Correio do Minho

Braga, sábado

Marteladas de São João…

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2011-06-26 às 06h00

Carlos Pires

Junho é o mês das grandes festas populares, um brinde ao Verão que inicia e ocasião para degustar as primeiras (e boas!) sardinhas. Na capital, festejou-se o Santo António e os bairros alfacinhas disputaram o título da melhor marcha. A Norte, e neste feriado prolongado, sobretudo nos grandes centros Porto e Braga, viveu-se a euforia de São João. O povo saiu à rua, munido de martelinhos e alho-porro, preparado psicologicamente para “dar” e “levar”… Uma boa martelada, para quem a “dá”, representa um grande acto de coragem e o descomprimir de tensões que só aquela noite permite. As reacções de quem a “recebe”, essas, são autênticas e genuínas, umas quase em jeitos de agradecimento, mesmo quando se leva com a parte mais dura e malcheirosa; outras há, mais sobressaltadas e queixosas. Em comum, a alegria e o riso de quem por momentos esquece as agruras do dia-a-dia.
Desafio o(a) caríssimo(a) leitor(a) a entregar-se a um pequeno exercício: que personalidades da cena política nacional mereceriam levar com uma martelada de São João?
Passo a partilhar convosco as minhas opções, influenciado, naturalmente, pelos principais episódios políticos da semana. Começo por elencar aqueles a quem eu saudaria agradavelmente com um martelo. Reservo esse lugar, desde logo, a duas ilustres Senhoras, não devido à sua condição feminina, mas antes por entender que são merecedoras de positivo protagonismo - a nova presidente da Assembleia da República (Assunção Esteves) e a líder parlamentar interina do PS (Maria de Belém).
Assunção Esteves, depois de ter sido a primeira juíza do Tribunal Constitucional, foi agora eleita a primeira mulher a ocupar o segundo cargo da Nação, conseguindo reunir o voto favorável de 186 deputados, pelo que cativou votos para além das bancadas do PSD e do CDS (estes dois partidos juntos somam 132 deputados). A sua vasta experiência e personalidade são garantes de rigor, competência e moderação, contribuindo para a tão necessária “reconciliação política” do Parlamento. Por seu turno, Maria de Belém, enquanto líder parlamentar do PS, defendeu que Portugal deve distinguir-se pela positiva dentro da zona euro e reafirmou a necessidade do cumprimento do memorando da Troika, numa alusão à situação da Grécia. As suas palavras, enquanto representante do maior partido da oposição, demonstram um elevado sentido de Estado, indispensável à paz social e à credibilidade de Portugal.
Por último, não deixaria passar o Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, sem lhe dar, de forma ligeira, com um martelinho de São João. Estreou-se (e muito bem! - diz-se) no Conselho Europeu, onde têm assento os vinte e sete chefes de Estado e de Governo da União Europeia. Viajou “em económica” e acompanhado de uma restrita comitiva. Um prenúncio simbólico de que o Estado passará a poupar e de que dará o exemplo. Aplaudo. Que não seja “sol de pouca dura”…
Aproveito agora para elencar as personalidades merecedoras de umas duras marteladas, entremeadas, aqui e acolá, com um inalar de alho-porro.
Em primeiro lugar, e uma vez mais, “ladies first”, Maria de Lurdes Rodrigues, acusada esta semana pelo Ministério Público do crime de prevaricação. Em causa, está a contratação, pelo Ministério da Educação, do Advogado João Pedroso para elaborar a compilação de legislação dispersa, a troco de 266 mil euros (!). O Ministério Público concluiu que o advogado não tinha qualificações suficientes e que o trabalho não foi feito. Não se compreende tanto facilitismo e pouco rigor por parte de quem, no passado, lançou sobre toda a classe docente a suspeição e culpa do pior que a Educação revelava. Aqui vai, pois, a acrescer à Acusação do M.P., uma forte martelada na ex-Ministra da Educação.
O papel patético que Fernando Nobre protagonizou ao “mendigar” votos (sem sucesso!) para a pretendida eleição como Presidente do Parlamento junto dos deputados do PSD e CDS, elogiando estruturas políticas (v.g . JSD) que, no passado, repudiou, fazem-no merecedor do segundo e veemente açoite de martelos XXL! E mais não digo, que este tema já cansa… Por último, não posso deixar de martelar furiosamente cada Governador Civil do país que pediu a demissão depois do Primeiro -Ministro ter anunciado que iria extinguir os Governos Civis. Não aguardaram que lhes fosse comunicada a data em que teriam de cessar funções, pretendendo os demissionários “dar um sinal eminentemente político ao Primeiro-Ministro”. Mas, meus senhores, o país não parou e mostrou-se indiferente à birrinha! Já agora, por que aceitaram os cargos em 2009, depois do PS, em campanhas eleitorais anteriores, ter prometido acabar, precisamente, com os Governos Civis, por representarem elevado desperdício de recursos e despesa do Estado? Toca, pois, a martelar, para ver se recuperam a memória…
E porque é São João, distribuo a todos os Portugueses um repolhudo manjerico, das cores da nossa bandeira, ostentando a seguinte e singela quadra: “Iremos mostrar ao mundo / Nesta hora sem igual, mas de dor / Continuar a ser o Povo / A levantar o esplendor.”

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