Correio do Minho

Braga, terça-feira

Mulher do diabo

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Conta o Leitor

2013-08-23 às 06h00

Escritor

MÁRIO CAMPOS

Desse no que desse e por mais ou menos voltas, ela acabava sempre por se pronunciar sobre as energias. As energias! O raio das energias... Assumia-se como uma mulher especial, dotada de um qualquer dom (para o qual eu e a maior parte do comum dos mortais não tinha a mínima sensibilidade), dizia-se ainda carregada de energia, mas que apenas a usava para o bem de toda a humanidade. Nunca percebi que raio de treta era essa da energia, e francamente mais me parecia uma daquelas parvoíces que às vezes aparecem naqueles programas da tarde na televisão…

Um dia disse-me em tom intimidador: “… a tua sorte ainda é o respeito que tenho por ti e por tudo o que fizeste por mim... Senão aplicar-te-ia um golpe fatal!” A forma como falou fez-me tremer, o raio da mulher ou estava completamente louca, ou estava endiabrada. Eu apenas tinha colocado em questão aquela coisa das energias de que ela tanto apregoava. E sinceramente, já estava mais que farto daquela conversa. Mas a verdadeira gota de água, creio que foi o meu aconselhamento enquanto amigo de procurar a ajuda de um psicólogo e até me disponibilizei para a acompanhar. Confesso que até fui brando, tudo aquilo já estava a dar comigo em louco, a minha ideia inicial até era falar-lhe de um psiquiatra. E em bom tempo que não falei, talvez por comiseração mudei de especialista. A sua reação teria sido de certeza pior…

Desde algum tempo que noto nela algo de errado, mas há cerca de um mês a coisa piorou bastante. Tornou-se violenta, desde então só fala de sangue, golpes e chagas. Afirma que de noite os objetos em sua casa flutuam indiscriminadamente em torno de si mesma e culpa perentoriamente o bode… Descreve tal criatura como um misto de homem e de bode, corpo de homem musculado e cabeça de um bode. Queixa-se do seu intenso fedor e da sua disseminação por todo o lado. Efetivamente, não creio que exista tal criatura, mas certo é que por inúmeras vezes as suas roupas apresentam um odor pestilento e fétido, algo parecido com o odor do enxofre, mas de tal forma estranho e impossível de uma descrição mais minuciosa. Do pouco que me contou, o bode obrigava-a a ter relações de índole sexual. Verdade ou não, o certo é que ela andava sempre com o corpo marcado, nódoas negras e golpes profundos espalhados por todo o corpo.

Diz ainda que fala com uma pessoa e que só ela a consegue ver. Afirma entusiasticamente que essa pessoa é de boas energias, ao contrário do maldito bode. Mas o nome dessa pessoa nunca o mencionou, diz que não pode profanar as leis gerais, a punição para tal crime é demasiado severa. Declara que a tal pessoa já morreu há 34 anos atrás e que a sua missão neste mundo é ajudá-la contra o bode.

Há umas semanas atrás, o nosso patrão, o sr. Leoterio andava completamente desesperado com ela, nada do que lhe ordenava era cumprido. Num desses dias, o sr. Leoterio já mais que farto ameaçou-a de despedimento. O seu comportamento face a tal ameaça foi bastante violento e intempestivo, e enquanto não surgiu um pedido de desculpas, a vida do sr. Leoterio correu do pior possível. Discussões conjugais passaram a fazer parte da sua agenda diária, problemas de saúde na família, infiltrações nas instalações da empresa, assalto, incêndio e fuga de clientes sem qualquer razão aparente. Tudo isto numa semana, até que o sr. Leotério se aperceber da verdadeira causa de tal tempestade horrenda, tudo apontava para as energias dela, que geravam todo aquele tormento, todo aquele mau estar. Pediu-lhe cordialmente as suas desculpas, assumindo injustamente que tinha tomado uma atitude insensata e precipitada, e que não tivera refletido corretamente na sua ação. E Como bonificação deu-lhe ainda um aumento. Foi esse o custo do regresso à normalidade na vida do Leoterio.

Aquando o seu divórcio ajudei-a bastante. Coisas entre amigos… Mas, o certo é, fisicamente nada se passou... O que para mim como homem sempre me deixou alguma frustração. Embora agora, mais que nunca, sinta algum alívio por nada se ter passado…

Recordo-me que ela tinha uns livros muito antigos. Velhos pertences da sua falecida bisavó ou avó. Conservava-os religiosamente num velho baú de cânfora. Pedira-me para o guardar em minha casa, mas com uma condição assente, a de que nunca, mas mesmo nunca, o abrisse. Certo dia cheguei a casa e a curiosidade revelou-se maior que o devido e lá acabei por abrir o baú. Estava repleto de livros com bruxarias. Folheei um, continha receitas e fórmulas e das poucas imagens existentes naquele livro, essas eram no mínimo perturbadoras, para não dizer aterradoras. Fiquei regelado só de o folhear e acabei por não ter coragem para pegar noutro.
Creio que ela tenha lido algum deles. Tal comportamento só pode ter origem naqueles livros macabros!

Quem sabe se o marido não a teria deixado por causa daquele maldito baú, ela dissera-me que o marido a deixara por uma mulher uns bons pares de anos mais nova e de longos cabelos loiros. Satirizava dizendo que agora trata-a por “amorzinho”, lamentando-se logo de seguida “…e a mim nunca me tratou assim, nem sequer no princípio do nosso namoro...”, e acrescentava ainda, “ele agora só usa calças de ganga e anda com o cabelo puxado para trás com gel!”, “Está um homem moderno!” , arrematou ela, satirizando.

Numa daquelas coincidências encontrei-o outro dia, andava às compras com um amigo. Do “amorzinho” não havia sinais, ou haveria? Perguntei-lhe como corria a vida, não é que tivesse muita confiança com ele, apenas o via duas ou três vezes por ano. No jantar da empresa, nos anos dela, e numa ou outra ocasião esporádica. Aparentavam dar-se relativamente bem. Ele parecia-me um tipo porreiro, pacífico e sempre bem-disposto. Ao que sei tinha uma pequena loja de venda de animais de estimação num pequeno centro comercial: cães, gatos, peixes, pássaros, coelhos e ratinhos domésticos; este era o seu negócio. No que toca à fauna e do pouco que falámos nas igualmente poucas ocasiões, era um indivíduo de uma cultura acima da média e de certa forma até excêntrico, sabia de tudo e mostrava-se sempre interessado em aprender mais, qualquer que fosse o assunto. Afirmava que o seu animal preferido era o dragão de Komodo e que o seu sonho seria ir à Indonésia conhecer o seu animal predileto.

O Pinto tinha sido meu colega de escola, um grande amigo, daqueles que acabaram por ficar para a vida, mas que por forças das circunstâncias seguem caminhos distantes dos nossos. O Pinto trabalha numa multinacional em Espanha e de vez em quando telefona-me. O Pinto ainda era primo afastado do ex-marido dela e certo dia veio à baila o divórcio deles e a sua nova namorada. O estranho é que o Pinto me desmentiu categoricamente o que ela me tinha confessado. Começou por dizer que seria impossível ele ter uma namorada, que só poderia ser mentira. Fiquei ainda mais confuso, tudo fazia cada vez menos sentido…
Terá sido o amigo das compras o motivo do divórcio, ou foi o raio dos malditos livros?

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