Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Medo? É Carnaval… ninguém leva a mal!

Um ciclo que se abre

Escreve quem sabe

2017-02-28 às 06h00

Cristina Palhares

O processo de identificação e avaliação de alunos com caraterísticas de sobredotação em idades precoces (3, 4 e 5 anos), para lá dos testes de inteligência padronizados e necessários, passa também pela observação padronizada e sistematizada tão comum, é minha convicção, do educador de infância.
Pensar que depois de tantas horas passadas em comum, num ambiente privilegiado de sala de aula do jardim de infância, onde a educação acontece muito para além da instrução, o educador continua com grandes dificuldades em descobrir, identificar e avaliar os sinais de precocidade que tão bem conhece. Precoce, porque antes do tempo esperado no desenvolvimento normal e/mas precoce porque diferente do esperado no desenvolvimento normal.

E se a discussão em termos nacionais e internacionais ainda se prende à volta dos termos precocidade versus sobredotação, aos educadores e professores cabe apenas observar, observar, observar.
Para quê? Para identificar. Para avaliar. Para intervir. Triangulação que só faz sentido quando forma um perfeito triângulo equilátero ‐ o equilíbrio no comprimento dos seus traços e na amplitude dos seus ângulos: identificamos e avaliamos para intervir.

A investigação aponta para alguns indicadores que são, sem dúvida, bons preditores de potenciais caraterísticas de sobredotação: Capacidade de verbalização; Criatividade; Capacidade de liderança; Rapidez de compreensão; Respostas originais; e, Habilidade para inventar situações novas. Até aqui nada de novo. É pacífico aceitarmos estes indicadores como fatores diferenciadores. É fácil perceber como a verbalização, a imaginação, a liderança, a rapidez de compreensão, as respostas originais e a habilidade para inventar situações novas denunciam excelência.

O novo acontece na hora em que temos que eleger “Alguém” como o mais capaz. Temos sempre dúvidas. Temos sempre medo. Medo de não acertar. Medo de indicar “alguém” que afinal não apresentava nem precocidade, nem caraterísticas de sobredotação.
E porque há outra solução mais fácil: nada fazer. “Não mexer, para não estragar”, como muitas vezes ouvimos. Mas voltemos ao medo. Pena este medo, porque paralisante. Hoje, e volvidos muitos anos no apoio direto a estas crianças e jovens, eu tenho muito medo ‐ um outro medo. Medo de não indicar, de deixar de ver, de não identificar. Medo pró‐ativo. Porque este, sim... deveria ser o medo de todos nós, educadores. Indicar com dúvidas é com certeza bem melhor do que por dúvidas, não indicar. Porque aí não fizemos nada.

E será que, em educação, fazer mal não é tão mau ou pior que não fazer nada? Em educação também já não há lugar para maus educadores ou educadores as-sim‐assim. Temos todos que ser bons educadores: pelas crianças, por nós, pelo país. E ser bom educador passa por esta tarefa da identificação que se prende assim com a mudança de perspetiva do medo. Espero ter passado o meu medo... o medo de não identificar. Espero que consigamos todos mudar o lado ao medo: do medo paralisante para o medo pró‐ativo.

Deixo‐vos novamente com Tourón, 1999: “Os alunos sobredotados existem, estão aí e continuarão a estar, podemos identificá‐los ou não, reconhecê‐los ou não. O importante é não arruinarmos as suas possibilidades por abandono ou negligência, por comodidade ou ignorância. A tarefa, sem dúvida, vale a pena…”

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