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Mundo imaginário

A recuperação das aprendizagens

Conta o Leitor

2021-07-29 às 06h00

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Texto Carlos Azevedo

Numa quinta-feira de novembro no início dos anos sessenta, uma mãe estava prestes a dar à luz numa das maternidades do Porto. Lá fora chovia copiosamente, Paulo, assim se chamaria a criança prestes a nascer, foi o primeiro filho de quatro, nasceu como qualquer criança, saudável e surpreso com o mundo que o recebia, com os seus quatro kilos e trezentas gramas, criou alguma dificuldade à parteira da maternidade para o segurar, já que irrequieto não parava de se mexer, só o fazendo quando duas palmadas no “rabiote” lhe lembraram que ele ali não era senhor de si, e assim começou o seu percurso de vida.

Nos primeiros meses, a curiosidade que o seu olhar transmitia, era notória para a mãe. Olhava para ela com uns olhos cintilantes e inteligentes, tudo era novidade para ele, alguns meses depois já gatinhava por todo o lado, a sua curiosidade era aguçada pelo que via e ouvia, por vezes arriscava o seu pequeno corpo em acrobacias e carambolas, mas tudo corria bem, exceto o susto que pregava aos pais. Por volta do oitavo mês os pais começaram a notar um comportamento estranho no filho, o Paulo ficava sentado no chão, virado para uma das paredes da casa, ali permanecia quieto a olhar para a frente com os olhos arregalados, como se estivesse em transe, aquilo durava alguns minutos, mas o mais estranho nas feições do filho era o sorriso naquele rosto, como, o que quer que ele estivesse a “ver” lhe agradasse. Depois saía daquele transe, irrequieto a chorar como se lhe tivessem tirado uma qualquer guloseima da qual ele estivesse a saborear. Aquela cena repetia-se com alguma frequência.

Quando começou a dar os primeiros passos e a descobrir outras possibilidades de brincadeira, algo inesperado aconteceu, Paulo, sem que ninguém o previsse, teve um problema de saúde que iria mudar a sua vida para sempre. Nos meses seguintes, esteve hospitalizado, sendo submetido a tratamentos intensivos. Os médicos já tinham desenganado os pais para que estes esperassem o pior, e caso isso não acontecesse (o pior), o filho nunca mais andaria pelos seus próprios meios. Os pais de Paulo ficaram de coração apertado, apesar de serem pessoas simples, amavam o seu primeiro filho e saberem que este poderia nunca mais andar ou até sucumbir à doença, era para eles inconcebível. Longos meses passaram, a esperança ia renascendo para aqueles pais que todos os dias estavam presentes para junto com os médicos que cuidavam do Paulo, dar forças ao seu filho, este começava a dizer as suas primeiras palavras, e sempre que os pais o visitava eram recebidos com um largo sorriso e um “papá e mamã” cheios de energia, pois Paulo, reagia bem e com determi- nação aos tratamentos a que era submetido.
Ao fim de quase dois anos, Paulo finalmente saiu do hospital, os pais estavam felizes por puderem levá-lo para casa, os médicos céticos por ele ter recuperado bem, mas, infelizmente, Paulo nunca mais poderia correr, saltar, fazer qualquer brincadeira mais física, que todas as crianças fazem, mas isso não o impediu de crescer e ser uma criança divertida e acarinhada pelos pais. Os pais notaram com o passar dos anos, que o filho nunca mais teve aqueles momentos de transe e esqueceram completamente o assunto.

Chegou a idade de Paulo ir para a escola, conhecer novos amigos e foram muitos, nunca se sentiu descriminado sobre qualquer aspeto, apesar das suas limitações físicas integrava-se bem com as demais crianças da sua idade e era aceite por estas, pois era ele que os desafiava para aventuras que ele próprio criava, cativando assim os amigos a acompanhá-lo.

Certo dia numa ação criativa na aula de desenho, a professora (que era uma pintora notória da freguesia), notou que Paulo tinha um certo à vontade nesta área, não descorando os outros alunos dedicou mais atenção ao Paulo, reparou que este apesar de estar atento às restantes matérias escolares, sendo um aluno acima da média, dedicava especial atenção ao momento criativo do desenho, ficava quase em transe sem se distrair com nada, criando mundos imaginários. O mais curioso é que a maior parte dos desenhos tinha o mesmo cenário, mas de ângulos diferentes, ou até pormenores dos edifícios, veículos, quase como se estivesse presente ou estado. Um dia a professora questionou Paulo sobre o que ele tinha desenhado, ele simplesmente respondeu:
- Será a cidade que idealizarei no futuro.
A professora ficou de boca aberta e tornou a perguntar:
- Como sabes que vais idealizar essa cidade?
Paulo respondeu:
- Porque já lá estive. Respondeu Paulo com um sorriso nos lábios.
A professora nunca mais questionou o aluno que tinha uma imaginação fértil.

No dia seguinte a esta conversa com Paulo, a professora foi falar com os pais deste. Contou o que se tinha passado na aula, os pais sorriram olhando um para o outro com aquele olhar de receio. A professora notou e perguntou o que se passava. Os pais contaram então o que se tinha acontecido quando o Paulo tinha poucos meses e ficava alguns minutos a olhar uma parede lá de casa como se estivesse em transe, e que há uns meses para cá começou a fazer o mesmo.
Certo dia, Paulo acordou com fortes dores de costas e cabeça, disse à mãe que não conseguia mexer-se, a mãe preocupada correu à vizinha para chamar a ambulância para o filho e este foi levado para o hospital. Os pais ansiosos aguardavam com o coração nas mãos, recordando o que o médico tinha dito uns anos antes quando Paulo tinha saído daquele mesmo hospital.
- O seu filho pode sobreviver muitos anos, mas esperem o pior a qualquer momento.
E assim ao fim de treze anos o momento que eles esperavam que nunca acontecesse estava ali, a acontecer, o seu filho estava nos cuidados intensivos, entre a vida e a morte.

A porta abriu-se, o médico de cabeça baixa dirigiu-se aos pais angustiados.
- Lamento, mas o momento que mais temíamos está para acontecer, não é possível salvar o vosso filho, fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, ele está lá dentro no quarto e quer falar convosco.
A mãe desfaleceu em lágrimas nos braços fortes do marido, este com andar pesaroso levando a mulher encostada a si, entraram no quarto onde o filho com os olhos cintilantes olhava para eles com um sorriso no rosto.
- Pai, mãe sentem-se aqui ao meu lado, quero falar convosco.
A mãe tentando ser forte, aproximou-se do filho e deu-lhe um beijo no rosto, acariciando-o meigamente, o pai estava de pé ali a olhar para ele sem saber o que dizer ou fazer, era uma tortura o que se estava a passar, as emoções iam da raiva à tristeza, por saber que não podia fazer nada para salvar o seu filho.
- Pai não te preocupes, eu estou bem, eu vou ficar bem, sabem, vou regressar à minha cidade, vou rever os meus amigos, estarei sempre convosco. Adeus mãe, adeus pai.
E com estas palavras, sorriu, fechou os olhos e “partiu”!
No seu rosto permaneceu aquele sorriso, que ficaria para sempre gravado no coração daqueles pais devastados, pela perda do seu filho sonhador.

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