Correio do Minho

Braga, sábado

Modelo alternativo: a economia ecológica ou verde

Menina

Ideias

2018-06-23 às 06h00

António Ferraz

Todos temos mais ou menos a consciência de que hoje a luta pela Ecologia é lutar pela vida. De formas diversas, todas as pessoas sentem que estão mais doentes a nível físico, a nível psicológico, a nível dos valores e que passamos com celeridade da recessão económica à depressão emocional. Para o teólogo, escritor e professor universitário brasileiro Leonardo Boff (n. 1938) a razão maior para que isso aconteça resulta da existência de uma estreita relação entre o ser humano e o nosso planeta vivo, a Terra. Entre ambos existe uma forte relação mútua. Ora, o que se verifica é que cada vez mais a presença humana na Terra é agressiva, tornando-a doente com o aquecimento global e a sua incapacidade de manter os padrões de oferta de bens naturais de que necessitamos à escala global. Refere também o autor que entramos no vermelho na medida em que para possuirmos o necessário e, pior, para continuarmos com o consumo excessivo e o desperdício dos países ricos tem-se registado uma exploração desenfreada dos bens naturais para satisfazer a procura. Mas até quando isso será possível? Os efeitos de tal facto sobre o nosso planeta são claros: dispomos cada vez de menos água, de menos nutrientes, de menos colheitas, etc.
Esta perspectiva ecológica é interessante ao repassar as ideias mestras desenvolvidas pelos cientistas, Ilya Prigogine (Order out of Chaos, 1984), russa-belga e prémio Nobel em química (1977) e Paul Ehrlich (O Mecanismo da Natureza, 1993), autor norte-americano e professor universitário em biologia. Assim temos:
(a) o nosso planeta Terra, elemento vivo, tem desenvolvido estruturas de dissipação, isto é, eliminadoras da perda de energia (entropia). Essas estruturas metabolizam a desordem e o caos (dejectos) do meio ambiente permitindo surgir novas ordens e estruturas complexas que se auto-organizam, afastando-se da entropia e, assim, produzindo acumulação de energia (sintropia);
(b) o que é desordem para alguns torna-se ordem para outros e será através de um equilíbrio precário entre ordem e desordem que a vida se reproduz. A desordem implica a criação de novas formas de ordem, mais elevadas e complexas e com menos efeito de dissipação de energia, permitindo assim, que o universo se desenvolva para formas cada vez mais complexas de vida e, como tal, redutoras da entropia (desgaste de energia);
(c) sendo assim, quanto mais as relações dos seres humanos com o meio ambiente forem amigáveis e houver maior solidariedade e cooperação entre os humanos, mais a Terra se vivifica e uma Terra saudável é condição indispensável para que também nós sejamos mais saudáveis e felizes.
Feitas estas considerações iniciais podemos dizer que no final da década de 1960 e nos anos 1970, o surgimento do movimento ambientalista e o choque petrolífero tornaram os recursos naturais, da energia e do ambiente em geral um assunto de relevo aos níveis económico, social e político. Em consequência, desenvolveu-se a crítica ao modelo económico dominante, ou seja, ao modelo de capitalismo neoliberal global, apontando para um atrito ou mesmo uma certa incompatibilidade entre desenvolvimento económico e conservação dos recursos ambientais e, mais, que tal atrito em último caso implicaria limites à prossecução do próprio desenvolvimento económico e social sustentado. É em tal contexto que a publicação da obra “The Limits to Growth”, do Clube de Roma (1972) assumiu muita importância colocando como uma das prioridades a ter em conta à escala mundial, a Questão Ambiental e do Desenvolvimento Sustentável. Esta é aliás a raiz do avanço posterior da chamada Economia Ecológica (ou Verde).
Mas, quais são resumidamente os pontos principais objecto de preocupação e estudo pela Economia Ecológica?
(1) a economia é um subsistema da natureza e não o contrário;
(2) assim como a natureza, o crescimento económico (do seu produto interno bruto “PIB”) também apresenta limites biofísicos e não pode aumentar infinitamente;
(3) tendo em atenção os limites biofísicos, a humanidade deve evoluir no quadro de uma escala óptima e sustentável;
(4) para ir de encontro as necessidades das gerações presentes e futuras, é indispensável uma distribuição de recursos mais justa e equitativa dado que a economia e o produto “PIB” não podem aumentar indefinidamente;
(5) os bens e serviços ecológicos que produzem fortes efeitos sistémicos muitas vezes são do domínio público, não-rivais e não-exclusivos e mecanismos de mercado livre (capitalista) não são suficientes para administrá-los de forma adequada (não sujeita a lógica do máximo lucro).
Concluindo, a Economia Ecológica ou Verde é uma área disciplinar ainda jovem mas que tem revelado um desenvolvimento rápido e sólido, alargando fronteiras de investigação e tentando amadurecer e consolidar a sua estrutura teórica e analítica e os seus instrumentos e meios. Porém, tudo isso implica a necessidade de ainda muito trabalho, empenho e cooperação de todas as pessoas interessadas e de todos os organismos académicos ou não, públicos e privados e realizada ao nível local, regional, nacional e mundial de forma a se achar uma fórmula de sustentabilidade no desenvolvimento económico com o meio-ambiente.

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