Correio do Minho

Braga,

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(Não) trabalhar no Carnaval

Datas que não podem ser esquecidas durante todo o ano

Ideias

2014-03-02 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Este ano, mais uma vez, não há tolerância de ponto no Carnaval. Na prática, muitas instituições estarão fechadas, os transportes públicos terão carreiras subtraídas, a festa sairá à rua em muitos sítios exigindo um público massivo para ver passar os corsos.

A Universidade onde trabalho funcionará normalmente por estes dias, mas o colégio do meu filho fecha segunda e terça-feira. Como não posso soltar a criança no espaço público para que terceiros desconhecidos a acompanhem, terei um problema para resolver. Não faz sentido.

Muitos municípios decretaram tolerância de ponto na terça feira, sendo aí seguidos por algumas empresas privadas. Nesse contexto, poderemos ter a seguinte situação: uma empresa sediada no Porto que presta serviço em diversos municípios diz aos seus funcionários para não virem trabalhar no carnaval e estes falham o serviço em locais onde se pretende que o trabalho decorra normalmente. Não faz sentido.

Em vários pontos do país, haverá corsos à solta, com investimentos avultadíssimos. Em Torres Vedras e Ovar, o orçamento ascende a 500 mil euros; na Mealhada, o carnaval mais brasileiro de Portugal custa 140 mil euros. O evento tem, em alguns sítios, um enorme impacto na economia local, mas, para tal acontecer, é preciso gente disponível para essa deslocação.

Em Podence, uma aldeia de Macedo de Cavaleiros com 300 habitantes, esperam-se por estes dias oito mil pessoas, atraídas pelos tradicionais caretos que (re)criam um carnaval chocalheiro. O governo diz que não há tolerância de ponto, mas os municípios em festa não trabalham. Não faz sentido.

Leio na imprensa que os hotéis da Madeira, Algarve e Serra da Estrela têm, neste início de semana, um substancial índice de ocupação. Há muita gente em férias. “Está a surgir a ideia de que o pior já passou e pressente-se em alguns sectores um certo sentimento de alívio. Saturadas do discurso pessimista, algumas camadas da população começam a querer desforrar-se da retração a que se sentiram obrigadas nos últimos anos”, declarava Raquel Barbosa Ribeiro, especialista em sociologia do consumo ontem no ‘Expresso’.

Na verdade, a crise ainda não passou, mas é difícil mudar de um dia para outro certos estilos de vida, nomeadamente aqueles que aprendemos a ter em ambiente de lazer. Também este anúncio apressado do fim da austeridade não terá muito sentido, mas em tempo de férias ninguém estará muito interessado em aprofundar isto.

Hoje e amanhã muitos de nós irão trabalhar normalmente. Outros vão tentar conciliar o inconciliável: o trabalho e a ocupação dos filhos que ficam em casa sem nada para fazer. Outros simplesmente saem para a folia. Não há propriamente um feriado, mas também não haverá uma rotineira jornada de trabalho. Num país bem treinado a dar a volta àquilo que se decreta quase de forma unilateral, seria de prever que não conseguiria acabar assim, de um momento para o outro, com o Carnaval.

Na terça-feira, mesmo em locais onde os municípios alinhem pela vontade do poder central, haverá muita criançada disfarçada na rua, acompanhada por adultos que deveriam estar no respetivo local de trabalho. Talvez fizesse sentido repensar melhor o que se impôs para o Carnaval. Ninguém levaria a mal qualquer recuo.

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