Correio do Minho

Braga, terça-feira

Migalhas

O que nos distingue

Conta o Leitor

2018-07-06 às 06h00

Escritor

Autor: Manuel C. Correia

Uma migalha perdida entre um guardanapo de papel amarrotado caminhava para o caixote do lixo, o pequeno rapaz fazia a sua tarefa de arrumar a mesa no fim de cada refeição. Refeições racionalizadas até no pão! Uma voz rude e prepotente quebrou o silêncio naquela sala de grandes dimensões.
- Alto lá rapaz. O pequenote parou e pelo tom de voz coisa boa não vinha para os seus lados. E de pronto obrigou o rapaz a abrir o guardanapo, e surpresa, umas migalhas residiam naquele espaço de papel amarrotado, nada de especial que nem a barriga encheria a um pequeno pássaro!
- Mas o que pensas que é isto? Voltou a perguntar o dono da casa.
-Migalhas nada de mais senhor. Respondeu o rapaz com a voz tremula.
-Migalhas? Sabes o que é isso? O homem estava cada vez mais zangado com o rapaz, já se viam as veias do pescoço a ficarem em alto-relevo, a cara vermelha, um autêntico diabo, só lhe faltavam os cornos à vista, pois pelo que se contava na aldeia a sua mulher era mais dada a homens que a sabiam cortejar e mimar, coisa que ele não fazia, era um homem materialista, afogado nas suas propriedades e conta bancária.
O rapaz ficou perplexo não sabia que mal tinha deitar aquelas migalhas ao lixo, e respondeu:
-Senhor mas são migalhas, pequenas migalhas.
_Pois são, mas por deitarem migalhas ao lixo é que os teus pais me suplicaram para te dar emprego aqui, para te dar de comer. Que seja a ultima vez que fazes isso.
-Sim Senhor nunca mais vou deitar uma migalha que seja ao lixo.
O episódio passou e todos os dias o pequeno rapaz arrumava a mesa e quando encontrava migalhas, recolhias num saco de pano e dava à cozinheira para meter na sopa, não havia perdas de comida naquela casa, tudo era aproveitado até as cascas de batatas.
O homem era tão sovina que que quando um pobre aparecia a pedir pão ele soltava os cães. O rapaz estava como criado dele por conveniência, toda a comida que comia era bem paga com o seu trabalho.
A quinta era enorme, e muitas vezes o rapaz saía de manhã e só voltava á noite, cansado, mas sempre com a tarefa de arrumar os pratos e sacudir a toalha, isto é recolher as migalhas no tal saco de pano, e leva-las para a cozinheira deitar na sopa. O rapaz gostava de pássaros. E por vezes de tão cansado, imaginava um dia voar como um pássaro, subir até às nuvens e descer num lugar aonde pudesse ser feliz, longe da prisão e da repressão do ditador da casa.
O rapaz começou por entregar metade das migalhas para a cozinha e a outra guardava na algibeira e quando chegava no seu quarto, despejava-as num pequeno saco de pano que a sua mãe lhe fez para meter o pão, sempre que fosse para o campo trabalhar. Pela calada o rapaz deitava junto a uma árvore bem afastada da casa as migalhas que guardava, e os pássaros não se faziam de rogados e depressa as comiam. Era o momento mais feliz do dia para o rapaz. Todos os dias que podia ou tinha migalhas o rapaz repetia o gesto, e os pássaros já de tão acostumados, quando o rapaz não aparecia procuravam-no em toda a quinta. Um dia o rapaz ficou doente e para surpresa dele no beiral da janela do seu quarto estavam centenas de pássaros a espreitar para dentro, e só abandonaram o beiral quando viram a expressão de admiração do rapaz, sinal que estava vivo!
Foram dois dias de cama. O velho zangão e avarento, o dono da casa senhor seu patrão, começou por lhe dizer que aqueles dois dias de cama tinham que ser recuperados. Tinha que trabalhar a dobrar. Naquele dia o rapaz saiu de manhã cedo juntamente com mais 20 pessoas para a colheita da azeitona. Com grandes varas os homens mais possantes e altos varejavam as oliveiras e os restantes apanhavam uma-a-uma as azeitonas que caiam fora dos lençóis que ponham à volta das árvores. Todo o dia curvado apanhar azeitona. Quando chegou a hora do almoço a fome era tanta, mas o cansaço era imenso que no fim de almoçar o rapaz deitou-se a descansar um pouco. Adormeceu sobre a erva verde e fresca, encostada a um pequeno muro feito de pedra lascada. Depressa chegou ao sonho: a água corria num pequeno ribeiro e ele nadava numa zona aonde tinha uma represa, hum sentia a frescura da água no seu corpo, uma sensação de total relaxamento. Nas margens os pássaros cantavam no cimo das árvores, melodias de encantar! O som dos pássaros começou a aumentar cada vez mais, de tal forma que já não cantavam, era como se gritassem! Como se fosse um alerta de perigo! Mas que estranho sonho, de tão estranho que o rapaz acordou e continuou a ouvir os pássaros a chilrear numa total desafinação! Em direcção ao pequeno rapaz, movia-se uma cobra venenosa, pronta a o morder! Assustado o rapaz deu um salto e fugiu da cobra!
-Obrigado meus amigos pássaros salvaram-me a vida.
Todas as migalhas que deu aos pássaros foram o gesto de boa vontade que lhe salvou a vida. A gratidão dos pássaros para com o rapaz foi o fruto das cementes deitadas pelo pequeno rapaz.  

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