Correio do Minho

Braga, sábado

Memórias

Menina

Ideias

2018-04-27 às 06h00

Margarida Proença

Nos últimos anos, o 25 de abril traz-me nostalgia. A confirmação de como o tempo passa tão rápido, de como a memória nos prega partidas, e tudo vai ficando esquecido.
Um filme recente, na verdade muito bonito, Coco, que vi com a minha neta, passava esta ideia - não se morre verdadeiramente enquanto se fala das pessoas, se contam as pequenas histórias que construíram as suas vidas, no fundo se mantem viva a memória. Uma amiga diz-me muitas vezes que a nossa geração, adolescentes ou quase na década de sessenta, jovens adultos na década de setenta, levou Portugal do século XIX para o século XXI, diretamente. No mesmo sentido, Filomena Mónica refere que Portugal mudou muito, para além do que se julgou possível.

Por finais da década de 50, Portugal era, na verdade, um país fechado sobre si mesmo, rural e muito, muito conservador; havia Lisboa, e o Porto, mas para além disso quase 75% da população vivia nos campos, de aldeias minúsculas a vilas grandes, mas no quadro ainda de uma urbanização incipiente. A profunda depressão económica mundial das décadas de 20 e 30, e a 2ª Guerra Mundial de seguida, tinham habituado o país a viver quase em autarcia, com o mercado interno protegido , as empresas habituadas a uma espécie de bolha que as isolava da concorrência aberta, e dependentes do apoio público. A produção de cereais , a indústria têxtil, mesmo a indústria química ou os adubos tinham crescido neste ambiente protegido, não apenas da concorrência das importações, mas mesmo de potenciais concorrentes portugueses. De facto, em 1931 era publicada a lei do Condicionamento Industrial que veio a ter um impacto enorme; estabelecia-se então que a instalação de novos estabelecimentos industriais, bem como a montagem ou substituição de tecnologia nas empresas de que viesse a resultar aumento de produção, entre outros aspetos, tinha de ser previamente autorizada pelo Ministro competente, depois de ouvido um conselho consultivo constituído pelos representantes das empresas existentes.

Claro que resultou em monopólios, grandes famílias que se perpetuaram em donos disto tudo, mas principalmente contribuiu para uma menor necessidade de melhorar a qualidade dos produtos, a tecnologia incorporada, o desenvolvimento de métodos e processos adequados de gestão e diminui a pressão para um aumento significativo do nível educacional. Por finais da década de cinquenta, no século XX, ainda se discutiam em Portugal as vantagens de se iniciar, ou não, um verdadeiro processo de industrialização
Em 1960, cerca de 26% da população portuguesa, com dez anos ou mais, era analfabeta; e no caso das mulheres quase 40% não sabiam ler nem escrever. As mulheres, claro, que tinha vedadas uma série de profissões, que dependiam cultural, social e principalmente economicamente dos maridos, que não tinham passaportes individuais, ou podiam fazer aquisições importantes.

Dez anos depois, a situação era melhor, mas pouco: 25,7% de todos, homens e mulheres, mantinham-se analfabetos. E o peso relativo dos que tinham formação universitária era perfeitamente irrisório, uma elite que se habitou a sê-lo obviamente. Anos depois do 25 de Abril, em 1980, já depois de se ter iniciado uma verdadeira explosão no sistema educativo, ainda só representavam menos de 11% da população.
A adesão à EFTA em 1960, veio a permitir algumas mudanças naquele mundo estático, ainda que acompanhadas paradoxalmente pelo endurecimento e fechamento político na resposta á guerra colonial. A abertura ao comércio internacional permitiu a Portugal começar a explorar as suas vantagens comparativas.

O país começa então a crescer, finalmente uma nação industrial, ainda que difusa. Continuavam-se a favorecer os argumentos da mais valia de manter os salários baixos, a manutenção das colónias como fontes de matérias primas a preços mais baixos, os níveis de vida internos mantidos baixos pela fixação de preços na agricultura, habituados todos a um dado tipo de intervenção do Estado na economia, protegendo os fatores específicos dos setores produtivos, capital e terra. Não competia ao Estado, ou apenas marginalmente, a função redistributiva, socialmente determinada, cuja pressão diminuía dada uma taxa de urbanização ainda relativamente baixa, e o efeito positivo das remessas dos emigrantes, que entretanto iam saindo em percentagens crescentes.
O nível educacional, a saúde, a qualidade de vida, a cultura, o acesso à energia, etc, do país onde cresci e vivi , ainda jovem universitária, não é percebido de forma alguma pelos jovens de hoje. E essa mudança notável decorreu também do progresso tecnológico e da globalização mas fundamentalmente de uma alteração política. E isso não podemos, não devemos esquecer.

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