Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Natal do meu contentamento

O mito do roubo de trabalho

Conta o Leitor

2015-08-02 às 06h00

Escritor

Teresa Braga

Maria acendeu a ultima vela dourada e compôs melhor o castiçal  sobre a delicada toalha de linho verde bordada com azevinhos de Natal. A mesa estava pronta! No canto da sala a  frondosa árvore de 1,80 m irradiava alegria com as muitas luzes multicolores e as inúmeras prendas aos seus pés. O cavalinho de madeira, a sua velhinha prenda de um Natal de outrora,  ocupava, como em todos os Natais, um local de destaque.
Sorriu para  o Sr. Riscas- o gato- que se espraiara longamente no longo sofá e que por ser Natal adquirira o direito de permanecer na sala. O Sr. Riscas era um diabrete que mal vira o estranho objecto de extremidades engraçadas para serem mordidas a sair do caixote, assim declarara que era sem duvida  um bom brinquedo para a dita quadra festiva! 
Sintonizou a TV num qualquer canal com música natalicia e sentou-se na confortável  poltrona  camel com uma revista enquanto esperava. Eles deveriam estar quase, quase, a chegar!
Natal era para si Alegria e Partilha: alegria pelo abençoada que se tinha sentido ao longo dos ultimos trinta anos e Partilha por tudo aquilo com a vida a presenteara.
Encostou a cabeça na dita poltrona e a mente sorriu perante as lembranças que lhe acorreram inevitavelmente ao pensamento: para aquele Natal, há tanto tempo atrás, em que o seu pequeno rostinho se encontrava colado ao vidro da janela do quartinho do lar de acolhimento. Olhava com um ar triste a chuva e o granizo que se degladiavam da parte de fora numa furiosa luta de titãs.
 Tinha sete anos e para ela não era Natal!
 A mãe tinha prometido que a viria buscar. Não o fizera!
Nada que não estivesse, na verdade, à  espera. Nos seus curtos anos de existência a vida tinha-a presenteado com um longo











rol de promessas não cumpridas: a casa me§lhor para que iriam mudar; o novo emprego que iria arranjar; as companhias que iriam ser diferentes. A mãe tudo prometia, até as garras maquiavélicas desse vicio que era o suave entorpecer dos sentidos a que a bebida a obrigava, tomarem conta de tudo. Tudo prometia e nada cumpria!  Certo dia em finais de Verão (lembrava-se que usava uma saia curta de caqui e uma camisola amarela com o “piu-piu”), os policias irromperam por  aquela pobre desculpa de casa e, não obstante os berros e gritos da sua mãe, tinham-na levado.
Assim, todos as manhãs, Maria colava o rostinho ao vidro da sala, na esperança que fosse aquele o dia, o dia em que ela viria. O Verão desaparecera, para dar lugar ao cair da folha e depois ao frio que se instalara definitivamente. E ela não veio! E mais uma promessa fora quebrada! Outro Natal chegava e Maria não conseguia encontrar em si vontade para sorrir ao senhor vestido de vermelho que amiúde encontrava pelas ruas da cidade: do caminho da escola para aquele lugar ou mesmo até quando uns dias antes todos tinham ido dar um passeio de autocarro.
A senhora de vestido preto, do lar - só mais tarde viria a saber que era uma frei











ra- pedira um dia aos meninos para escreverem a tradicional carta ao Pai Natal e Maria deixara a sua em branco. Quando a Irmã lhe perguntara o porquê, ela respondera que apenas desejava alguém que gostasse dela e isso sabia que o Pai Natal não podia dar.
 Aconchegou melhor os oculos ao nariz enquanto uma pequena lagrimita traiçoeira se lhe escorria; fungou; estava a ficar uma sentimental com a idade!
Aquele Natal, especialmente frio do longinquo ano de sessenta e dois,  trouxera-lhe o primeiro vislumbre do melhor que a vida nos pode efectivamente oferecer!
 Nessa manhã de vinte e cinco, todos os dez meninos que na altura residiam no Lar da Boa Esperança encontravam-se alinhadinhos à mesa do pequeno almoço na melhor roupinha que possuiam. Quatro deles iriam passar  o dia com as respectivas familias, que tinham prometido vir busca-los  e os outros cinco receberiam visitas. Só Maria não tinha ninguém que a viesse ver ou buscar.  E talvez tivesse sido por isso que aquela senhora chique de fato de malha suave, da cor do céu de um dia de Verão, lhe tinha dedicado a sua atenção. Passara todo o dia com ela e no fim oferecera-lhe um pequeno cavalinho de madeira. Bem, na verdade, o cavalinho seria para todos os meninos do lar mas naquele dia tinha sido só seu! E Maria tivera até então poucas coisas na vida a que pudesse chamar de só suas!
Para supresa de Maria, a senhora voltara: primeiro uns dias depois do Natal para a convidar a passar com ela as festas de Ano Novo  e mais tarde para, em definitivo, partilhar a sua própria casa.
A sua querida tia mamã!  Assim chamara toda a vida a Marcelina de Sá pois, embora  tal como a própria tinha prometido logo no dia em que oficializara a adopção com a menina dos grandes olhos tristes,  não pretendia ser uma mãe mas antes uma tia chegada. E ela o fora! Tão mais do que isso!  Ensinara-lhe pela vida fora o que há valores imprescindiveis, sem os quais a mesma não tem valor: o dom do Amor para dar e o da Partilha e Retribuição. Tal  o mostrara plenamente pelos três filhos do coração, que em conjunto com Maria, criara!
 Maria tinha aprendido a ser amada e a saber transmitir os mesmos ensinamentos! Tão bem aprendera que, anos mais tarde, - já formada como Educadora de Infância e profundamente alerta para a realidade  dos  bairros mais degradados da Capital, onde decidira exercer a sua profissão -em conjunto com o seu marido, médico e pessoa de uma profunda consciência moral e ética, tinham acolhido outros tantos meninos, hoje todos já adultos- a Francisca, de 41 anos, o José, de 38,  a Ana de 35 e a Inês, de 34.
E hoje, dia de festa, embora espalhados pelos quatro cantos do mundo todos eles regressavam, com as respectivas familias, ao calor e conforto do lar, pois, afinal, era dia de Natal! 
 A campainha tocou. Maria suspirou e voltando ao presente com o coração expectante de antecipação apressou-se em direção à porta para os receber.

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