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Mobilidade: a revolução que tarda!

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Mobilidade: a revolução que tarda!

Ideias

2021-03-23 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

O projecto do BRT (Bus Rapid Transit) em Braga está sinalizado como prioritário no próximo Quadro Comunitário PT 2030, uma vez que, segundo a Ministra da Coesão Territorial, se trata de um projecto essencial para a mobilidade urbana sustentável, não apenas na área do município, mas em toda a região.
A informação, divulgada há dias pela própria Ana Abrunhosa durante um debate radiofónico com o presidente da Câmara de Braga, foi por este considerada uma boa notícia, muito embora o edil entenda que o BRT deverá ser antecipado, pelo que reclama a sua inclusão no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
A questão já tinha sido levantada na penúltima reunião do Executivo camarário, faz hoje precisamente um mês, quando os vereadores socialistas criticaram a ausência dos investimentos anteriormente anunciados por Ricardo Rio, no âmbito de um plano de mobilidade para a cidade. Sem obra para apresentar nessa área, o edil logo assumiu o papel de vítima, afirmando que “esses investimentos poderiam ser feitos se tivessem sido incluídos no Plano de Recuperação e Resiliência”, aproveitando para os associar ao BRT. Mas foi mais longe. Na tentativa de fazer render a vitimização, Rio passou ao contra-ataque e desafiou os vereadores socialistas a utilizarem a sua influência política junto do Governo no sentido de tais investimentos serem incluídos no Plano de Recuperação e Resiliência.
A verdade é que o repto foi, mesmo assim, aceite pelos eleitos socialistas, os quais se disponibilizaram para promover as diligências necessárias. Para tal, solicitaram, naturalmente, cópia dos documentos que terão sido enviados para Lisboa para que eles próprios pudessem proceder ao seu reencaminhamento “a quem de direito”. Acontece que, vá-se lá saber porquê, essa cópia nunca chegou a ser facultada aos vereadores do PS…
Para uma melhor compreensão das questões relacionadas com a mobilidade e, em concreto, com o BRT, convirá recordar que em 2016 este projecto foi apresentado como “um sistema de transportes públicos de alto nível e qualidade que funcionará com veículos rodoviários de passageiros em canal dedicado, ao longo de 15 Km, com prioridade nos cruzamentos”. Pormenorizava-se ainda que “a inserção urbana em zonas mais delicadas, em particular no centro histórico, permitirá que o BRT conviva pontualmente com peões e trânsito banalizado”, para o que utilizará veículos dedicados, com design moderno, tal como um metro de superfície.
Aparentemente, as questões de mobilidade constituíam, já em 2012, portanto antes da sua primeira vitória eleitoral, uma das grandes preocupações de Ricardo Rio, a par, entre outras, da recuperação da Fábrica Confiança. Nessa altura, o ainda candidato a presidente prometia soluções de transporte público eficaz e rápido, bem assim como novas ciclovias e a “promoção de modos suaves de transporte”, precisando mais tarde, já como edil, que a futura rede ciclável iria passar à porta de cerca de cem mil pessoas.
Foi neste contexto que surgiu o anúncio público do BRT, um projecto que teve como principal impulsionador o então administrador dos TUB, Baptista da Costa, e que apontava custos de implementação da ordem dos 135 milhões de euros, montante que também contemplava a regeneração urbana ao longo do seu traçado.
As alterações então introduzidas no Plano Director Municipal (PDM) viabilizaram a opção pelos modos suaves e pelo reforço do transporte público. Assim sendo, o Anel da Mobilidade em BRT passaria a constituir a base do sistema de transportes em Braga.
O problema, segundo Baptista da Costa, foi apenas a falta de vontade política do presidente da Câmara. “Braga não tem BRT porque o presidente Ricardo Rio não quis”, garantiu há tempos aquele antigo gestor da transportadora municipal.
A convicção deste especialista baseia-se no facto de, em finais de 2015, o programa de Governo ter reconhecido o BRT como uma solução para as cidades portuguesas, decisão que abriu caminho ao arranque do projecto em Braga. Acresce que mais tarde, no início de 2017, o anúncio público do apoio governamental, ocorrido precisamente em Braga, reforçou a tão procurada luz verde para o arranque, embora sem consequências práticas. Ou seja, apesar das condições favoráveis e do suporte financeiro do Governo, a verdade é que o BRT não saiu do papel e, entretanto, as condições de mobilidade na cidade de Braga continuam a agravar-se, gerando protestos quer de associações, como a Braga Ciclável, quer de vários cidadãos.
Esse descontentamento notou-se na última sessão da Assembleia Municipal, quando uma jovem interveio para reclamar que Braga deve “apostar mais na mobilidade urbana”, e ir mais longe “em matéria de ciclovias, onde falta fazer muito”. A redefinição das linhas dos TUB “para que os autocarros sejam mais atractivos do que o transporte particular” foi outra das reivindicações da jovem Francisca Costa.
Na mesma linha, Mário Meireles, da Braga Ciclável, em artigo publicado no Diário do Minho, teceu duras críticas à (falta de) política de mobilidade deste executivo camarário, a quem acusou de brincar às bicicletas. “Afinal, depois de muitos estudos e projetos elaborados, vão continuar a brincar às bicicletas, e pintar uns passeios e marcar umas bicicletas no chão”.
Aquele especialista nota que “três anos depois de se anunciar que se ia humanizar a Rodovia, que se iam criar ciclovias e corredores bus, com projeto pronto a ser executado, vem-se dizer que, afinal, não querem mexer no espaço do carro”. E deixa uma pergunta inquietante: “Quantas vidas se perderam nestes anos por se ter cruzado os braços e não se ter feito absolutamente nada nas principais avenidas da cidade?”.
Perante tudo isto, parece-me perfeitamente legítimo questionar se de facto Ricardo Rio pretende fazer a revolução que prometeu ou se, pelo contrário, também no plano da mobilidade vai manter políticas conservadoras.
* O autor escreve em total desacordo e intencional desrespeito pelo dito Acordo Ortográfico, declarando-se objector do mesmo.

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