Correio do Minho

Braga, terça-feira

Mariano Gago e o ensino experimental das ciências

“Novo tabaco” mata 600 mil crianças por ano

Voz às Escolas

2015-04-23 às 06h00

José Augusto

“Sem pensamento, sem diálogo estruturado sobre o porquê das coisas, sem controvérsia, sem enigma, sem verdadeira experimentação, não há ciência nem educação científica. Pensar a formação da cultura científica de base é assim um grande desafio que o programa Ciência Viva constrói à vista de todos e hoje expõe e debate como contributo para a melhoria segura da cidadania.”
Segundo o sítio do Ciência Viva, foi com estas palavras que o Professor José Mariano Gago concluiu o seu discurso de abertura do primeiro Fórum Ciência Viva, em 1997. Nos últimos dias, o país lamentou a sua perda. Aos habituais e, no caso, mais do que merecidos, elogios unânimes ao cientista e ao homem público, juntaram-se algumas breves referências ao seu legado enquanto ministro e decisor de políticas públicas. No mais longo exercício de funções de ministro na democracia portuguesa, tutelando a área da Ciência e do Ensino Superior, ao seu vasto legado nesses domínios, junta-se uma intervenção decisiva no lançamento e consolidação de programas e projetos de promoção da literacia científica.
A criação da Ciência Viva - Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica foi o instrumento de muitas ações que modificaram, para muito melhor, o panorama da cultura científica em Portugal. Os efeitos de medidas e programas lançados sob a tutela política de Mariano Gago perduram. São bem conhecidos de muitos portugueses os diversos Centros Ciência Viva, entre as quais o Pavilhão do Conhecimento que, ano após ano, é um dos museus do país com mais visitantes. Desde há quase duas décadas, através da iniciativa Ciência Viva no Verão, apoiada numa vasta rede de parceiros, a ciência chega às praças, às praias e a todos os lugares onde os curiosos ocasionais ou os amadores dedicados queiram fazer e aprender.
A Escola Secundária de Caldas das Taipas (ESCT) orgulha- se de ser um daqueles parceiros, colaborando ininterruptamente, através do seu núcleo de Astronomia, no programa Astronomia no Verão, atuando em diversos pontos da região norte, com predomínio natural da região do Minho. O núcleo de Astronomia da ESCT é um dos legados duradouros das políticas públicas lançadas e consolidadas por Mariano Gago. Durante muitos anos, os sucessivos concursos Ciência Viva na Escola, incentivaram a realização de projetos promotores do ensino e da aprendizagem experimental das Ciências, forneceram os meios financeiros para suportar o apetrechamento de laboratórios, suportaram a realização de ações de promoção da literacia científica e estimularam projetos locais de investigação científica em muitas escolas de todos os níveis de ensino.
Este legado teve um impacto determinante em muitas escolas e, seguramente, na aprendizagem de muitos alunos. Pena é que esse caminho venha sendo abandonado. Hoje o ensino prático e experimental encontra-se ameaçado pelo rolo compressor dos exames nacionais. Hoje, ganha força o ensino teórico, orientado para aquilo que os exames valorizam. Pressionado pela escassez de tempo e pela enormidade dos programas curriculares, o espaço para a prática, a experimentação, a descoberta pelo método científico, vai dando lugar à memorização mecânica, à demonstração digital e, progressivamente, à perda do fascínio e do interesse dos mais jovens pelas ciências experimentais.
Só os exames interessam e a sua sacralização transformou em blasfémia o seu questionamento.
Ano após ano, os exames (e os seus autores) sentenciam a incompetência nacional generalizada no ensino e na aprendizagem das ciências. Fatalmente, dizem-nos que somos irremediavelmente incompetentes no ensino e na aprendizagem da Matemática, da Física, da Química, da Biologia e da Geologia. Ano após ano, quantidades maciças de alunos e professores são postos à prova e são sentenciados com resultados negativos ou muito debilmente positivos. Em 2014, na 1ª fase, quase 37 mil alunos fizeram o exame de Matemática A e mais 3 mil o de Matemática B. No primeiro, a média nacional foi de 7,8 valores e no segundo 7,4. Na mesma ocasião mais de 50 mil alunos fizeram o exame de Física e Química A, a média foi de 8,8 valores, enquanto em Biologia e Geologia, depois uma sucessão de médias negativas, de quase 52 mil exames emergiu a média positiva de apenas 10,8 valores. Cada vez é mais difícil acreditar que, ao fim de tanto tempo, haja tanta gente, professores e alunos, a trabalhar mal, em todo o país. É tempo de começar a olhar para outros lados!
Mais um dado, no relatório do Júri Nacional de Exames, publicado no respetivo sítio digital, informa-se que, em 2014, 70% dos examinandos de Física e Química A usaram o tempo de tolerância (30 minutos) para terminar o exame. Na Matemática A, 74% dos examinandos precisaram do tempo de tolerância para realizar a prova. Isto é, num exame que já teve duas horas de tempo regulamentar e que passou a ter a duração normal de duas horas e meia (150 minutos), cerca de três quartos dos candidatos precisou de 180 minutos (3 horas!) para, ainda assim, obter o resultado miserável antes referido. Será (só) problema dos alunos?
Perante isto, antes que nos queiram calar com a treta dos facilitismos, talvez seja tempo de gritar que o rei vai nu! E talvez seja tempo de regressar à visão e ao legado de Mariano Gago.

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