Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Naquela aldeia...

Braga e a Rampa da Falperra

Conta o Leitor

2019-07-26 às 06h00

Escritor Escritor

Carlos Alberto Rodrigues

Naquela aldeia existem só pessoas de bem. Naquela aldeia ainda se confia e conhecem as pessoas. Naquela aldeia moram pessoas felizes. Naquela sua aldeiazinha criou as melhores amizades, das que ficam para sempre dentro do espírito de cada um e que são testemunhas dos melhores momentos de nossas vidas.
Neste aspeto Carlitos é o melhor exemplo do que acabámos de escrever. Por coincidência tinham nascido no mesmo dia no mesmo mês e no mesmo ano!!!
Talvez também por causa disso tenham alimentado durante anos e anos uma amizade digna dos melhores companheiros de jornada. E tal como a maior amizade também lá encontrou o seu primeiro amor, nos campos ceifados, entre o feno e os milheirais, sempre nos Verões da sua vida, nas águas refrescantes do riacho que serpenteava a aldeia e que tão bem conhecia.
Ela morava a escassos metros da casa que o viu nascer e crescer, lentamente, para a vida e cruzava-se com ela todos os dias. Tinha “a seu favor” o facto de ser irmã de Carlitos, seu braço direito nas brincadeiras do dia a dia e a quem ia segredando o seu interesse em querer partilhar as alegrias com figura tão altiva e bela.
Bela, assim era ela e assim era seu nome, ou melhor, como era chamada. Nunca ninguém antes fizera jus a seu nome. Constou-se que a primeira vez que se viram, meio envergonhados, ficaram parados a olharem-se mutuamente e com um jeito malandro lá começou a descrevê-la ali mesmo naquele mesmo instante. Logo aí o seu rosto cândido ficou rubro de decoro, mas ao mesmo tempo aquelas palavras enchiam o seu pequeno coração de alegria pois ela nutria por ele o mesmo sentimento.
Descrevê-la era, por isso, um enorme prazer: a sua graça o seu modo de sorrir e de falar centravam-lhe todas as atenções. Que melodia eram suas palavras! Vindas duma boca perfeita e as formas de seus lábios numa face arredondada e rosada, cujos cabelos de ouro realçavam a alvura de sua pele.
Bela! Deus quando a criou estava deveras inspirado pois os anos vindouros fizeram dela mulher esbelta que um dia fez disparar seu coração.
Dias singulares de inocência mas que irradiavam alegria todos os segundos, minutos e horas.
Mas para além de amizades e amores precoces, aquela aldeia enquanto quadro apresenta-se digno das pinceladas de mestres como Renoir ou Monet:
Em grande plano duas vertentes montanhosas em que o verde das árvores se sobrepõe ao verde dos campos, dos prados frondosos limitados por árvores de fruto, ciprestes, salgueiros ou ulmeiros. Da casa de seus avôs duas janelas ficavam estrategicamente frontais para a barragem que se via bem no centro do quadro inspirador mas ao mesmo tempo as janelas ficavam sobranceiras ao casario que era avistado lá em baixo, desde o centro nevrálgico da aldeia bem como uma outra “aldeiazinha” (onde descansam os mortos) esta caiada de branco e que ficava numa pequena colina acima do rio, local onde descansam os seus entes mais queridos que já tomaram A VIAGEM. Os avós e padrinhos, tios e primos, ele sabe sempre onde os encontrar para trocar dois dedos de conversa. Se olhássemos um pouco mais para cima, em direção aos céus e quase tocando-lhes podíamos avistar o resto da idílica paisagem carregada de verde fresco: O Monte da Abadia de Bouro ou o Monte de Santa Isabel, um dos locais mais belos e aprazíveis das redondezas ou mais longe, quase no fundo deste quadro naturalista as Serras da Cabreira e do Gerês, descendo em direção às pontes de rio Caldo. Dali, qual miradouro natural avista-se a perder no horizonte uma paisagem única em que o ar fresco e saudável nos trás à lembrança outros ares. Cuja existência serve para alimentar o espírito de sublime beleza e aromas que dançam nos ares e inebriam-nos de prazer.
Nas faldas daquela serra serpenteada pelo rio Cávado cujas águas formam um belo espelho na Caniçada e que depois de a “abandonar” continua a sua aventura num vale encravado entre as vertentes montanhosas que servem de miradouros privilegiados sobre o casario tão típico daquela região e cujas águas refrescam as suas margens e no calor dos Verões os corpos sedentos que convidam ao mergulho e às brincadeiras próprias dos catraios que se sentiam uns felizardos apenas por lá viverem e partilharem o mesmo Sol...
Quase a cortar o horizonte, lá ao fundo do quadro, a majestosa serra geresiana impõe beleza e cores mágicas para terminar em grande com pinceladas de cores quentes.
Este conjunto de cores, de aromas, o céu, a água ou as montanhas, fazem recordar as viagens ao monte em busca de mato, entretanto roçado, ou de lenha para aquecer nos longos dias e noites invernais transportados em carros puxados a juntas de vacas e cujos eixos “choravam” sobre as grandes pedras da calçada daqueles tempos.
Rituais que o tornavam um sortudo por puder acordar ao som do chilrear dos pássaros, do pequeno-almoço, que tem um sabor diferente e único na aldeia, das correrias por entre veredas e os verdes campos na companhia das irmãs, primos e amigos, numa ciranda de alegria contagiante. O brilho nos olhos nas lides domésticas, quando suas avós preparavam o farnel para alimentar os homens que trabalhavam arduamente a terra, que vindimavam ou roçavam mato numa alegre algazarra entre gargalhadas e largos sorrisos.
Por vezes dou comigo a pensar que aquele sorriso franco e aberto ficou lá atrás num tempo situado algures entre o Gerês e aquela casa de granito com belas árvores de fruto e roseiras bravas. No tempo da criancice e das brincadeiras de pequeno; mas nessa altura era um sorriso que não cabia no mundo e que tinha a duração de cada dia!
Mas também é bom saber que brevemente, porque esta vida são – mesmo! – dois dias e como dizia o cantor: um deles é para acordar… voltaremos todos ao tempo que deixará de ser saudade e que ficou lá atrás.
Nessa altura tudo terá valido a pena. Todos os natais da (nossa) vida devem ser vividos com o espírito de… “Natal Esperança”!
Com alegria por ainda termos connosco alguém que nos ama e se nos faltar esse Amor sempre teremos a memória e a certeza de que um dia voltaremos a nos encontrar por aí…

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