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Morder de frio

As Bibliotecas e o Plano Nacional de Leitura (II)

Morder de frio

Escreve quem sabe

2021-01-15 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Opaís tem batido o dente mais do que o normal. O frio encolhe o corpo e mirra o olhar. A imprensa coloca holofote e descreve um tempo que tem espantado Portugal. Dá vertigem a quem está acostumado a dançar por entre as folhas. Tudo é motivo para fazer contraditório à madrasta pandemia que nos suga por dentro.
Porém, quem vive em terra de montanha – longe do areal e das casas em lego – não fica espantado com o relato. Na urbe, é notícia o termómetro chegar ao negativo. Lá em cima, no Barroso, trocam-se palavras quando os dois dígitos negativos iniciam. Um regalo, por exemplo, para o fumeiro que, por esta altura do ano, é todo ele atração. Há muitos que deixam o fumo da lareira invadir a camisa engomada, o fato de marca, o sobretudo coberto a notas. Sacodem o odor do perfume e deixam a lama e a bosta da vaca salpicar o carro. O sapato chique pisa o que nunca viu. Riem não sem antes puxarem pelo último modelo de telemóvel para registar a inócua selfie.
A verdade é que longe vai o tempo do frio que morde. O bafo saído das bocas desenhava chaminés. Quando a rapaziada se juntava, construía um comboio a vapor. Um cenário que marchava por entre temperaturas ímpias. O chão estalava. Uma tela de vidro que oferecia momentos de sorriso, irresistíveis para o bando de crianças que povoavam as aldeias. Tudo era motivo para provocar e enfrentar uma natureza que tinha o tempo certo.
Por esta altura, já em segunda vaga, ainda se ouvia o último tombo do porco. A musicalidade do ato era sinal de abundância. O pote tinha outro encanto. A água de unto ganhava paladar particular. As batatas e os grelos passavam a ter a companhia da carne. Não dava para todos os dias, nem para todos. Os de festa eram um regalo. Uma formusura que acariciava as caras rosadas. Dias e dias onde a vezeira ficava na corte. O burro e as vacas saíam, uma vez por dia, para beberem no poço comunitário. Valia o palheiro com feno. A este, abrigados numa divisória anexa, juntavam-se nabos, batatas, couves, milho, beterrabas, farelo e grão. Era o período de ouro da Formiga saída da fábula de Esopo, em contraste com a leviana Cigarra.
Há mais de 30 anos, o Barroso era o Planalto de Gostofrio perfeito de Bento da Cruz, o mais notável prosador barrosão. Um mosaico ajardinado onde fervilhava identidade. Diferente pela voz e onde a palavra era lei. Dava-se a camisa. Entrávamos em casa sem bater à porta. Falava-se pouco em dinheiro. A troca direta chegava ao rico e ao pobre. Nem todos tinham luz e água. Sobrava a partilha. Ninguém ficava para trás. O rebusco era aceite. O forno do povo era a biblioteca aquecida onde germinavam memórias. As mesmas que agora resgato no meu postigo de infância. Algumas lembram as nevadas que pintavam de branco o país barrosão. O calor da lareira fazia nascer o pão centeio. Cozia-se para um mês. O pão durava. Não abatia. Era gerido com respeito. Até na forma como era colocado à mesa, junto ao jarro do vinho. Lá fora, candeeiros de gelo suspensos mostravam o frio no seu fulgor.
Era por aqui que mordia. Não havia luvas nem gorros. Viam-se samarras. Capas de burel. Aqui e acolá, croça de junco, agora só observadas em ranchos folclóricos ou na decoração de restaurantes típicos. O barrosão usava socos e galochas para confortar os pés que pisavam o chão da terra fria transmontana. Domingo era da “ida à missa”. Pela tarde, os homens iam ver os lameiros. As mulheres crameavam a lã. Pelo meio deste viver, a escola. Todos iam, mesmo que repetissem. Havia muitos. Na primária, poucos falhavam. Quem atingia o primeiro ano (hoje 5.o ano), vestia a melhor fatiota. Ir de camioneta para a vila era uma aventura. A minha aldeia enchia praticamente a carreira. Éramos tantos. Os últimos que entrassem já sabiam que tinham o cachaço à espera. Era uma fárria. Uma liberdade à vara larga.
O Inverno abraçava tudo isto e outro tanto que irei acrescentar no correr dos dias. Perdeu-se o tempo onde o tempo tinha o seu tempo. A natureza revoltou-se por culpa do homem. Deixou de morder. Passou a matar. Este ano voltou a morder um pouco. Talvez à custa deste vírus que obrigou o Mundo a embargar, embora de forma intermitente, a loucura deste sobreviver sem rede. Os entendidos garantem que ainda este ano iremos voltar ao normal. Que bom seria se o normal que apregoam voltasse a ter, mesmo em limbo, a saudade deste Mundo que tende a sumir.

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