Correio do Minho

Braga,

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Não pode valer tudo!

Decisões que marcam

Não pode valer tudo!

Ideias

2021-04-06 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

A revelação pública, por um dos intervenientes, do conteúdo de uma conversa privada constitui, no mínimo, uma atitude eticamente censurável que classificará de imediato o seu autor como uma pessoa inconfiável. Ocorrendo a circunstância do autor de tal atitude reprovável e desprovida de bom senso, desempenhar funções públicas, o acto assumirá claramente maior grau de condenação, tanto mais que as consequências de tal postura poderão acarretar gravíssimos prejuízos, quer no plano pessoal quer no institucional.
Acontece que na última sessão da Assembleia Municipal de Braga, na passada semana, ocorreu precisamente uma situação do género e logo tendo como protagonista o presidente da Câmara. Como é habitual dizer-se, a reunião até estava a correr bem, com a normal troca de argumentação e explanação de teses políticas, mas com a civilidade que constitui apanágio do mais importante fórum político do edifício democrático municipal. Mas vamos aos factos.
Os deputados municipais aprovaram, finalmente, a alteração do PDM e o plano de urbanização das Sete Fontes, instrumentos de grande relevância na medida em que abrem caminho para o tão desejado arranque do parque eco monumental. Foi um momento alto do mandato que terminará no final deste ano, como aliás a bancada do PSD bem assinalou ao classifica-lo como histórico. Mas da exultação quase generalizada dos eleitos ao disparate do presidente da Câmara foi apenas um pequeno passo.
Porventura embalado pela constatação de que o Parque Monumental das Sete Fontes é uma aspiração geral, e que o seu usufruto é, de facto e desde há muito, uma das grandes ambições dos bracarenses, Ricardo Rio tentou chamar a si os louros do avanço que a deliberação poderá, finalmente, proporcionar. Desafortunadamente, fê-lo da pior forma, ao revelar uma conversa privada que manteve com o seu antecessor, numa clara atitude de desrespeito e abuso da confiança relativamente ao seu parceiro de diálogo.
Percebe-se que em ano de eleições autárquicas, a tentação de capitalizar politicamente “ganhos” seja bastante forte. Mas não é minimamente admissível que essa vontade de “marcar terreno” possa suplantar os imperativos que devem enquadrar as boas práticas de um democrata. Mesmo no combate político, não pode valer tudo!
Além de revelar uma grande deselegância de carácter, o que já não é pouco, esse tipo de comportamento também é absolutamente inaceitável porque descredibiliza não apenas o seu autor mas, de um modo geral, a classe política a que o mesmo pertence.
Mesmo passando ao lado das questões que têm a ver com a polémica relativa ao conteúdo da conversa – embora, neste particular, não possamos ignorar que o alegado autor das declarações divulgadas por Rio já veio a público desmenti-las - a verdade é que este comportamento do presidente da Câmara pode vir a criar-lhe grandes dissabores pessoais e, inclusivamente, gerar dificuldades acrescidas à gestão da coisa pública.
De facto, depois desta diatribe, Ricardo Rio poderá sofrer consideráveis danos reputacionais, designadamente do ponto de vista da sua confiabilidade, mas também ao nível da sua credibilidade. É que não nos podemos esquecer que no exercício das funções que lhe estão cometidas, o presidente da Câmara é obrigado a estabelecer contactos a vários níveis, sendo certo que muitos deles têm por objectivo tentar ultrapassar impasses e acordar princípios de negociações. E é óbvio que tais conversações devem ter por base o princípio da confiança mútua, um princípio que agora pode ter sofrido um duro revés, se não se quebrou mesmo.
Parece-me legítimo, nestas circunstâncias, que se coloque a tónica nas dúvidas e receios que alguns potenciais intervenientes possam vir a sentir quando tiverem que reunir com uma pessoa que agora demonstrou que, do ponto de vista da reserva, será pouco fiável. E isto, repito, sem entrar pelo campo do conteúdo das conversas, isto é, sem tratar de saber se as partes divulgadas têm ou não alguma correspondência com a verdade. Como é público, no caso em apreço Mesquita Machado sentiu a necessidade de fazer uma “reaparição”, o que é extremamente raro, para desmentir Ricardo Rio, acusando-o de “maldosamente” divulgar “a censurável inverdade de que o aconselhara a não avançar com o Parque Urbano das Sete Fontes”.
A questão de fundo que no futuro Ricardo Rio poderá ter que enfrentar será no âmbito do princípio da boa-fé. E tal poderá acontecer porque a sua conduta na Assembleia Municipal não é compaginável com os tradicionais padrões de comportamento de pessoas francas e sinceras, ou seja de pessoas que respeitem as normais regras de convivência, as quais impõem a cada um a adopção de uma conduta reta e leal quando interage com terceiros. Para bem do município e dos bracarenses, esperemos que tal não venha a suceder!

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