Correio do Minho

Braga, terça-feira

Naquele dia

Tancos: falta saber quase tudo

Conta o Leitor

2017-07-19 às 06h00

Escritor

Martha Nery

A manhã ainda não acordara de todo. Estava atrasada. Pelo jornal, o sol nascera às seis horas e sete minutos. Sempre lhe impressionara o rigor da meteorologia. Sentia-se, senão segura, pelo menos bastante confortável ao saber, por exemplo, que a nebulosidade se dissiparia no meio do período; que à tarde haveria elevação de temperatura até as 17h31 quando, então, teria início o poente. Essas informações davam-lhe uma espécie de certeza da realidade.

A bruma dos meados de junho tornava tudo indefinido na cozinha, já de si escura por estar na área interna do antigo prédio onde reside desde, praticamente, a época de sua construção. Num tamborete, de frente à claridade saída do visor do forno, reparando para que o pão não tostasse demais, olhava para a imensa luva acolchoada e sorria agradecida pela tepidez da sua mão.
Aquela lhe parecia uma manhã como tantas outras. No entanto, algo ali não lhe caia comum. Estava inquieta, não obstante a placidez do seu rosto e a serenidade dos seus gestos. Olhava ao redor, mesmo penumbroso, tentando identificar o quê ou onde estava o novo, o diferente, o inusitado. Nada era inabitual. Estava tudo ali. O de sempre. Nos mesmos lugares. O quê, então?!... Sentia certa pressa dentro dela. Ou, pelo contrário, seria um letargo? Um vagar? Parecia ser uma pressa que não quer correr. Uma aflição?... Ultimamente, tem sido assaltada por essas emoções confusas, indefinidas.

Sabia que não podia se demorar nesse torpor. Daí a pouco a casa acordaria: marido para o trabalho, filhos para os estudos. Mais tarde, a faxineira com sua tagarelice honesta, feliz. Lembra-se, agora, que às vezes se sente envergonhada diante dessa mulher. Como ficar reclamando da vida, da carestia, da falta de tempo, de cansaço perto dela?... O casulo tão cuidadosamente urdido desde seu nascimento e sob o qual agora envelhecia deixou-a ao abrigo das “intempéries da vida” é bem verdade. Porém, como armadilha, não lhe permitiu fruir ou sequer conhecer o seu reverso: a descoberta de si mesma, a escolha de seus próprios caminhos, a alegria da liberdade genuína. Qualquer coisa no seu peito está fora do lugar. Sente-se uma ingênua, às vezes. Sabe-se, entretanto, ser dona de fina sensibilidade, de uma argúcia singela, miúda, mas também aguda, penetrante, altiva. O silvo estridente da chaleira corta seus pensamentos. Sua atenção dividida entre o forno e o coador. Seu café raramente fica saboroso. Mas ela insiste. Ao torcer o pano do café com mais força, uma dor forte nas juntas do anular esquerdo obriga-a a largar tudo de supetão.
Atordoa-se.

Em segundos, tudo fora de ordem: bule entornado, café escorrendo de bancada abaixo, salpicos no avental.
Parada, atônita, não consegue fazer qualquer movimento para interromper a sucessão dos rápidos incidentes. Apenas saltara para trás a contemplar o caos à sua frente.
Um cheiro acre de queimado dá-lhe conta de que agora só resta levar para a mesa o insípido “pão de forma”.
Desalentada diante do desarrumo, reconhece que é preciso limpar e fazer tudo de novo. E dessa vez mais depressa.
Recorda-se da avó: as mãos em concha, os dedos acavalados, entrevados: acontecerá comigo também?...

Como um autômato, saca o avental. Tão pouco os respingos! Sai á procura do esfregão: que nome mais gaiato!... subitamente recorda-se de como lhe soou estranha quando, pela primeira vez leu a palavra “hortelão” num dos autores portugueses. Vem-lhe à memória como num filme a cariciosa imagem de campos verdes, verdinhos; a visão bucólica de camponeses com fartos chapéus: era o mural da parede de fundo da padaria da sua infância.
Pendura o avental, encontra o rodilhão. Tomadas essas providências, organiza em etapas mais lógicas o que tem a fazer. Mesmo assim a cabeça não pára. Impressiona-se com as voltas do pensamento. Por quê? Como? Não entende nem quer ou pode dar-se ao luxo de, nesse momento, catar respostas, caçar significados.
O marido lá do banheiro, pede a toalha esquecida no varal. Pronto! Vai tudo num roldão só. O corre-corre logo terá início.

Chegam-lhe à mente as palavras daquele poeta que vira ontem num desses programas de entrevistas. Era já um senhor, cabeça tão branquinha, voz firme e doce ao mesmo tempo. Causara-lhe forte impressão aquele homem. Parecia que falava só para ela. Falava tão simples! De tudo o que disse, reboa na sua cabeça: “tem mais presença em mim o que me falta”. Que maneira mais suave de dizer uma verdade tão dura! Calou fundo na sua alma. Provocou-lhe incontido alvoroço nos sentimentos. Pressente a chegada de delicadas e desconhecidas fruições. Por enquanto, jogou tudo num escondidinho do coração. Agora o tempo urge.

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