Correio do Minho

Braga,

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Morreu Saramago, Viva Saramago

Muita desconfiança é patológica

Ideias

2010-09-17 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Muito se tem escrito sobre Saramago. Mas uma coisa me chocou profundamente: a ausência, no funeral, do Presidente da República, para não falar em figuras menores. É Portugal no seu melhor: Portugal conservador, invejoso, provinciano e mentecapto. O tempo vai passar e estes actores de opereta hão-de ser esquecidos. Quem se lembrará do Sousa Lara, daqui por cinquenta anos, a não ser quando se falar de Saramago?

Saramago é tão só o único prémio Nobel da língua portuguesa, escritor reconhecido em especial no mundo Ibero-americano. E que contraste entre o tacanhez de muitos políticos nacionais e as declarações de políticos espanhóis!...

Habituei-me em ver em José Saramago, a descrição de Sá de Miranda:
“Homem dum só parecer, dum só rosto e duma fé, d`antes quebrar que volver outra coisa pode ser, mas da corte homem não é.”

Saramago foi isso mesmo, um homem de antes quebrar que torcer, que esculpiu a sua vida sem cedências e com respeito pelas raízes. Mesmo quando as suas opiniões eram controversas, incutia respeito. Tal como outros na nossa história. Tal como Afonso de Albuquerque que estruturou o império português do Oriente e acabou demitido devido à intriga na Corte de Lisboa, vindo a morrer ao largo de Goa.

Tal como o Padre António Vieira que passou a vida a tentar dar um rumo ao país saído da Restauração, mas que passou três anos nos calabouços de Inquisição e morreu esquecido no sertão brasileiro. Tal como Herculano que se retirou para vale de Lobos. E outros, não muitos. Mas são estes e só estes que explicam e justificam a continuação deste país. Quem se irá lembrar do Gama (Jaime) ou do Cavaco (Aníbal) daqui por alguns anos. São epifenómenos que apenas se preocupam em gerir os seus interesses e a sua carreira.

Quem se lembra hoje dos presidentes do Parlamento do século XIX e dos presidentes do Conselho de Ministros? E se alguns ficaram na memória foi pelos maus motivos: ou porque proibiram as conferências do casino ou porque foram objectos de chacota ou sarcasmo por parte de escritores como Eça de Queiroz ou Oliveira Martins. A história tem esta característica: decanta o acessório e memoriza o essencial e é este essencial que constitui a cultura dos povos. E concerteza decantará estas figuras medíocres que colocaram acima da dignidade nacional as férias com a família, as questiúnculas pessoais e os calculismos eleitorais.

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