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Meadas de tempo

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Meadas de tempo

Voz aos Escritores

2019-11-22 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Tempo que nos foge, escorre entre as horas que se transformam em dias, às vezes meses ou anos. As pessoas, as nossas pessoas, oscilam ao longo da vida, entre geografias distantes ou afastamentos temerários. As voltas da vida às vezes provoca regressos, uns mais naturais do que outros, e é, no mínimo, interessante olhar para trás e desfiar essa meada. Malhas de afetos, mantas no tempo.
O inesperado impõe a direção, a qualidade a força da malha. Dobadas mais fortes sustentam tantas vezes as mais frágeis, mais tempo do que o que era devido. Mas o tempo limpa o que é impuro, mais tarde ou mais cedo. Entre dias de sol e de nevoeiro, as intempéries fazem o seu trabalho.

E tempo que é tempo, é também de contabilidade de faltas: faltam médicos, enfermeiros e funcionários diversos nos hospitais; faltam professores, psicólogos, assistentes sociais e demais funcionários nas escolas. Falta verdade no discurso político, mas há excesso de eufemismos. Falta dinheiro investido, mas há excesso de cativações. Falta investimento social, mas há excesso de impostos. Falta tempo de olhos nos olhos, mas há excesso de pessoas. Falta comunicação, mas há excesso de tecnologia. Faltam casas com condições para enfrentar o inverno que nos assiste todos os anos, mas há excesso de dinheiro nas rendas cobradas. Falta salário para cobrir o excesso dos dias do mês.
Vivemos a prazo e por empréstimos de valores temporários. Tempos de abafos subversivos, de olhares desviados, de conluios deslavados, consciências deslaçadas. Tempo de um bebé que grita, num caixote do lixo, a frieza e a desumanização que nos enrija a pele.

E este tempo entra-nos tantas vezes pelos olhos, nem sempre com a consciência devida. Os contadores de semáforos, por exemplo, evidenciam os tormentos urbanos, despojos de tempo inúteis e imperativos. Num mar de números remamos por marés com sentidos, palavras que sejam horizonte, sol, porto de abrigo ou terra segura. Casa. Um farol que nos salve desta penumbra consentida.
- Tenho uma surpresa para ti.
O plim da mensagem prende a atenção dos sentidos. Mais pelo emissor do que pelo conteúdo. Pouco tempo depois, a presença física ajuda ao desvendar do mistério.
- Fecha os olhos e estende uma mão.
Sinto qualquer coisa a ladear o pulso, com a ajuda de uma pele que contém dedos, formatos e texturas familiares.
- Mãe, hoje houve uma feira de minerais na escola e comprei-te esta pulseira. Custou dois euros.
- E tu tinhas dinheiro?
- Tinha, do que sobrou do que a avó me deu para o lanche no outro dia. Desculpa, pai, não comprei nada para ti porque não havia nada de masculino lá. Era tudo feminino e pedras rosas e assim.
- E não compraste nada para ti?
- Não. Também não tinha muito mais dinheiro…
- Então esta vai passar a ser a nossa pulseira. Um dia ando eu com ela, no dia seguinte andas tu.
- Pode ser.

Os lábios repenicam na bochecha o carinho do gesto e o agradecimento. O dia desdobra-se em acontecimentos, urgências, compromissos, até a noite permitir o regresso dos corpos aos seus.
- Mãe, sabes, através dos olhos da coruja da pulseira que te dei, eu vejo-te.
- Mmmm… então amanhã eu vou passar o dia inteiro a olhar para ti.
Amanhã é sempre o terreno fértil de todos os trabalhos, de todas as mudanças, de todas as esperanças. Talvez haja ainda uma hipótese para o tempo justo de que nos falou Sophia.

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