Correio do Minho

Braga, terça-feira

Não! Um problema de expressão

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Escreve quem sabe

2014-02-23 às 06h00

Joana Silva

Frequentemente ajustámos, quando em conversa com um colega de trabalho, amigo ou familiar a forma como dizemos certas opiniões para que não hajam juízos de valor incorretos. Quando não são bem entendidos/interpretados podem resultar em conflitos interpessoais (zangas, mágoas, aborrecimentos etc.). As crianças são, na verdade, muito vulneráveis aos comentários proferidos pelos pais e os mesmos não sendo positivos podem ter repercussões avassaladoras no seu desenvolvimento pessoal e social. Os pais, devido às circunstâncias da sociedade atual são cada vez mais, pais híper protetores, mas para o qual deve haver “um peso e uma medida”.

Tomemos em consideração os seguintes exemplos. Um menino que chega a casa e que mostra orgulhosamente o trabalho de expressão plástica digno de nota excelente. Os pais exprimem “ Essa disciplina não conta para nota. Boas notas deves tirar sim, a português e a matemática”. Se por um lado compreende-se que estes pais amam incondicionalmente o seu filho e desejam o melhor para ele, por outro lado, podem estar a desalentar o mesmo. A atitude ideal seria valorizar o esforço do seu educando e reforça-lo nas áreas com maior dificuldade, “Tens talento. Apesar de ainda não teres conseguido subir todas as notas, tens te esforçado. Vais conseguir!”.

São verdadeiramente palavras de alento e encorajadoras. Suponhamos um segundo exemplo. A caminho de regresso a casa, a criança que ao olhar para o vidro de uma vitrina verifica que tem a cara riscada com esferográfica. Automaticamente leva as mãos à cara a fim de remover o risco. O adulto que o acompanha expressa “Não metas as mãos na cara!”. Seguidamente ao olhar para o chão deslumbra-se com uma tampa colorida. Direciona-se para a apanhá-la e ouve novamente “Não apanhes isso!”. Mais um “não”…. A criança irá seguramente corresponder à vontade, no entanto, pode não perceber o porquê que não pode “limpar a cara” ou “apanhar a tampa” ou porque ouve tantos “nãos”. Neste sentido, uma justificação vale mais que “mil repreensões”.

Naturalmente que se lhe for explicado o porquê, que pode ficar doente, quando não se lava as mãos pensará “duas vezes” na ocorrência de outra situação semelhante. O mesmo de aplica para outras situações em que verbalizam “ Não mexas!” , “Não toques!”, “Não faças!” , “Não quero!”. Perante tantos e repetidos “nãos” a criança pode desenvolver bloqueios face às experiencias do dia-a-dia, isto porque , a infância é a fase da descoberta. A curiosidade é mais forte do que “não posso”.

Do “não” pode advir a insegurança, o medo, receios e até em consequências mais gravosas… a diminuição da auto-estima. Neste sentido é extremamente importante uma comunicação afirmativa, positiva e coerente. Devem existir regras mas que não se extremem “ no oito ou oitenta”. Basicamente, o registo comunicacional não deve ser nem demasiado permissivo nem demasiado híper protetor, há que haver um equilíbrio. A ter em atenção que, o “não”, é igualmente preciso na comunicação, tal como o sim para a imposição de regras.

Mas o “não” repetitivo tende a conduzir ao pessimismo, “Os pais não gostam de mim, faço tudo mal”. É assim que as crianças entendem o “não” sistemático, quando os pais nada mais nada menos do que o que pretendem é mostrar com estas chamadas de atenção preocupação e afeto. Em suma, tudo se resume a um “problema de expressão”.

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