Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Mário Soares 1924-2017

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Ideias Políticas

2017-01-10 às 06h00

Pedro Sousa

Não é um exercício fácil acrescentar algo novo ao muito que, nos últimos dias, foi dito e escrito sobre Mário Soares.

Ainda assim, hoje, este espaço, esta página onde escrevo não podia deixar de ser sua: é assim por direito próprio, pelo seu superior exemplo de vida, pelas suas inúmeras e inigualáveis demonstrações de coragem, pela força indomável das suas convicções e pela verticalidade, ímpar, do seu carácter.

Mário Soares faleceu sábado, aos 92 anos, depois de uma vida cheia, uma vida plena, uma vida onde, nos momentos importantes, nos momentos decisivos, nos momentos charneira da nossa história, disse sempre presente.

O 25 de Abril. Foi assim no seu maior combate, no combate da sua vida, a luta de muitos anos contra a opressão, contra as perseguições, contra a tortura e as prisões arbitrárias, contra o fascismo e a ditadura. A luta pela democracia, a luta pela liberdade, pela liberdade sem concessões, a luta pela liberdade inteira e completa, a luta pela qual nunca lhe agradeceremos o suficiente.

A descolonização. Muitos são os que diabolizam Mário Soares pela sua participação, enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros, no processo da descolonização. A verdade é que, não enjeitando nenhuma das responsabilidades que possa ter, o estado em que encontrou esse processo, fruto das políticas coloniais anteriores, responsabilidade de Salazar e Marcello Caetano, levou a que “...a acrimónia entre colonos e nativos tivesse chegado a um ponto que não era possível apaziguamento e reajustamento equitativo entre eles”.

Na verdade, como há dias escrevia João Couto Nogueira, numa tese suportada por muitos outros: “...Depois de uma guerra sem quartel, não era possível uma paz cordial. Só restava fugir, com a roupa do corpo”; “Soares tinha consciência deste drama, mas teve de o ultrapassar”. Soares foi, aos olhos das circunstâncias, pragmático, mas nunca ficaremos a saber o que teria acontecido se, naquele momento, a descolonização não se tivesse feito, principalmente a partir do momento em que “...as tropas portuguesas estacionadas nas colónias se recusaram a lutar a partir de 26 de Abril. Ninguém queria arriscar a vida numa guerra com os dias contados. Os rebeldes viam-no (qualquer militar que lá estivesse em 1974 o confirmará) e portanto o Governo português não tinha poder de fogo para impor uma solução que salvaguardasse os colonos”.

A adesão à Comunidade Económica Europeia. Soares foi, sempre, um europeísta convicto. O projecto da Comunidade Europeia, no seu ideário fundador, a Europa de Jean Monnet e de Robert Schuman, entre outros, foi, na história mundial, um dos mais belos projectos de construção política, assente nos valores da paz, da prosperidade partilhada e do social acrescento. Convém lembrar que foi, apenas, a força política de Soares e o enorme respeito que granjeava entre a elite política europeia que tornou possível o sonho da adesão e, convenhamos, que, apesar da deriva política da actual União Europeia, foi a nossa adesão à Europa que, a partir de 1 de Janeiro de 1986, permitiu a Portugal dar um salto sem paralelo rumo ao desenvolvimento, rumo ao progresso e a uma sociedade mais justa.

Aquilo que os últimos dias têm deixado bem claro para todos tem que ver com a grandeza de Mário Soares. O facto de as manifestações de pesar serem absolutamente transversais a todos os partidos, da direita mais conservadora, à esquerda mais ortodoxa ou radical, de personalidades que estiveram sempre do seu lado, a outras que o combateram de forma visceral, da música à cultura, do desporto ao jornalismo, da saúde à educação, ninguém, na sociedade portuguesa, ficou indiferente ao exemplo de Soares e ao património que nos deixa.

O património, exemplar, de que na política e na vida só faz sentido ir pelos princípios, pelos valores, pelas convicções, sem cedências, mesmo que para isso, algumas vezes, tenhamos que caminhar sozinhos.

Mesmo nos momentos mais difíceis, mais solitários, nunca se lhe escutou um queixume, um lamento, uma quebra de ânimo.

Foi, até ao último sopro de vida, um lutador, um resistente e, por tudo isto, é o maior embaixador do Portugal livre e democrático.

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