Correio do Minho

Braga, terça-feira

Meias verdades e mentiras

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2013-12-31 às 06h00

Jorge Cruz

Com o ano a terminar é normal sucederem-se as análises retrospectivas, os balanços, enfim, tudo o que nos permita lembrar, ou conhecer, o que correu bem e aquilo que defraudou, pelo menos na perspectiva, naturalmente pessoal, dos seus autores.

Não quero fugir à regra, muito embora não pretenda, aqui e agora, passar em revista os principais acontecimentos de 2013, tão pouco as medidas tomadas por um governo que, a meu ver, se preocupou mais em satisfazer as vontades dos nossos credores do que propriamente com o bem-estar dos portugueses. Mas essas são contas de um outro rosário que será desfiado em ocasião mais propícia.

Nesta última crónica de 2013 quero modestamente deter-me apenas em casos sintomáticos de uma certa maneira de fazer política. Uma forma que encerra em si mesma determinado tipo de comportamentos ética e humanamente criticáveis, e que por essa razão já deveria ter sido há muito banida dos regimes democráticos como é o nosso.

Refiro-me, em concreto, ao uso e abuso, por parte dos políticos, das meias verdades e até da mentira como forma de ludibriar o povo e, assim, impor as suas ideias e planos. Os exemplos deste tipo de actuação, condenável a todos os títulos, são mais que muitos e atravessam horizontalmente a quase totalidade do leque político. Veja-se o triste caso dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo que, além do mais, afunda o tão propalado desígnio do mar; a trapalhada bancária-financeira, com a SLN, BPN e quejandos; as incríveis “estórias” dos swaps e todo o imbróglio à sua volta; a inenarrável situação da dívida da Madeira... Enfim, um rol demasiado longo para o espaço de que disponho.

Um dos casos mais recentes foi protagonizado por Passos Coelho na sua mensagem de Natal ao país. Nessa comunicação, o Primeiro-ministro tentou passar uma ideia encorajadora aos portugueses mas, para obter os resultados que pretendia, não hesitou em distorcer a verdade. E foi assim que, como muito bem denunciou o jornal i, os menos de 22 mil novos postos de trabalho criados até Setembro passaram, na voz do chefe do Governo, a 120 mil.

Ao ignorar propositadamente os resultados do primeiro trimestre de 2013, período em que foram destruídos cerca de 98 mil postos de trabalho, Passos Coelho manipulou os números para poder apresentar um cenário mais simpático e mais condizente com a mensagem que pretendia transmitir. Mas a verdade é que do Primeiro-ministro de um país espera-se bastante mais, espera-se que fale verdade aos seus concidadãos e não que utilize artimanhas, como apagar o primeiro trimestre como se o ano só tivesse começado em Março, para manipular os números conforme lhe dá mais jeito.

É um facto indesmentível que entre Abril e Setembro a evolução do emprego foi positiva, passando de 4,43 para 4,55 milhões de empregados. E Passos Coelho poderia ter dito precisamente isso, reportando-se ao período em questão sem faltar à verdade e transmitindo de igual forma uma mensagem de esperança aos portugueses. Acontece que não o fez, preferindo trilhar caminhos pérfidos, pouco consentâneos com a função que desempenha, e que apenas servem para descredibilizar ainda mais a classe e a actividade políticas.
E isso foi tanto mais notório quanto é certo que, a partir desta incorrecção, a mensagem de Passos foi sujeita a inúmeras análises e esse escrutínio mais apertado acabou por detectar outras, digamos, desconformidades.

De facto, o Primeiro-ministro disse que “o desemprego tem vindo a descer mês após mês e, em particular, o desemprego jovem”. Também não será inteiramente verdade.
Segundo o INE, na faixa dos 15 aos 24 anos havia 247,3 mil desempregados em 31 de Dezembro de 2012 e no final do terceiro trimestre de 2013 o número de jovens sem emprego tinha aumentado para 260,7 mil. A situação na faixa entre 15 e 34 anos é ligeiramente melhor, mantendo-se em 1,28 milhões no mesmo período em análise, portanto não confirmando o optimismo de Passos Coelho.

Finalmente, o anúncio de que “a economia começou a crescer e acima do ritmo da Europa” também não é uma verdade absoluta, como foi salientado por diversos analistas. O semanário Expresso, por exemplo, fez uma investigação cuidadosa e concluiu que do primeiro para o segundo trimestre o PIB português cresceu 1,1%, superando a média da UE, que foi de 0,4%. Mas as boas notícias acabam aqui, porque no trimestre seguinte o crescimento foi de 0,2%, igual ao da Europa. Por outro lado, em termos homólogos o afastamento é maior porque no primeiro trimestre a economia portuguesa recuou 2% em relação a igual período de 2012, e no segundo caiu mais um ponto percentual, enquanto na UE os números se ficaram pelos -0,1% e 0,1%, portanto francamente acima dos portugueses.

Será provavelmente por considerarem que a situação portuguesa não é tão risonha como Passos a pinta que um grupo de investigadores ligados ao grupo editorial da prestigiada revista Economist incluiu Portugal no grupo de países que apresentam “alto risco” de agitação social no próximo ano, com probabilidade de protestos violentos nas ruas.

Um dos investigadores responsáveis pelo estudo, Laza Kekik, explicou ao Economist que os problemas económicos “nem sempre resultam em agitação social” mas que factores como a “grande desigualdade nos rendimentos, um governo fraco, baixos níveis de apoio social”, entre outros, conjugados com a redução dos rendimentos, têm contribuído para o aumento da agitação social.
Esperemos que tal não se confirme.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

25 Setembro 2018

Traição, dizem eles!

25 Setembro 2018

As receitas do IVA

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.