Correio do Minho

Braga,

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Não havia necessidade

Decisões que marcam

Não havia necessidade

Ideias

2020-05-05 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

Agora que terminou o terceiro período, cada um de 15 dias, de estado de emergência, e entramos na primeira quinzena de estado de calamidade, convirá relembrar que esta revisão de nomenclatura está longe de significar que o problema que nos tem afectado deixou de existir. Não, o risco de propagação da pandemia mantém-se não se podendo, consequentemente, baixar as guardas.
O Primeiro-ministro fez, aliás, questão de enfatizar a gravidade da situação. “Não renovar o estado de emergência não quer dizer que o risco esteja vencido e que possamos retomar a normalidade”, disse António Costa, antes de acentuar que “o risco mantém-se elevado, temos de continuar a prevenir e a combater a pandemia.”

Que a batalha ainda não está ganha e que, por essa razão, se impõe observar uma série de medidas cautelares, embora mais ou menos restritivas, é um facto absolutamente indesmentível e, parece-me, merecedor de amplo consenso. De resto, a forma genericamente exemplar como os portugueses lidaram com a pandemia logo no início, antes ainda das medidas governamentais, demonstra um alto espírito de responsabilidade cívica.
O “alívio” que agora é sugerido pelas autoridades, sendo embora encarado com enorme apreensão por cientistas, epidemiologistas, médicos e outros profissionais de saúde, corresponde a uma decisão corajosa mas inevitável. E afigura-se indeclinável perante a crescente pressão social resultante de factores tão diversos como o agravamento da economia ou até de questões relacionadas com a resistência humana ao isolamento prolongado.

Nessa medida, o Governo entendeu ser essencial levantar gradualmente as medidas de confinamento para permitir iniciar a recuperação e revitalização, quer da vida social quer da economia, ressalvando contudo a manutenção da avaliação permanente da evolução da pandemia.
Claro que as autoridades têm plena consciência dos riscos que todos corremos com a decisão de aligeirar as medidas, designadamente ao nível do aumento de novos casos de infeção, que será inevitável. Contudo, também esperam que os cidadãos conservem o civismo responsável de que têm dado provas até porque, como alertou o Primeiro-ministro, “se as pessoas assumirem que o fim do estado de emergência significa ‘sair de casa’, bom, está tudo estragado”.

Espera-se, pois, que a nova normalidade, que acredito pouco ou nada terá a ver com aquela a que sempre estivemos acostumados, possa ocorrer lá mais para a frente, numa data imprecisa. Todavia, para atingir tal desiderato com a brevidade que todos aspiramos é forçoso que o nosso futuro próximo não seja um regresso ao passado, isto é, que em Junho não tenhamos de dar passos atrás, e sejamos obrigados a recuar a Março.
Tudo isso está nas nossas mãos. As autoridades sanitárias estão a fazer o seu papel, assumindo a cada momento as responsabilidades que lhes cabem, mas tudo correria melhor se sentissem a compreensão dos cidadãos e a solidariedade dos agentes políticos.

Infelizmente, há gente com responsabilidades políticas que não está à altura de momentos difíceis, como aquele que estamos a atravessar. Gente sem perfil para decidir sob grande tensão. Gente que tenta obter ganhos políticos mesmo em situações dramáticas. Gente pouco escrupulosa, que tenta aproveitar todas as oportunidades para se promover. Gente, enfim, que não presta!
Reconheço que a maioria dos políticos não terá lugar no rol cujo perfil acabei de traçar, não obstante um ou outro possa ser considerado desinteressante. Mas na lista de políticos pouco recomendáveis estará com toda a certeza o deputado e líder de um pequeno partido, cujos nomes fiz por esquecer. O jovem presidente do CDS também parece ser um sério candidato a integrar esse rol, isto claro, se já não o fez.
Constata-se, por outro lado, que o líder da oposição tem-se esforçado para não desaparecer, para se manter à superfície, e, nesse sentido, Rui Rio tentou apostar numa imagem de estadista que, na realidade, não se pode dizer que corresponda à ideia que dele têm os portugueses. Em todo o caso, creio que o presidente do PSD tem conseguido passar, como é usual dizer-se, entre os pingos da chuva. Isto no país, porque no seio do seu partido a situação será bem diferente…

É que a pandemia não fez esquecer que no próximo ano haverá dois importantes actos eleitorais – as eleições presidenciais e as autárquicas – o que, naturalmente, poderá levar a um certo reposicionamento político dos diferentes actores. E como nem todos têm a mesma têmpera democrática, alguns não resistem à condenável tentação de aproveitar o período de grande fragilidade das pessoas para, de uma forma mais ou menos sub-reptícia, entrarem em campanha eleitoral.
Este é, naturalmente, um comportamento reprovável porque tenta obter ganhos políticos com a circunstância de debilidade de um povo, o mesmo que mais tarde será chamado a votar. E a verdade é que tal chico-espertice por vezes nem seria necessária, acabando mesmo por resultar contraproducente para os objectivos em vista.

Há exemplos, como em Braga, onde os autarcas nem precisavam de recorrer a comportamentos ética e politicamente condenáveis, uma vez que de um modo geral o seu trabalho no âmbito do combate à pandemia se tem pautado pela eficácia. Também por essa razão, ao optarem por caminhos sinuosos como alguns dos que têm vindo a percorrer, borraram a pintura, como se costuma dizer.
Dá para perceber que Ricardo Rio tem na sua génese uma ânsia indómita de protagonismo, uma sofreguidão por aparecer nas primeiras páginas dos jornais, traço de carácter esse que lhe alimenta o sonho de mais altos voos no plano político. Mas creio que no momento actual deve refrear as suas atitudes, priorizar a reflexão e abandonar definitivamente a postura autoritária e a canibalização das propostas dos outros, adversários políticos ou não.

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