Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Mudar o Mundo

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2014-02-25 às 06h00

Jorge Cruz

Num livro agora editado em Portugal pela Bertrand, e ao qual fui buscar o título para esta crónica, o prestigiado intelectual Noam Chomsky analisa as grandes questões do século em que vivemos e, nem de propósito, debruça-se com extraordinária oportunidade sobre a onda de austeridade que está a varrer uma parte da Europa.

A obra, “Mudar o Mundo - Noam Chomsky e David Barsamian analisam as grandes questões do século XXI”, compila entrevistas do linguista, filósofo e pensador norte-americano de 86 anos que espelham a sua visão do mundo e, nessa medida, o livro constitui um importante documento de reflexão que nos ajuda a perceber o que está a acontecer.
Chomsky considera, por exemplo, que as impiedosas medidas de austeridade impostas a alguns países da Europa estão a “funcionar muito bem para os bancos” embora tenham o efeito de “esmagar” os cidadãos dos países mais frágeis.

“É difícil pensar numa razão para isto, para além de uma guerra de classes”, afirma o intelectual norte-americano explicando que “o efeito das políticas é enfraquecer medidas de previdência social e reduzir o poder dos trabalhadores”. É esta guerra de classes que Chomsky considera que “funciona muito bem para os bancos, para as instituições financeiras mas, para a população, é terrível”.

Os portugueses conhecem demasiado bem todos os significados, todas as variantes do vocábulo terrível. Sofrem quotidianamente os horrores de séries consecutivas de políticas cegas que os penalizam mas não deixam antever um futuro mais risonho. Assistem horrorizados e impotentes à fuga dos seus familiares mais próximos, que emigram em busca de uma vida melhor. E ouvem com perplexidade alguns responsáveis políticos dizerem, sem qualquer pingo de vergonha, que o país está melhor! Ou seja, a dívida pública atingiu um recorde histórico, ao registar 129 por cento do PIB, segundo os números oficiais relativos ao final de 2013 e, mesmo assim, há quem considere que o país está melhor. Impõe-se um pouco de decoro e mais honestidade intelectual.

E é precisamente numa altura destas, quando nos debatemos com uma das piores crises, com um empobrecimento assustador e um aumento exponencial da dívida pública, que se torna ainda mais difícil entender as novas exigências de austeridade quer da Comissão Europeia quer do FMI.
De facto, em resposta a um certo clima de euforia que perpassa pelo governo de Passos Coelho, a Comissão Europeia saiu a terreiro para tentar impôr novo castigo: segundo Bruxelas, Portugal terá que aplicar uma redução salarial adicional de 5 por cento. Na mesma linha, o FMI persiste numa ainda maior flexibilização do mercado de trabalho e em mais cortes na despesa do Estado. Ou seja, as duas instituições sustentam o aumento da austeridade.

Para Chomsky, como para tantos outros, torna-se “bastante difícil” de explicar a posição quer do Banco Central Europeu quer das restantes instituições com ele alinhadas tanto mais que durante uma recessão a austeridade é a “pior política possível”.

“O efeito é que, sob estas políticas, os países mais fracos da União Europeia nunca conseguirão saldar a dívida”, como facilmente se conclui por um facto muito simples: “os níveis de dívida estão a piorar”. Chomsky chama, por isso, a atenção para uma realidade indesmentível que já acontece nos países do sul da Europa: “à medida que se reduz o crescimento, reduzem-se as possibilidades de pagamento da dívida” e, em consequência, “essas nações afundam-se cada vez mais na miséria”.

No livro lançado há dias o académico norte-americano manifesta também grande preocupação com o poder dos grupos financeiros e do pensamento liberal. Aliás, em relação ao seu próprio país critica, por exemplo, o aumento das propinas, que faz crescer a dívida estudantil para números impressionantes e, frequentemente, incomportáveis. “Fica-se preso para o resto da vida”, afirma antes de sublinhar que essa “é uma técnica impressionante de dominação e controlo”, aliás em tudo semelhante à que, em sua opinião, está a ser aplicada em relação à Segurança Social.

Porventura em função do avanço das ideias neoliberais, o também professor no Massachusetts Institute of Technology (MIT), releva a importância do associativismo e valoriza especialmente o sindicalismo nas sociedades dominadas pela propaganda. Segundo Chomsky, estaremos perante sociedades “geridas” por empresas que controlam as populações através de bens de consumo e que “prendem” os consumidores através de “técnicas antigas” como as dívidas e os pagamentos a crédito.

“Os sistemas de propaganda mais relevantes que enfrentamos hoje em dia, na maioria provenientes da indústria gigantesca de relações públicas, foram desenvolvidos, de forma bastante propositada, há cerca de um século, nos países mais livres do mundo, devido a um reconhecimento muito claro e articulado de que as pessoas haviam ganhado tantos direitos que seria difícil suprimi-los pela força”, conclui Chomsky.

Uma teoria que, como se constata diariamente, tem vindo a ser amplamente desenvolvida, em especial com o advento das novas tecnologias de informação, e a conquistar adeptos em todos os sectores de actividade e nos diferentes planos. Obviamente, Portugal e a sua classe política não fogem à regra, bem pelo contrário.

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