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Vida e Obra de Paulo Freire – Parte III

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Voz aos Escritores

2023-07-21 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Ouvi o som «era», com um erre enrolado à inglesa, ou à brasileira, pois já o ouvi da boca de alguns nossos irmãos. Como? – perguntei indeciso. «Era», repetiu convicto. «Era, imobiliária!», e apontou para as casas em frente. Ah, percebi, disse-lhe que sim, que ficava mais à frente, ao fundo, à esquerda. Sei, por tudo o que vou lendo, que há estrangeiros por todo o lado a comprarem as nossas casas, a subirem vertiginosamente o seu valor, e que a coisa começa a ficar preta para a nossa juventude. E tenho a intuição de que as imobiliárias contribuem um pouco para isso, embora não queira discutir o facto.
Este acontecimento remete-me para um dia em que, conversando com alunos chineses a propósito de histórias da carochinha, comecei canonicamente com «era uma vez», obtendo o eco muito estranho de «ela uma vez». Já sabemos que os chineses são incapazes de pronunciar o «r», e fazer-lhe ver a diferença entre «era» e «ela» foi o cabo das tormentas. Já imaginaram a dificuldade para explicar questões fonéticas, a par de problemas de homofonia («era», «hera») e de complexidades sintático-semânticas? Se pensarmos bem, este fluxo sonoro «era» é dos mais produtivos em língua portuguesa, pois, para além de nos introduzir no fantástico literário a que chamamos «conto», é forma do verbo «ser», que, a par do «estar», exprime a essência da nossa condição humana.
Numa era, ou em eras anteriores à convenção ortográfica e às grandes discussões filosófico-gramaticais, poucos se preocupariam com se era ou não era, ou com estruturas que tornam ambíguos até os pelos de um careca. Mas agora, com o nascimento imparável de sábios em questões linguísticas, é um ver-se-te-avias de comentários e correções, de propostas interpretativas que fariam corar o Austin ou o Wittgenstein.
Nestes arremedos pela língua portuguesa, dou às vezes por mim nadando nas preposições, jogando-as com este «era» de tão fino recorte. Já sei que não joga muito bem com «a», «com» ou «em» mais infinitivo, mas com «de» parece comportar-se bem melhor. Dantes, na ausência de estudos científicos, era de se perguntar; agora, com aportações epistémicas, deônticas ou buléticas, a coisa fia mais fino. Houve um tempo de primazia do uso de «por» mais infinitivo, pois «era por comer» que lá em casa todos labutavam. Hoje, com a mutação política e sociológica, o «por» apanha por tabela e dá o seu lugar ao «para», que uso com recorrência. «Ser para + infinitivo», a par de «estar para + infinitivo», aparece por aí aos trambolhões. No segundo caso, compreende-se, pois «ninguém está para aturar ninguém», quando muito tolera-se. No primeiro, a construção atrapalha, aflige, pois nunca sabemos verdadeiramente o que estamos a dizer ou o que foi dito. Por um lado, vislumbra-se a intenção pessoal não concretizada, por outro a intenção geral, também não concluída. Se «era para ir», falta saber porque não foi. Geralmente, pomos sempre um «mas» à seguir à coisa. «Ah, e tal, era para ir, mas não pude, apareceu um imprevisto». Este «mas» é conjunção gigante, resolve uma miríade de problemas. Mais difícil é a explicação no plural, do tipo «éramos para ir, mas não fomos», frase explicativa canónica nos momentos de maior aperto.
De qualquer forma, releva-se a importância do «era» dito, deglutido ou ruminado, por ingleses, chineses ou portugueses, capaz de nos pôr a pensar nas tais modalidades gramaticais. Que a modalidade, categoria gramatical bem relevante, também merece que pensemos nela. Se a oportunidade nos aparece, porque não?

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