Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Não me atirem com cravos para os olhos

Prémio Nobel da Medicina

Ideias

2012-04-29 às 06h00

Carlos Pires

1. Há 38 anos, numa madrugada sem chuva, Portugal acordava para um dia que iria mudar a sua face. Estava-se a 25 e o mês era Abril. Na rádio ouvia-se 'E Depois do Adeus', de Paulo de Carvalho. Vivia-se nas ruas a confusão própria de uma revolução em curso e a esperança no futuro. Portugal deu uma lição de civismo ao mundo, mostrando como se pode transitar pacificamente de uma ditadura para uma democracia e entregou-se à tarefa de recuperar o atraso que o caracterizava.
Hoje, volvidas quase quatro décadas, Portugal parece ter batido num fundo que já julgava ter ultrapassado - o desemprego, a pobreza e a contestação social fazem-se notar, os portugueses voltaram a emigrar em força à procura de melhores condições de vida. As coisas estão difíceis e nisso reside algum paralelismo do Portugal de 2012 com o Portugal de 1974. Ao ponto de podermos afirmar que regressámos ao ponto de partida? Hoje, a situação é igual ou pior? O simples facto de se colocar esta questão (na boca de muitos, devo dizer!), sem prejuízo do legítimo ato de liberdade de opinião que em si encerra, parece-me, contudo, desonesto intelectualmente, próprio de quem “cospe no prato em que comeu”.
Para os que têm idade para tal, basta recorrer um pouco à memória e comparar o Portugal de hoje com o de há décadas atrás. A perfeita consciência do quão o país mudou nestes 38 anos, e para melhor, impõe-se. Hoje, as famílias já não vivem em casas sem água canalizada ou esgotos. Já não se trata de “comodidades”. Damo-las por garantidas e não nos lembramos que, em Abril de 1974, metade da população não tinha acesso a esses “bens”. Somos hoje mais de 10,5 milhões. Destes, mais de 1,2 milhões têm um curso superior e quase 72% de todos os portugueses acabaram, pelo menos, o secundário. Já não precisamos de obrigar tantas crianças a trabalhar logo depois do ensino básico, conseguimos investir na educação. O acesso à habitação própria foi uma realidade. A nossa democracia consolidou-se.
A qualidade de vida dos portugueses aproximou-se dos parâmetros dos países desenvolvidos. Socializou-se a educação e a cultura, tornou-se acessível a saúde e reconheceram-se os direitos das crianças e dos idosos. Ainda, graças ao projeto europeu, que abraçamos pela mão de Mário Soares, o nosso país desenvolveu-se e modernizou-se. Adotaram-se modelos de recolha e tratamento dos resíduos sólidos amigos do ambiente. Alargaram-se e aperfeiçoaram-se os sistemas de saneamento básico e de distribuição de água. Melhorou-se a rede viária e construíram-se novos equipamentos culturais, educativos, desportivos e sociais. Ninguém minimamente sensato pode avaliar de outra forma o balanço dos últimos 38 anos de Portugal!

2. “Todos os portugueses e não apenas os agentes políticos têm o dever de mostrar ao mundo o valor do seu país. Neste 25 de Abril, a minha intervenção tem um objetivo preciso e uma razão prática: exortar os nossos concidadãos a corrigir a falta de informação ou até a desinformação que subsiste no estrangeiro sobre o país que somos', apelou o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, na sessão solene do 25 de Abril, na Assembleia da República.
Ao invés do que era esperado, a mensagem do Chefe de Estado não colocou a tónica nos “limites para os sacrifícios', o que foi amplamente criticado por alguns setores políticos. Cavaco optou por afastar-se dos já habituais (e desgastados!) discursos pessimistas e derrotistas, lançando um novo desafio e uma nova causa nacional - a de difundir as coisas boas que o país possui e que são desconhecidas para muitos estrangeiros. Se essa tarefa for feita com sucesso, estar-se-á a contribuir para melhorar as condições da economia e da criação de emprego. Aplaudo. Duplamente, aplaudo! É que já não tenho pachorra para discursos político-partidários, de crítica não construtiva, fonte de problemas e nunca de soluções.
O Presidente investe cada um de nós na qualidade de “embaixadores” do país, com a missão de atrair investimento externo. Trata-se de uma missão impossível? Não! Cada um, cada português, à sua maneira, e à escala da respetiva teia das relações sociais e profissionais, pode colaborar. Como? Temos de promover mais Portugal como destino, porque tem centros de excelência, condições climatéricas atrativas, gastronomia, tradição, cultura e história. Temos de difundir o papel dinâmico de Portugal em setores em que “dá cartas” no mundo, como sejam o vinho, a cortiça ou mesmo a ciência (v.g. saúde). Temos de apregoar a elevada qualidade das nossas infraestruturas logísticas e de comunicação e dos nossos (altamente adaptáveis) recursos humanos.
O 25 de Abril trouxe-nos a liberdade. Portugal está muito diferente do que era, e para melhor, não adianta aos “velhos do Restelo” apregoar o contrário. No futuro, o país será aquilo que quisermos, soubermos e pudermos. Falta-nos talvez a vontade. Falta-nos talvez “acreditar”, ou saber “como”. Esse é o desafio para as próximas três ou quatro décadas.

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