Correio do Minho

Braga, sábado

Memória de exames

Menina

Ideias

2013-05-10 às 06h00

Margarida Proença

Há mais de cinquenta anos atrás (como passa depressa o tempo!) fui fazer dois exames a outras escolas: o exame da 4ª classe e o da admissão ao liceu. Vivia a cerca de 11km de Castelo Branco, numa localidade dominada por algumas grandes empresas, de âmbito nacional, e que tinha já então cinco escolas primárias. Fui, é claro, fazer os dois exames a Castelo Branco.

As memórias são uma coisa engraçada. Do exame da 4ª classe lembro-me apenas de me ter sido pedido para pregar um botão; provavelmente terá sido a questão mais difícil! De resto, a memória que tenho é de ter ido almoçar com os meus pais a um bom restaurante no fim da prova, e de me terem oferecido o meu primeiro relógio.

Na verdade, do exame da 4ª classe, em si não conservo nenhuma recordação de stress nem aliás qualquer outra, e não afetou em nada a minha prestação escolar ao longo do tempo.

Na altura era requerido aos alunos para além do óbvio ler, escrever e contar, um conjunto de conhecimentos significativos e muito específicos: os cognomes dos reis de Portugal, as estações e apeadeiros dos comboios, os nomes dos rios e de todos os seus afluentes e outras coisas relevantes do género. No entanto, nas escolas, a leitura restringia-se ao livro de leitura obrigatório, e o incentivo á escrita resumia-se a uma quantas redações obrigatórias, de que recordo a rigorosa estandardização dos temas.

Fiz depois o exame de admissão ao liceu, e desse lembro muito claramente duas coisas. Em primeiro lugar, de minutos antes da prova de português ter ouvido falar pela primeira vez de gramática, de substantivos e adjetivos, embora soubesse papaguear a lista das proposições. Estou certa que não será uma situação generalizável, mas aconteceu de facto comigo. Nunca mais esqueci a segunda: o professor estava lá, dando essas preciosas informações (e dado o momento, inúteis) a um grupo de duas crianças, eu e outra. De tantas escolas. A incomodidade de não perceber onde estavam os outros coleguinhas é a memória mais clara que conservei desse tempo dos primeiros exames.

O processo de aprendizagem é uma coisa curiosa, relativamente á qual a minha experiência com os apeadeiros e os adjetivos me fez pensar muitas vezes ao longo da minha atividade profissional enquanto professora. O défice nos conhecimentos gramaticais aos nove anos nunca me prejudicou - tinha notas elevadas a português e escrevia bem, com facilidade, porque sempre, sempre li muito. Para além dos muitos livros que havia na minha casa, fiquei com uma dívida enorme à Calouste Gulbenkian e á sua biblioteca itinerante. Mensalmente, lá aparecia no centro da localidade onde vivia tornando possível a leitura a gerações e gerações de crianças e jovens, prestando um verdadeiro serviço público de elevada qualidade e impacte.

De qualquer forma, ficou-me este forte enviesamento para a importância da leitura. E ficou-me ainda a opinião que o processo de aquisição de conhecimentos é o resultado de diversos fatores que passam pelo ensino formal e pela verificação ou validação do conhecimento com base nos ensinamentos prestados nos bancos da escola, mas também de tudo o que lhe é complementar e que vai mudando com as alterações tecnológicas e os seus efeitos sobre o nosso quotidiano, dos livros que sempre se devem ler ao recurso atual ao que de muito positivo nos traz os computadores e a internet.

Por outro lado, ficou-me ainda a opinião que a capacidade de usar o conhecimento para resolver problemas pontuais do nosso dia-a-dia é fundamental. O que faz um bom estudante, o que determina o sucesso profissional é um conjunto complexo de fatores; fazer ou não o exame da 4ª classe, se foi ou não numa escola diferente daquela onde se estudou, é uma discussão quase irrelevante. O futuro desses meninos não passa pela ausência de riscos, pela inexistência de validação do desempenho, por um mundo fechado sobre o local onde vivem e estudam. Com ou sem exame.

O que é mais importante, o que constitui de facto uma alteração extraordinária nestes cinquenta anos é a mudança no acesso á educação. Apesar da gravidade desta crise, e das consequências brutais sobre os jovens confrontados com uma taxa de desemprego muito elevada, a tecnologia e a globalização continuam a marcar as necessidades do mercado de trabalho exigindo capacidades analíticas elevadas, para além de uma base sólida de conhecimentos e de capabilidades significativas em termos das novas tecnologias da informação e da comunicação. Portugal pertence a um pequeno grupo de países, na OCDE, onde a situação mais se alterou: em 2010, apenas 16% dos portugueses com 55 a 64 anos tinham atingido o ensino secundário, face a 52% dos jovens entre 25 a 34 anos. E as restantes estatísticas da educação confirmam uma evolução profundamente positiva.

Mas em 2010, para os jovens, essas médias eram já de 82% na OCDE, e de 83% na União Europeia.

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