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Memórias do meu S. João

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Memórias do meu S. João

Ideias

2019-06-24 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Nascida em Braga, só posso festejar o S. João aqui, em chão onde cresci. Sei que esta festa são-joanina não será a maior, nem a mais exuberante do país (não temos uma ribeira com vista para uma outra margem que também se enche de gente; nem uma ponte a partir da qual se larga um vistoso fogo de artifício; nem tão pouco barcos que sirvam animados jantares no meio do rio, como acontece no Porto). Mas para mim, é a melhor. Porque é minha e porque faz parte de memórias longínquas que, a cada ano, se vão atualizando.
Encaminhando-me esta semana para uma reunião da Liga de Amigos do Hospital de Braga, surpreendo-me, no meio da Ágora do edifício central, com uma exposição de fotografias. Intitulada “Objetivas sobre o S. João de Braga”, esta iniciativa abre janelas para um distante Portugal, pintado a preto e branco, que se enche de gente, de rosto sofrível, no Largo da Ponte. Percebe-se que está ali o retrato de uma sociedade profundamente desequilibrada, sustentada por uma base que erguia o país à custa de um árduo e mal pago trabalho manual. Mesmo assim, a festa do santo popular introduzia uma interrupção numa vida dura, abrindo espaço para alguma folia, algo raro num regime austero, mas possível, como se vê ali. Na parede estão também imagens de uma longínqua Avenida Central, aberta a um parco trânsito e disponível para acolher deambulações de peões que se faziam aleatoriamente no meio de carros de velocidade reduzida. E ali estão as velhas tílias e um jardim que conferiam um outro cenário ao centro da cidade.
Neste tempo, muita coisa mudou, mas a minha festa não se alterou de forma radical. Por estes dias, continuo a percorrer as ruas da cidade à procura de uma cidade autêntica que se vai desvirtuando. Gosto do ambiente de feira que o S. João traz a artérias que, neste presente apressado, vão perdendo vida. As tendas agora fazem-se de barracas pré-fabricadas de madeira. Os feirantes de Oleiros com as suas loiças de barro ou alumínio cederam espaço a vendedores africanos que exibem carteiras de múltiplas marcas e colares de desenho autóctone. No entanto, o comércio continua a fazer-se de informalidades, havendo um ruído de fundo que nos aproxima uns dos outros numa espécie de venda coletiva. Gosto disso.
Obrigatória a passagem pelo recinto dos carroceis, agora preenchido com outros equipamentos. Desapareceu de cena o poço da morte, mas ali estão os seus sucedâneos, abertos a gerações que ali buscam experiências mais radicais. Eu procuro os carrinhos de choque, atualmente replicados em versões adaptadas a crianças mais pequenas.
No dia de S. João, salientam-se os Carros dos Pastores e da Dança do Rei David. Aqui a tradição permanece, resultado da perseverança daqueles que vão alimentando ensaios e um périplo que, em determinados anos, se faz sob escaldantes temperaturas. Hoje ali estarei eu novamente, numa das ruas da cidade, para ver essa distintiva exibição, depois de uma noite feita de sardinhas assadas e de churrasco, agora mais circunscrita a minha casa, com vista privilegiada para o Picoto onde depois da meia-noite há fogo de artifício. Nas minhas memórias, está uma noite feita de corridas Avenida Liberdade acima, Avenida da Liberdade abaixo. Éramos muitos aqueles que, de mãos dadas, percorríamos a rua numa alegria contagiante, feita de muitas marteladas e alho porro. Essa folia tem resistido ao longo dos tempo. Ainda bem.
Convém não esquecer o centro desta festas: S. João. Sendo católica, a capelinha da Ponte é um ponto de passagem obrigatória em véspera do dia do santo popular. Sem os bancos, a acolhedora igreja acolhe centenas de pessoas. Umas mais apressadas, outras mais disponíveis para estar ali durante uns bons minutos. Todas elas unidas por uma fé que para muitos será incompreensível, mas que se enche de sentido para aqueles que ali se recolhem em oração.
S. João faz-se assim de variadas manifestações e cada um vai aproveitando o melhor da festa. Bom S. João para todos!

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