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“Nada será como dantes”…

Abril é mais Futuro

“Nada será como dantes”…

Ideias

2023-09-18 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

“Nada será como dantes” é expressão recorrente quando assistimos a processos de mudança e ruptura, quando ousamos introduzir novidade suficientemente forte para se sobrepôr ao quotidiano instalado, quando somos grandemente surpreendidos por factos, actos e omissões de previsão inalcançável e consequências diversificadas na substância e na forma.
“Nada será como dantes” afigura-se profecia fatalista da pitonisa que, do alto da sua capacidade antecipatória, consegue transformar o futuro em certeza.
Ao longo do tempo, esta foi e é uma expressão que nos acompanhou e acompanha, descansando as mentes mais arriscadas, atemorizando aquelas mais conservadoras.
No campo da habitação – sempre este tema, incontornável para todos nós e que, hoje, ganha um protagonismo exacerbado pela sua falta e omissão e não pela sua necessária e inevitável qualidade e função, ou seja, conforto e estética, abrigo e segurança – não há muito tempo atrás, foi corrente a aquisição de habitação “ainda em papel”, isto é, sem o edifício habitacional concluído, ainda o mesmo por iniciar, tantas vezes, ainda sem o crivo de aprovação das devidas entidades e instituições, já essas mesmas habitações estavam apalavradas, negociadas, comprometidas, outras tantas vezes, sinalizadas e adquiridas. Dir-se-á mesmo que correspondem a um período temporal em que a construção (esse acto fundador da construção que origina oferta e possibilidade de aquisição, se adiava, ora propositadamente, ora sem capacidade antecipatória ao interesse da população). Se efectivava a reboque e se alimentava de receitas e recursos financeiros que resultavam dessas aquisições, facilitando o investimento e libertando verbas e compromissos financeiros para aqueles que promoviam o investimento. Foi tempo bom em que, julgava-se então, todos ganhavam.
Com o período crítico da “troika”, verificou-se fenómeno previsível e generalizado, alvo de reflexão: com as dificuldades financ- eiras exponenciais, com a incapacidade em superar a falta de recursos – mesmo com as receitas antecipadas conseguidas – tantos e tantos investimentos “não sairam do papel” e outros ficaram “a meio caminho”, originando desistências, falências e , sobretudo, para aqueles que tinham adquirido antecipadamente o fogo e a habitação “que viriam a ser construídos”, a triste constatação e verificação de que, no final, “sem dinheiro e sem habitação” ficaram.
Foi um tempo difícil, duro e grave ao ponto de se generalizar a já citada frase “nada será como dantes”, julgando-se que todos, sem excepção, tinham aprendido a “lição” e jamais voltariam a repetir o erro: uns porque ficaram sem dinheiro e habitação; outros porque abandonaram investimentos e ganharam processos judiciais; a Cidade porque alvo de uma paisagem inacabada e incompleta, porque preenchida por ruas desertas e sem esperança.
Na prática, generalizou-se a crença da capacidade regulatória e de aprendizagem da sociedade. E tal comportamento renovado no seu princípio de actuação emergiu, observando-se, durante algum tempo, um controlo sobre o impulso aquisitivo e sobre a vontade de alienação que se configurou num sinal de esperança de um comportamento societal mais saudável, tão cauteloso quanto perspectivado, ousado e prudente quanto baste para equilíbrio visível e robusto.
Por tudo isto, não deixa de ser imensamente surpreendente a notícia do jornal Imobiliário, 13 setembro ’23, com o título “metade das casas novas lançadas este ano foram vendidas em planta”. Surpreende profundamente, já que questiona a racionalidade do nosso comportamento e a nossa capacidade regulatória e de controlo.
O tempo deixou de ser de tempestade e alcançou-se tempo de bonança e, novamente, propício a negócio e risco dirão uns. O tempo ajuda a esquecer e relativizar e não devemos deixar de aproveitar negócio atractivo dirão outros. É certo! Mas, como dirão os mais avisados, devemos aprender e apre- ender, retendo e valorizando as boas lições… é assim que se constrói um futuro melhor. E, acredita-se, mais fortalecido e robusto!

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