Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Meteorologistas e outros que tais

O que nos distingue

Ideias

2015-01-06 às 06h00

Jorge Cruz

Na época natalícia, o primeiro-ministro resolveu dirigir aos portugueses uma mensagem carregada de eleitoralismo e com alguns laivos de meteorologia. “Este será o primeiro Natal desde há muitos anos em que os portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu horizonte”, afirmou Passos Coelho, aventurando-se desta forma em terrenos habitualmente ocupados pelo almanaque Borda d’Água.

Após uma parte quase delirante em que garantiu que “entramos numa nova fase, uma fase de crescimento, de aumento do emprego e de recuperação dos rendimentos das famílias”, Passos conclui que agora “podemos sentir cada vez mais confiança no futuro”. E aventurando-se por terrenos do senhor de La Palisse acrescentou que “será o primeiro Natal desde há muitos anos em que temos o futuro aberto diante de nós”. Ou seja, falou mas nada disse.

É certo, e justiça lhe seja feita, que na sua alocução reconheceu o óbvio, isto é, que “muitos portugueses ainda lidam com enormes dificuldades no seu dia-a-dia” mas, entretanto, olvidou-se, por exemplo, dos milhares e milhares de concidadãos que já desistiram do seu próprio país e estão agora a contribuir para o crescimento de economias alheias.

Tratou-se, claramente, de uma intervenção inserida numa campanha pré-eleitoral, aqui e além com contornos de balanço de um ciclo, mas que não deixa de ser uma narrativa feita à medida dos interesses eleitorais do dirigente político e não do estadista, como seria expectável até tendo em conta a época.

Claro que uma mensagem natalícia deste teor teria necessariamente que suscitar as críticas da oposição quer quanto ao seu conteúdo quer quanto às políticas que a mesma encerra, tanto mais que se tratava do derradeiro Natal do primeiro-ministro enquanto tal.
Mas alguns dias depois, ao principiar este ano de 2015, o Presidente da República, que enquanto supremo magistrado da Nação deve ser factor de equilíbrio e de coesão nacional, acabou por deitar mais algumas achas para a fogueira ao invés de, como seria expectável, colocar água na fervura.

De facto, Cavaco Silva centrou a sua intervenção nas eleições legislativas, que deverão realizar-se depois do Verão, mas as suas palavras foram interpretadas como uma inadmissível colagem ao governo e às suas políticas e, nessa medida, acabou por ser posta em causa a imparcialidade que deve nortear a acção do chefe de Estado.

Creio que todos concordarão com a necessidade, expressa por Cavaco, de os partidos recusarem e combaterem o populismo e se empenharem em acções de pedagogia democrática. “Uma cultura política mais esclarecida e mais esclarecedora” é, afinal, uma exigência consensual entre os portugueses, do mesmo modo que todos reconhecerão a dispensabilidade de “crispações e conflitos artificiais”, os quais de facto “têm afectado a confiança dos cidadãos”. Cavaco tem ainda razão quando lembra que o tempo a seguir às eleições será marcado por “exigências de compromisso e diálogo” e que tal não poderá ser prejudicado “por excessos cometidos na luta política que antecede o sufrágio”.

Mas o discurso do chefe de Estado pecou, de facto, por alguma parcialidade ao defender a manutenção do rumo, ou seja, a continuidade das políticas de austeridade e o consequente empobrecimento do país. Por outro lado, ao focar-se em demasia no próximo acto eleitoral, Cavaco repetiu algumas das preocupações manifestadas há um ano, e que têm que ver, como foi dito atrás, com o comportamento dos partidos, mas entretanto deixou cair outras questões fundamentais que se prendem com o quotidiano e a qualidade de vida dos portugueses.

Em Janeiro de 2014, Cavaco manifestou grandes apreensões, por exemplo, com os elevados níveis do desemprego chegando a sublinhar que “muitos jovens tiveram de procurar no estrangeiro oportunidades de futuro que não encontraram no seu país”. Ora, sob o ponto de vista social, este ano o silêncio do chefe de Estado foi sepulcral.
No entanto, à saída da troika não corresponderam melhorias sob o ponto de vista social, bem pelo contrário, casos houve em que se verificou um agravamento da austeridade.

Analisando a título meramente exemplificativo medidas como o Rendimento Social de Inserção e o Complemento para Idosos constatamos que ambos sofreram cortes, respectivamente de 2,8 % e 6,7%. E sobre estes e outros espartilhos que infernizam a vida de milhares de portugueses o chefe de Estado manteve um prudente silêncio. Que alguns não hesitam em classificar de cúmplice.
De resto, o insuspeito Marcelo Rebelo de Sousa não teve qualquer rebuço de classificar a mensagem de Cavaco como um “bocadinho desapontante”. “Foi uma mensagem muito curta, muito centrada só nas eleições”, disse no passado domingo o comentador televisivo.

Na realidade, tratando-se da última mensagem de Ano Novo que Cavaco fez na plenitude das suas funções, uma vez que em Janeiro de 2016 já estará no final do seu mandato e com a campanha eleitoral para as presidenciais em pano de fundo, esperava-se bastante mais. Mas a verdade é que ao longo das várias décadas que leva de exercício de funções políticas Cavaco Silva já nos habituou a tudo.

Desde o remoto e não saudoso tempo em que foi primeiro-ministro, quando animou uma guerrilha institucional com o Presidente da República de então e iniciou o processo de desmantelamento do aparelho produtivo, missão que agora completa ao apadrinhar a venda de empresas fundamentais para a economia portuguesa. O problema deverá ser nosso, que ainda não nos acostumamos à especificidade do personagem.

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