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Ideias

2020-09-05 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Uma surpreendente leitura que fiz nestas férias de verão foi a do ensaio de Ulrich Beck A metamorfose do mundo. Como as alterações climáticas estão a transformar a sociedade (Lisboa: Edições 70. 2017). A originalidade e a profundidade do seu conteúdo fizeram-me relê-lo já duas vezes. Como Elisabeth Gernsheim-Beck, sua mulher, relata na introdução, o conhecido sociólogo alemão encontrava-se a alinhavar as ideias nele exploradas quando foi fulminado por um ataque cardíaco no primeiro dia de 2015 no decurso de um passeio que faziam pelo Englischer Garten de Munique. Trata-se, portanto, de uma obra inacabada e de publicação póstuma.
Na sua génese está a perplexidade sentida por Beck perante a inexistência de esquemas teóricos que ajudem na explicação e compreensão do fenómeno das grandes alterações planetárias que não cessa de se agigantar no último quarto de século. Essas alterações, apressa-se a fazer notar, não devem ser confundidas com as recorrentes mudanças sociais. Elas revelam algo mais fundamental e inédito: o fim de uma ordem institucional que tem funcionado como referencial inalterado, suporte estável e duradouro das próprias mudanças sociais, sem que uma nova ordem institucional alternativa se vislumbre. Mais especificamente, elas tornam manifesto que a dimensão global dos problemas que são hoje mais prementes, como os climáticos, impede que possam ter resolução nos termos de uma estafada e obsoleta mundivisão nacional-internacional, reclamando com urgência uma cosmopolítica.

Esse “processo em processo”, como Beck no final do livro o descreve, foi impulsionado pelo projeto Europeu-Ocidental da Modernidade – inicialmente ingénuo, mais tarde reflexivo – de construção da esfera da liberdade humana a expensas da depleção sistemática (ou tecnocientificamente organizada) de sempre mais e mais recursos naturais – uma Modernidade movida a combustíveis fósseis, como assinalou Dipesh Chakrabarty –, cujo enorme sucesso provocou o efeito indesejado de instabilização do Sistema Terra, evidente no incessante aumento de acontecimentos climáticos extremos (cheias, secas, incêndios selvagens, terramotos, erupções vulcânicas, furacões, tsunamis, etc.), que, por seu turno, paradoxalmente ameaçam colapsar o projeto da Modernidade. Beck designou-o, com relutância, por falta de melhor expressão, “metamorfose do mundo”, atribuindo-lhe um significado que, mais do que fenomenológico, ou seja, relativo a uma transfiguração radical na experiência que temos do mundo, é ontológico, pois corresponde a uma alteração do próprio mundo.

Talvez se possa, então, usar o neologismo em título, uma palavra do género híbrido, para referir mais economicamente esse tremendo e, por enquanto, não entendido, fenómeno metamorfósico. O mundo (do latim “mundus”, lugar habitável), por assim dizer, está em ecdise (do grego “ekdysis”, despir), isto é, metaforicamente falando, a libertar-se da sua velha e gasta pele civilizacional moderna, como um cão ou um gato a perderem o seu pelo.
Esta metamorfose do mundo, como Beck enfatiza, é “a principal característica da época atual”. Trata-se, segundo ele, de um Acontecimento geoistórico de desfecho imprevisível, pois não se pode antecipar se haverá uma “mundendise” (“éndysis”, em grego, é vestir) ou seja, se o mundo adquirirá nova derme civilizatória. Poderá, porém, constituir uma oportunidade para mudar a “natureza da existência humana”, a condição humana. Esse é e continuará a ser o grande desafio do Antropoceno, que, no fundo, significa o mesmo que “metamorfose do mundo”.

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