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Braga, sábado

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Medo de ser livre provoca o orgulho em ser escravo

Bernardo Reis: um nome para a história de Braga

Medo de ser livre provoca o orgulho em ser escravo

Ensino

2024-02-28 às 06h00

Francisco Porto Ribeiro Francisco Porto Ribeiro

A proposta do tema para artigo de opinião desta edição pode sugerir alguma reflexão interna. Em abono da verdade, a frase do título, da autoria de Gustave Flaubert (escritor francês, prosador que marcou a literatura francesa pela profundidade das análises psicológicas, sendo de realidade e lucidez), revela que o ser humano nutre, de forma natural, de um desejo imenso de liberdade, mas, por receios diversos, acaba por ficar sempre preso a regras sociais, revelando medo de viver na solidão (inevitável).
Mas desenvolvendo o tema proposto, a maioria das pessoas incorpora em si os impulsos e instintos atuais da sociedade moderna, não sendo em vão afirmar que, de um modo egoísta, o ser humano analisa os aspetos a partir de uma perspetiva materialista, atribuindo valor quantitativo às “coisas” (vale ou não vale a pena fazer o que quer que seja?). A atual sociedade “educa-nos” nesse sentido, sugerindo que vivemos numa “suposta” liberdade maravilhosa, rodeados de pessoas que possuem soluções para tudo, menos para a nossa angústia interna, e onde a liberdade dos indivíduos é considerada e respeitada apenas quando enquadrada nos parâmetros sociais ditos normais. Fora desses limites, seremos uns proscritos sociais, uns marginais, porque temos a ousadia de pensar por nós e de agir de forma diferente. Se não formos muito agitadores, seremos tolerados e aceites na sociedade, porque as pessoas são magnânimas. A atual liberdade é convertida numa escravidão social e política, onde todos temos de pensar e agir, dentro de determinados padrões, com limites de tolerância um pouco apertados. Claramente, o conceito de escravidão passa a ser renomeado e equiparado à “liberdade contemporânea padronizada”. O mais triste desta história é que as pessoas, que supostamente nos amam e sendo ou não da família, serão as primeiras a retirar-nos o apoio e a criticar, uma vez que a nossa suposta “liberdade” irá mexer com o seu modus vivendi acomodado e confortável, diria até previsível. Acabamos, muitas vezes, por encontrar apoio no(a)s desconhecido(a)s e desinteressado(a)s, que nos acolhem sem perguntas. Surge a necessidade de “romper” com os costumes, lutar contra a ordem estabelecida e voltar a pensar com a nossa cabeça “fora da caixa” (há um artigo de opinião sobre o tema, publicado em 20220-02-21). Será sempre uma luta dolorosa, mas creio que a opção é pautar-nos pela diferença, porque, fazendo aqui recurso a um chavão pessoal que usei em campanha eleitoral para a associação académica na faculdade, “a diferença somos nós”.
Platão referiu no seu texto sobre “Alegoria da Caverna” a necessidade de sair da escuridão e dirigirmo-nos no sentido da luz (leia-se, do Sol). Mas para tomar essa decisão, é necessário um imenso esforço interno que, basicamente, luta contra padrões pré-estabelecidos, numa necessidade de enfrentarmos o mundo sem ilusões, sem medos e sem fantasias. Neste sentido, é necessário perceber que “as gaiolas são o lugar onde as certezas moram” e onde se encontra um conforto comodista e egoísta, muitas vezes sendo essa a nossa opção final, de conforto. Há que ser ético(a) e vertical nas nossas opções e decisões, devendo essas serem tomadas com consciência. A realidade é algo que pode ser muito assustador, mas penso que viver na ignorância não seja a melhor opção, se bem que é a opção pessoal para alguns.
Não podemos esquecer que a ignorância e o medo conduzem à escravidão, por falta de alternativas. Associado a esta questão, recordo uma fábula do senhor La Fontaine que relata a conversa de um lobo (versão de um cão selvagem, sem prisões) e um cão doméstico e bem alimentado com coleira (vivendo seguro, “protegido” e dentro das regras sociais) – recomendo essa fábula (https://www.lapismagico.com/fabulas/o-lobo-e-cao/), que espelha o que tento transmitir neste artigo. Nesta história, La Fontaine refere a luta pelas opções do certo e seguro (onde se vive pela aparência) versus a incerteza do futuro, sendo que tudo na vida, principalmente as nossas opções, tem um preço (por vezes elevado).
Em resumo, há quem considere que é melhor ser “escravo” inconformado e amedrontado podendo, no entanto, contar com o certo, em detrimento de se investir num futuro incerto, de forma empreendedora, em detrimento de optar pelo risco ponderado e pela incerteza do futuro (pessoalmente, e como dizia o meu falecido pai, tenho apenas duas coisas certas na vida, “a incerteza do futuro e que a morte é certa”, tudo o resto são incógnitas na vida). Sugiro sempre que tenhamos coragem de “abrir” as asas e voarmos alto e com consciência, para a vida, saindo da “gaiola dourada” que é a atual escravidão social. Sonhar é um sinal de liberdade, nunca receie sonhar e ir mais além.
Não esquecendo o título deste artigo, o “medo de ser livre provoca o orgulho em ser escravo”, poderá ser um fator de ponderação e reflexão interna. Pense nisso e faça a diferença, saindo da sua “caverna” escura (conforme refere Platão) e siga o caminho da luz do dia, não esquecendo que “as piores correntes são as internas”, leia-se, os nossos medos interiores. Fica a partilha e recordo o que defendeu o senhor La Fontaine, no final na fábula acima referia, “a tua liberdade não tem preço”.

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