e o estômago rejeitou tudo o que a visão me trazia.
- Margarida...
- Senhora... Ele matou a gente, o Casimiro e o meu primo miúdo que foi salvar o minino.
- Descansa Margarida, o Casimiro está ali, na outra enfermaria e o teu primo também.
- E o minino, Senhora?
- Está na aldeia, Margarida...

E estava, feito um leitãozinho. Havia encolhido e a sua cor viçosa de chocolate fresquinho havia dado lugar a um torrão negro disforme. Quando o vi, na Cubata ardida, o coração disparou-me do peito e parecia-me escutar as suas batidas no corpo todo, na Sanzala toda, dali até à Cidade. Fugi horrorizada e nada me apaga aquela imagem dantesca, até hoje.
- E agora???
Margarida, com o passar dos dias, começou a agitar-se. Perguntava-me todos os dias pelo menino e eu lá lhe ia dizendo que ela o veria ao chegar a casa, que agora o importante era ela curar-se e que isso só poderia ser ali, no Hospital. Que não, ou saía dali ou fugia. Aflita, pedi ajuda à Madre Madalena, enfermeira do Hospital.
- Pode crer que ela foge mesmo. A solução será levar os medicamentos para sua casa e tratá-la lá. Mas, olhe, que o cheiro de corpo queimado é desesperante!

Peguei na Margarida, metia-a no Datsun e comecei a rezar. A tragédia só ia a meio... Ao chegar à aldeia todo o povo a veio receber e começaram as carpideiras a chorar e a gritar, falando no pequenino que já se encontrava enterrado havia dias. A Margarida, louca, atirou-se para o chão barrento e rebolou desatinadamente, enquanto atirava para cima de si terra e lixo como que a querer-se limpar da dor, do sangue, do fogo, do ódio, das pessoas que tentando ajudar lhe tocavam. Só parou quando as forças a tinham esgotado e dela não restava mais que um monte de sofrimento personalizado ali, à frente de todos nós que chorávamos com ela.

Levei-a, nem sei como, para a Casa Velha. Ali, ao longo de semanas, a tratei, numa entrega de alma total, onde era subjacente o amor e a teimosia de a pôr, novamente linda. Ao arrancar-lhe as ligaduras, cerrava as narinas e, sem ela ver, rezava: - Meu Deus ajuda-me a suportar este cheiro.
- Minha Mãe, quando os meus braços estiverem curados vamos beber uma grade de Cuca.
- Vamos Margarida, podes crer, vamos fazer uma grande festa. E eu levantava-lhe os braços e metia-lhe dentro daquelas “crateras” a pomada que a Madre Madalena me havia dado.
E os buracos fecharam.
E a Margarida voltou ao trabalho.

O tempo, esse manto imenso, ora pesado, ora ausente, foi passando, passando... Como sempre passa, por cima da dor, do amor, das alegrias, das tragédias, indiferente, numa apatia dolorosa, provocando, ao longo dos séculos, interrogações que ficarão, sempre, sem resposta.
Um dia, já na Casa Nova, tinham passado muitos meses, olhei para a Margarida. Ela deixara de me pedir licença para fazer bolos para as Rebitas; o seu andar era arrastado e o sorriso havia dado lugar a um ar banal, desdenhoso. As pernas já não lhe mereciam as atenções antigas e por isso a pele mostrava áreas esbranquiçadas de secura estaladiça.
- Margarida que tens, não estás bem?...
Ela atirou-se aos meus pés e abraçou-me as pernas, gemendo e chorando.
- Minha mãe... sou tão desgraçada!
- Levanta-te, Margarida, diz-me o que te aconteceu.
- Vou-te deixar minha mãe, vou para Luanda, não vou mais andar com a menina Janinha nas costas, meus meninos não vão ver mais Margarida, menino Bebé não ver mais Margarida, Senhora não ralha cum ele, não?
- Margarida, tudo isto porquê?? Olha as crianças todas encolhidas a chorar, pensas que elas podem ser felizes sem estares junto de nós?! Não nos assustes.
- Olha, Senhora, a minha barriga! Aqui (e batia forte no ventre que já se avolumava) está outro filho do Casimiro. Meu irmão obrigou-me a ir para Luanda, viver com um homem que lhe deu dois bois e muito vinho; eu vou mas já levo dentro de mim um filho do homem que eu gosto. Me perdoa minha mãe por te deixar.
- Margarida fala com teu irmão, conta-lhe tudo, assim vais ser infeliz.
- Não posso, ele manda um jacaré dentro de uma carta e quando eu abrir a carta a gente morre.

E a Margarida foi para Luanda. O silêncio da dor vogava pelos cantos da Casa Nova, parecia um lamento antigo, todo feito de mimos, histórias de meninos e de amas a embalar seus sonhos. As tardes e os longos dias foram-se transformando em imensas despedidas, das coisas, das plantas, dos animais, das casas velhas e novas, de tudo... Os caminhos tornaram-se estranhos ao olhar e os sons eram manchados por estrondos de basucas e morteiros. As acácias secavam ao longo da avenida e as rolas e outros pássaros partiram, não sei p’rá onde...

Da Margarida, resta-nos o seu sorriso, nos tempos de paz, nos tempos das correrias pela Casa Velha, os meninos gritando à sua volta e ela numa entrega sem limites. Ela marcou a nossa vivência em África. Nós fomos dela, ela foi nossa. Sei que hei-de voltar a encontrá-la, lá no meio das estrelas, onde o Casimiro tinha a certeza de a ver, à noite, quando a amava.

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