Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Meia Noite

“ O Encontro”

Meia Noite

Ideias

2021-06-19 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Foram os dias mais largos da minha infância. Sem relógio. Com arreata solta. Horas e horas de sorriso em relâmpago. Estalava de liberdade. A pele era um ninho de odores.
Amanhecia junto à minha avó. Dormia sentada. Um estar que me acalmava. A segurar o corpo, um colchão de palha que cedo arrebitava a mente. Por baixo da cama, um penico de esmalte que aliviava a madrugada. Ao lado, um copo de vidro escuro. Em volta, santos. Muitos. Em redor, algumas figuras conhecidas, longe da santidade, e pacotes de leite pendurados, também eles merecedores de adoração.
No quarto ao lado, noite dentro, uma voz cintilava o silêncio. Ouvi-la era viajar. Nessa estrada, a “Jabel Mouca” ganhava corpo. Não estava só. Um socalco de nomes que recordavam episódios salpicados por uma memória estacionada num tempo. As carradas do estrume, o tirar do esterco das cortes, a ida à lenha e a força das vacas. Marela, Dourada, Burisca, Castanha, cada uma com um relato próprio. Os “sete estrelos” eram o relógio. Com eles, todos tinham que sair de casa, por mais escura que a noite estivesse, para novo dia de labuta.
Estas viagens causavam mau estar na minha avó, longe de entender que a doença estava a sugar-lhe o tempo. Deixava a cama, quase sempre, com o humor em desordem. Pouco depois, levantava-me. Os primeiros passos eram para ele. Há muito que não saía do leito, preso por um rasgo que lhe definhou parte da perna.
Recebi colo. Abraço. Apego. Ainda hoje acredito que, no meio do caos mental, sempre que me via, conseguia ter um pingo de lucidez. Os miúdos, alguns, tinham-lhe medo. Um ser que lembrava Cunhal pela fisionomia e pelo belo cabelo branco, com um porte musculado inigualável e com uma voz vigorosamente doce. Pedia-me o néctar dos deuses. Recebia, num caneco, água com açúcar. Sempre que podia descia à loja, outrora taberna, para ir buscar o vinho da Agrela, vertido no jarro de barro escuro de Vilar de Nantes. Fazia-o à socapa. Ele sorria. Um sorriso rasgado que enchia a casa. Dava brilho às tábuas escuras, gastas pela erosão de um Barroso rijo. A cama era um tambor à mercê de um corpo que nunca mais vi igual.
Por esses dias, andava às sortes. Um mês sem freio. Corri aldeias a jogar à bola. Andei a esbarrondar medas. Jogar ao pique. Ouvir o toque da vezeira. Vi casas sem água nem luz. Chorei em cima de uma moreia de lenha, já noite alta, quando Marrocos despachou Portugal do México 86. Bebi a primeira cerveja ao balcão do café do Galego, local de culto para os homens de barba da minha aldeia. Joguei matraquilhos com dinheiro no bolso.
Foram dias de fárria. Ia para a escola sem livros debaixo do braço. Vi na televisão que Variações tinha morrido. O meu acorde era outro. Era galgar para a rua Direita, em Montalegre, comprar bolas de berlinde. Também amanhava croissants. À grande e à francesa. A avó pagava, longe da disciplina e do rigor dos meus pais que, nesse mês, iniciavam vida em Braga.
Foi assim o meu rico mês de junho, na fervura da puberdade. Sentia uma invencibilidade que só serenava quando recolhia. A mesma que sempre senti quando subia as escadas que davam o lanço para a porta de madeira. Em baixo, um buraco por onde se enfiavam gatos e ratos. Sem bater, entrava e dava de caras com o homem que está gravado nos meus fios de sangue. Em alguns dias, comi batatas fritas feitas num caço ao lume. Um desvario de amor, temperado por ovos estrelados. Eu reclamava. Tinham muito óleo. A minha avó danava-se. Lá de dentro, a voz do abraço a concordar com o neto, dizem, mais parecido com ele. Nessas paredes pintadas pelo fumo dos serões, há tanto que não esqueço. O debulhar das batatas que hoje aprecio, os cigarros Kentucky alumiados por um trocho saído da lareira, os mal- amados Gitanes com filtro sem sentido, mas aproveitados nas mortalhas, o pedido inclemente por uma atenção que merecia ser maior.
Passaram 35 anos. No mês seguinte, subiu ao céu. No dia da santa que venerava. Ainda hoje dedilho o pico do badalo do sino. No dia anterior, a minha mãe tinha cedido. Deixou-me vê-lo. Sem voz, paralisado de movimentos e com o coração a arfar, conseguiu olhar-me. Acariciei-o. Deixou-me o toque e o cheiro. Amá-lo-ei eternamente. Chamavam-lhe Meia Noite.

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